Saúde

Enquanto o mundo muda, meninos ficam mais conservadores e com pior desempenho, diz especialista

Para a psiquiatra Danielle Admoni, o contexto atual exige novas estratégias de cuidado e atenção a meninos e jovens homens

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Brazil Health
29/04/2026, 14:13 • Atualizado em 29/04/2026, 14:13
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Há um fenômeno em curso no desenvolvimento de meninos e jovens homens que merece atenção. Evidências recentes apontam para um conjunto de mudanças comportamentais e sociais que incluem maior isolamento, pior desempenho acadêmico, aumento do sofrimento psíquico e adesão a visões mais conservadoras sobre gênero.

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O que os dados recentes mostram

Dados de pesquisas internacionais, como o estudo global conduzido pela Ipsos em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, do King’s College London, divulgado em março de 2026, indicam que jovens homens da geração Z têm apresentado, em média, atitudes mais tradicionais e, em alguns casos, mais machistas do que gerações anteriores. Esse achado se destaca por ocorrer em um contexto histórico marcado pela ampliação do debate sobre igualdade de gênero e direitos das mulheres.

O impacto do ambiente digital na formação de identidade

Uma hipótese relevante para compreender esse cenário está relacionada aos processos contemporâneos de socialização. O ambiente digital ocupa papel central na construção de identidade de adolescentes e jovens, funcionando como espaço de validação, pertencimento e aprendizado social. No entanto, esse mesmo ambiente favorece a formação de bolhas de conteúdo, nas quais discursos polarizados e simplificados sobre masculinidade podem se disseminar com rapidez.

Influenciadores que promovem modelos de masculinidade baseados na dominação das mulheres e no antagonismo de gênero encontram ressonância em indivíduos que apresentam insegurança, baixa autoestima ou dificuldades de inserção social.

Paralelamente, observa-se o aumento do tempo de exposição a telas, incluindo redes sociais e jogos online, associado à redução de interações presenciais. Esse padrão tem sido relacionado a prejuízos no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, maior incidência de sintomas ansiosos e maior percepção de isolamento. A diminuição de vínculos sociais consistentes pode intensificar a vulnerabilidade a discursos extremos e dificultar a construção de referências estáveis.

Referências masculinas e o papel da família

O relatório Lost Boys, publicado em março de 2025 pelo The Centre for Social Justice, no Reino Unido, oferece evidências adicionais ao apontar que jovens homens apresentam desempenho educacional inferior ao das mulheres, maior probabilidade de integrar o grupo dos “nem-nem”, ou seja, jovens que não estudam nem trabalham, e maior risco de suicídio. O conjunto desses indicadores sugere a presença de uma desvantagem acumulada ao longo do desenvolvimento.

Outro fator estrutural identificado pelo relatório é a ausência ou fragilidade de referências masculinas positivas durante a infância e a adolescência. A literatura aponta que a presença de figuras de referência consistentes contribui para o desenvolvimento emocional, a regulação do comportamento e a construção de identidade. Na ausência desses modelos, a busca por referências tende a se deslocar para o ambiente digital, onde a qualidade e a diversidade dos modelos disponíveis são heterogêneas.

A análise desse fenômeno não implica relativizar avanços sociais importantes relacionados à equidade de gênero. Trata-se, sobretudo, de reconhecer que diferentes grupos podem demandar estratégias específicas de cuidado e intervenção ao longo do tempo. A ausência de respostas estruturadas para as dificuldades enfrentadas por meninos e jovens homens pode resultar em agravamento de indicadores sociais e de saúde mental.

Nesse contexto, o papel da família assume relevância central. A presença ativa de pais ou responsáveis, a manutenção de canais de diálogo sem julgamento e o monitoramento do conteúdo consumido no ambiente digital são fatores protetivos importantes. A definição de limites de tempo e de acesso a conteúdos, de forma compatível com a faixa etária, também integra estratégias recomendadas para o desenvolvimento saudável.

A compreensão do que está acontecendo com os meninos exige uma abordagem multidimensional, que considere fatores individuais, familiares, educacionais e culturais. A formulação de políticas públicas e práticas de cuidado que contemplem essa complexidade é fundamental para promover trajetórias mais equilibradas entre jovens homens e que não coloquem em risco os avanços sociais conquistados pelas mulheres ao longo das últimas décadas.

** Danielle Admoni é pssiquiatra geral e psiquiatra da infância e adolescência, supervisora na residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM) e especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria)

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