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Do IPO bilionário à revolta: como a Roblox irritou seu maior público

Crianças de até 12 anos protestaram contra o bloqueio dos chats, em reação que se espalhou por servidores e redes sociais

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Roblox: plataforma de jogos é alvo de protestos | Montagem/Exame

Em um espaço extenso com gramado verde, um protesto acontece. Nele, milhares de pessoas carregam placas com frases como "justissa pela gente" e "fallca infiliz". Algo corriqueiro, salvo uma exceção: tudo ali é feito de pixels. No Roblox, a proibição de chats para menores de 13 anos virou um problema dos grandes.

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A mudança, que entrou em vigor globalmente entre os dias 6 e 9 de janeiro, exige verificação facial de idade para liberar o uso de chats de voz e texto. Crianças de até 9 anos tiveram o acesso bloqueado às conversas, a menos que os responsáveis autorizem, e só podem se comunicar com crianças de até 13 anos.

Já usuários a partir de 13 anos que concluíram a verificação de idade podem se conectar e conversar com mais liberdade com pessoas que conhecem, mesmo fora de sua faixa etária imediata. A medida afeta todas as regiões onde o chat é permitido, mas, no Brasil, não foi bem aceita.

Protestos de crianças contra medida do Roblox têm viralizado nas redes sociais | Reprodução
Protestos de crianças contra medida do Roblox têm viralizado nas redes sociais | Reprodução

As manifestações começaram em servidores populares como Brookhaven entre os dias 13 e 14 de janeiro. As crianças se reuniram para exibir placas e protestar contra o novo sistema de verificação de idade.

Como estavam com o chat de voz bloqueado e o texto restrito, improvisaram formas de comunicação visual: criaram cartazes com frases de protesto, construíram barricadas com objetos do jogo, incendiaram carros virtuais e organizaram "desfiles" com slogans.

As frases eram repetidas em massa por centenas de avatares e incluíam variações como "queremos o chat" e ataques diretos ao influenciador Felca. Os erros de digitação provavelmente foram intencionais, seguindo a lógica cômica usada por comunidades para gerar viralização e identificação.

Houve ocupação simultânea de diversos servidores, com ações sincronizadas.

Os jogadores combinavam horários para entrar em mundos virtuais e iniciar os atos. Em algumas partidas, os protestos travavam a movimentação normal dos jogos, interrompendo a rotina dos usuários que não participavam das manifestações.

Protesto no Roblox

As pessoas também se organizaram por fora da plataforma. Em grupos de WhatsApp e canais do Discord, combinaram rotas, comandos e frases a serem repetidas nos servidores. Alguns usaram o sistema de design de roupas da própria Roblox para vestir seus avatares com trajes de protesto.

A adesão foi massiva. Em menos de 48 horas, vídeos e capturas de tela circularam nas redes sociais com milhões de visualizações. O protesto digital virou assunto mais comentado em plataformas como TikTok, Instagram e X (antigo Twitter), transformando o episódio em um fenômeno de mídia. A estética dos protestos — infantil, barulhenta e desorganizada — foi interpretada por muitos adultos como caos. Mas, na prática, revelava uma capacidade rara de mobilização coletiva espontânea por parte de usuários com menos de 13 anos.

A organização, o volume de participantes e a criatividade nas estratégias deram à "Revolta do Roblox" um alcance que extrapolou o jogo e passou a influenciar o debate sobre governança de plataformas infantis.

Felca é alvo de ataques

Um nome recorrente nas placas foi o do influenciador Felca (Felipe Bressanim). O criador havia publicado vídeos sobre "adultização infantil" e os riscos de exposição precoce online. Mesmo sem ligação direta com a decisão da Roblox, ele foi apontado como responsável pelas restrições. Recebeu ameaças, ofensas e teve seu nome distorcido nas mensagens de protesto.

Para usar o chat, agora é preciso enviar uma selfie ou vídeo curto pelo aplicativo. A imagem é processada por inteligência artificial da empresa Persona, que estima a faixa etária e apaga o material em seguida. Não é possível burlar o sistema com maquiagem, filtros ou imagens manipuladas, segundo a empresa.

A tecnologia emprega sinais de prova de vida e detecção de deepfake, além de verificações contínuas: se o comportamento de um perfil não condiz com a idade informada, uma nova verificação é exigida.

A empresa afirmou à EXAME que está ciente das manifestações e reforçou que a mudança visa proteger os mais jovens. "Estamos exigindo que todos passem por uma verificação de idade para usar nossos recursos de chat, a fim de ajudar a manter a Roblox o mais segura possível para a imaginação, o jogo e a criatividade", disse.

Pressão judicial e reputacional

A exigência de verificação facial é uma resposta direta à pressão legal enfrentada pela empresa. A Roblox acumula mais de 20 processos judiciais e é alvo de investigações sobre abusos e riscos para crianças. A nova política, de acordo com a companhia, tem como objetivo segmentar a comunicação por faixas etárias e impedir interações entre adultos e menores de 16 anos.

Usuários entre 13 e 17 anos podem usar o chat após verificação de idade. Abaixo disso, o acesso é restrito e exige consentimento dos pais. Nos primeiros testes, feitos em dezembro de 2025 na Austrália, Nova Zelândia e Holanda, mais de 50% dos usuários concluíram o processo.

A adoção global foi acompanhada por reclamações. Usuários relataram falsos negativos, ou seja, casos em que adolescentes foram identificados como crianças e perderam acesso. Outros apontaram que a medida compromete a socialização na plataforma, especialmente em países como o Brasil.

Segundo a empresa, mais de 151 milhões de usuários diários usavam a plataforma em 2025. No terceiro trimestre do mesmo ano, o tempo médio de uso foi de 2,8 horas por dia. O sistema de verificação é atualizado constantemente com testes de segurança, ajustes antifraude e auditorias próprias da equipe técnica da Roblox.

Roblox em Wall Street

A Roblox estreou na Bolsa de Valores de Nova York em março de 2021, por meio de uma listagem direta, com valor de mercado inicial de US$ 41,9 bilhões. Na época, a empresa foi apontada como um dos principais expoentes da economia dos jogos online e da criação de mundos virtuais.

Nos primeiros meses, as ações da empresa (RBLX) registraram forte valorização, impulsionadas pelo crescimento de usuários durante a pandemia e pela expectativa em torno do metaverso.

Mas, desde 2022, o papel passou por ciclos de queda, impactado por resultados trimestrais voláteis, aumento da concorrência e questionamentos sobre sustentabilidade financeira de longo prazo.

Entre 2023 e 2025, a Roblox enfrentou pressões adicionais com investigações sobre segurança infantil, processos judiciais e mudanças na política de moderação.

A nova exigência de verificação facial, implementada em 2026, foi interpretada por parte do mercado como tentativa de resposta regulatória, mas gerou resistência entre usuários e riscos reputacionais.

Apesar das dificuldades, a empresa segue entre as principais plataformas de jogos infantis no mundo. Analistas apontam que seu valor de mercado depende diretamente da capacidade de equilibrar crescimento com segurança e retenção de usuários jovens. Um desafio que ficou mais evidente após os protestos no Brasil.

É claro que não é possível afirmar se a revolta das crianças brasileiras tem relação com a queda da empresa em Wall Street, mas, na terça-feira (21), a Roblox amargou uma queda de 9,7%. Às vezes, a brincadeira é de gente grande.

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