Saúde

Infarto com coronárias ‘normais’: o diagnóstico que está mudando a cardiologia

Hoje, sabe-se que cerca de 5% a 10% dos infartos ocorrem em pacientes que não apresentam obstruções relevantes na angiografia convencional

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Brazil Health
04/05/2026, 12:04 • Atualizado em 04/05/2026, 12:04
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Homem com o punho fechado sobre o coração | Pexels

Homem com o punho fechado sobre o coração | Pexels

Nem todo infarto está associado a artérias “entupidas”. Em uma parcela relevante dos casos, especialmente entre mulheres, o evento ocorre mesmo sem obstruções significativas nas coronárias – um cenário que está transformando o raciocínio clínico na cardiologia.

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Durante décadas, o infarto foi associado quase exclusivamente à presença de placas de gordura que obstruem as artérias coronárias. Esse modelo continua válido para a maioria dos casos, mas não explica todos. Hoje, sabe-se que cerca de 5% a 10% dos infartos ocorrem em pacientes que não apresentam obstruções relevantes na angiografia convencional – condição conhecida como MINOCA (infarto do miocárdio com artérias coronárias não obstrutivas).

Esse diagnóstico desafia a lógica tradicional e exige uma abordagem mais ampla.

Quando o infarto não vem de placas obstrutivas

Nos casos de MINOCA, o problema não está necessariamente em uma placa que bloqueia a passagem do sangue, mas em alterações funcionais ou estruturais mais sutis da circulação coronariana.

Entre as causas possíveis estão o espasmo coronariano – contração transitória da artéria que reduz o fluxo sanguíneo – e a doença microvascular, que afeta os pequenos vasos do coração, invisíveis nos exames tradicionais.

Também podem ocorrer fenômenos como dissecção espontânea da artéria coronária, formação de pequenos trombos ou instabilidade de placas não significativas do ponto de vista anatômico.

Essas situações podem provocar isquemia e até necrose do músculo cardíaco, mesmo na ausência de grandes obstruções.

Mais comum do que se imagina – e mais frequente em mulheres

O infarto com coronárias não obstrutivas é mais frequente em mulheres, especialmente em idades mais jovens ou na transição para a menopausa. Apesar disso, ainda é subdiagnosticado.

Em muitos casos, quando a angiografia não mostra obstruções importantes, o quadro pode ser interpretado de forma equivocada como menos grave ou até não cardíaco. Isso pode atrasar o diagnóstico correto e comprometer o tratamento.

Estudos recentes mostram que pacientes com MINOCA não têm um prognóstico tão benigno quanto se pensava anteriormente. Embora o risco seja, em média, menor do que nos infartos clássicos, ainda há possibilidade de recorrência e complicações cardiovasculares.

Um novo raciocínio clínico na cardiologia

O reconhecimento desse tipo de infarto tem levado a uma mudança importante na prática médica. A angiografia continua sendo um exame essencial, mas nem sempre suficiente.

Hoje, a investigação pode incluir exames adicionais, como ressonância magnética cardíaca, testes de função coronariana e avaliação da microcirculação, dependendo do caso.

Identificar a causa exata do evento é fundamental, pois o tratamento varia conforme o mecanismo envolvido. Espasmo coronariano, por exemplo, exige abordagem diferente da doença microvascular ou de uma dissecção arterial.

Essa nova forma de pensar reforça um princípio cada vez mais presente na medicina: nem sempre o que não aparece nos exames tradicionais significa ausência de doença.

O infarto com coronárias “normais” não é um diagnóstico raro nem irrelevante. É um lembrete de que o coração pode sofrer mesmo quando as artérias parecem, à primeira vista, preservadas – e de que a cardiologia continua evoluindo para enxergar além do óbvio.

Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore - CRM: 24.264/SP | RQE: 69372

Cardiologista

Doutorado em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Livre-docente pela FMUSP desde 2004

Membro Brazil Health

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