Especialista explica por que a condição neurológica pode aparecer com sinais sutis, como “desligamentos”, sensações estranhas e mudanças de humor
Brazil Health
Epilepsia: saiba identificar os pequenos sinais | Reprodução
Quando se fala em epilepsia, a primeira imagem que costuma vir a mente e a de uma pessoa apresentando uma convulsão. Mas a realidade é muito mais complexa.
A epilepsia não é uma única doença, e sim um grupo de condições neurológicas caracterizadas pela predisposição do cérebro a gerar crises epilépticas recorrentes. Pode afetar crianças, adultos e idosos, com impactos sobre a qualidade de vida, o desempenho escolar, a vida profissional e o bem-estar emocional.
Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT,Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung, LG e Roku.
As crises acontecem devido a alterações da atividade elétrica cerebral e podem se manifestar de maneiras muito diferentes, dependendo da região envolvida.
Algumas pessoas apresentam movimentos involuntários, rigidez muscular e perda de consciência. Outras podem ter episódios breves de desconexão do ambiente, formigamentos, alterações de sensibilidade, sensações de déjà-vu, fenômenos visuais, mudanças na linguagem, percepção de odores inexistentes ou sentimentos súbitos de medo e ansiedade.
Em muitos casos, o paciente e a família sequer reconhecem esses episódios como crises epilépticas. Essa diversidade explica por que o diagnostico nem sempre é simples. As crises podem ser confundidas com desmaios, crises de pânico, transtornos psiquiátricos, distúrbios do sono, enxaqueca ou alterações comportamentais.
Por isso, uma história clínica detalhada, associada a observação dos sintomas e aos exames adequados, é fundamental.
As causas também são variadas. Fatores genéticos podem aumentar a predisposição às crises, influenciar a idade de início e até interferir na resposta aos medicamentos. Em algumas síndromes, especialmente as que começam na infância, a investigação genética pode contribuir para esclarecer a origem da doença e orientar estratégias terapêuticas individualizadas.
Nem toda epilepsia, porém, é genética. Traumatismos cranianos, acidentes vasculares cerebrais (AVC), infecções do sistema nervoso central, tumores, malformações do desenvolvimento cortical, falta de oxigênio no período perinatal e doenças neurodegenerativas também podem estar entre as causas.
Diagnóstico: exames ajudam, mas não resolvem tudo
A avaliação deve ser individualizada. A ressonância magnética (RM) do crânio, preferencialmente com protocolo específico para epilepsia, pode identificar alterações estruturais responsáveis pelas crises, como cicatrizes, malformações e lesões discretas. Já o eletroencefalograma (EEG) registra a atividade elétrica cerebral e pode ajudar na classificação das crises e das síndromes epilépticas.
Um EEG normal, entretanto, não exclui o diagnóstico. Em situações especificas, como epilepsias de início precoce, formas resistentes aos medicamentos, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor ou alterações do neurodesenvolvimento, os testes genéticos podem fornecer informações importantes.
Além de ajudar a esclarecer a causa, o diagnostico pode orientar o tratamento e contribuir para o aconselhamento familiar. Um exemplo e a epilepsia de ausência da infância. A criança apresenta episódios breves, geralmente de poucos segundos, nos quais parece “desligar-se” do ambiente, interrompendo a atividade e retomando-a logo depois.
Muitas vezes, esses episódios são interpretados como distração ou falta de atenção. Algumas crianças podem apresentar dezenas de crises por dia, com repercussões na aprendizagem e no desempenho escolar.
Reconhecer corretamente esse tipo de crise é essencial, pois o tratamento e o prognóstico diferem de outras formas de epilepsia.
A epilepsia também pode estar associada a outras condições neurológicas e do neurodesenvolvimento. Crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam maior frequência de epilepsia do que a população geral. Também existe associação com o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que pode afetar a atenção, o desempenho acadêmico, as relações sociais e a qualidade de vida.
Além disso, pessoas com epilepsia apresentam maior risco de ansiedade, depressão e alterações cognitivas. Essas condições podem causar impacto tão relevante quanto as próprias crises, reforçando a importância de uma abordagem multidisciplinar e centrada no paciente.
Tratamento correto
Nas últimas décadas, a compreensão das epilepsias avançou de maneira significativa. Hoje, sabe-se que diferentes tipos da doença podem ter mecanismos biológicos distintos e, consequentemente, exigir tratamentos diferentes.
A escolha do medicamento anticrise deve considerar principalmente o tipo de crise e a síndrome epiléptica. Um fármaco eficaz para uma forma de epilepsia pode ser pouco efetivo ou até agravar outro tipo de crise. Por isso, o diagnóstico específico e um dos pilares do tratamento.
A combinação entre avaliação clínica, exames complementares e investigação da causa permite melhorar o controle das crises, identificar comorbidades, definir o prognostico e elaborar estratégias individualizadas.
Compreender que “epilepsia” engloba diferentes doenças, com causas, mecanismos e tratamentos distintos, é fundamental para reduzir atrasos diagnósticos, combater o estigma e oferecer uma assistência mais eficaz e humana.
Mais do que controlar crises, o objetivo do tratamento e permitir que cada pessoa alcance seu maior potencial de desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida.
** Mauricio Lima Lobato é neurologista e neurofisiologista
Epilepsia: saiba identificar os pequenos sinais Especialista explica por que a condição neurológica pode aparecer com sinais sutis, como “desligamentos”, sensações estranhas e mudanças de humorSaúde2026-09-28T16:01:23.903ZQuando se fala em epilepsia, a primeira imagem que costuma vir a mente e a de uma pessoa apresentando uma convulsão. Mas a realidade é muito mais complexa. A epilepsia não é uma única doença, e sim um grupo de condições neurológicas caracterizadas pela predisposição do cérebro a gerar crises epilépticas recorrentes. Pode afetar crianças, adultos e idosos, com impactos sobre a qualidade de vida, o desempenho escolar, a vida profissional e o bem-estar emocional. + Crises que não parecem crises As crises acontecem devido a alterações da atividade elétrica cerebral e podem se manifestar de maneiras muito diferentes, dependendo da região envolvida. Algumas pessoas apresentam movimentos involuntários, rigidez muscular e perda de consciência. Outras podem ter episódios breves de desconexão do ambiente, formigamentos, alterações de sensibilidade, sensações de déjà-vu, fenômenos visuais, mudanças na linguagem, percepção de odores inexistentes ou sentimentos súbitos de medo e ansiedade. Em muitos casos, o paciente e a família sequer reconhecem esses episódios como crises epilépticas. Essa diversidade explica por que o diagnostico nem sempre é simples. As crises podem ser confundidas com desmaios, crises de pânico, transtornos psiquiátricos, distúrbios do sono, enxaqueca ou alterações comportamentais. Por isso, uma história clínica detalhada, associada a observação dos sintomas e aos exames adequados, é fundamental. Por que acontece: genética e outras causas As causas também são variadas. Fatores genéticos podem aumentar a predisposição às crises, influenciar a idade de início e até interferir na resposta aos medicamentos. Em algumas síndromes, especialmente as que começam na infância, a investigação genética pode contribuir para esclarecer a origem da doença e orientar estratégias terapêuticas individualizadas. Nem toda epilepsia, porém, é genética. Traumatismos cranianos, acidentes vasculares cerebrais (AVC), infecções do sistema nervoso central, tumores, malformações do desenvolvimento cortical, falta de oxigênio no período perinatal e doenças neurodegenerativas também podem estar entre as causas. Diagnóstico: exames ajudam, mas não resolvem tudo A avaliação deve ser individualizada. A ressonância magnética (RM) do crânio, preferencialmente com protocolo específico para epilepsia, pode identificar alterações estruturais responsáveis pelas crises, como cicatrizes, malformações e lesões discretas. Já o eletroencefalograma (EEG) registra a atividade elétrica cerebral e pode ajudar na classificação das crises e das síndromes epilépticas. Um EEG normal, entretanto, não exclui o diagnóstico. Em situações especificas, como epilepsias de início precoce, formas resistentes aos medicamentos, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor ou alterações do neurodesenvolvimento, os testes genéticos podem fornecer informações importantes. Além de ajudar a esclarecer a causa, o diagnostico pode orientar o tratamento e contribuir para o aconselhamento familiar. Um exemplo e a epilepsia de ausência da infância. A criança apresenta episódios breves, geralmente de poucos segundos, nos quais parece “desligar-se” do ambiente, interrompendo a atividade e retomando-a logo depois. Muitas vezes, esses episódios são interpretados como distração ou falta de atenção. Algumas crianças podem apresentar dezenas de crises por dia, com repercussões na aprendizagem e no desempenho escolar. Reconhecer corretamente esse tipo de crise é essencial, pois o tratamento e o prognóstico diferem de outras formas de epilepsia. A epilepsia também pode estar associada a outras condições neurológicas e do neurodesenvolvimento. Crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam maior frequência de epilepsia do que a população geral. Também existe associação com o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que pode afetar a atenção, o desempenho acadêmico, as relações sociais e a qualidade de vida. Além disso, pessoas com epilepsia apresentam maior risco de ansiedade, depressão e alterações cognitivas. Essas condições podem causar impacto tão relevante quanto as próprias crises, reforçando a importância de uma abordagem multidisciplinar e centrada no paciente. Tratamento correto Nas últimas décadas, a compreensão das epilepsias avançou de maneira significativa. Hoje, sabe-se que diferentes tipos da doença podem ter mecanismos biológicos distintos e, consequentemente, exigir tratamentos diferentes. A escolha do medicamento anticrise deve considerar principalmente o tipo de crise e a síndrome epiléptica. Um fármaco eficaz para uma forma de epilepsia pode ser pouco efetivo ou até agravar outro tipo de crise. Por isso, o diagnóstico específico e um dos pilares do tratamento. A combinação entre avaliação clínica, exames complementares e investigação da causa permite melhorar o controle das crises, identificar comorbidades, definir o prognostico e elaborar estratégias individualizadas. Compreender que “epilepsia” engloba diferentes doenças, com causas, mecanismos e tratamentos distintos, é fundamental para reduzir atrasos diagnósticos, combater o estigma e oferecer uma assistência mais eficaz e humana. Mais do que controlar crises, o objetivo do tratamento e permitir que cada pessoa alcance seu maior potencial de desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida. ** Mauricio Lima Lobato é neurologista e neurofisiologista São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/epilepsia-saiba-identificar-os-pequenos-sinais