Câncer: DNA do tumor muda o tratamento e o futuro do paciente
Descobrir alterações permite tratamentos mais precisos e menos tóxicos; especialista explica quando pedir testes e como isso impacta o prognóstico


Brazil Health
Durante muito tempo, o câncer foi tratado como uma única doença, baseada principalmente no órgão de origem do tumor. Hoje, a medicina evoluiu e entende que o câncer é, na verdade, um conjunto de doenças causadas por alterações genéticas que modificam o comportamento das células. Compreender essas mutações permite oferecer tratamentos mais precisos, eficazes e com menos efeitos colaterais – conceito conhecido como medicina de precisão ou medicina personalizada.
O câncer como uma doença genética
O crescimento desordenado das células ocorre quando há alterações no DNA, chamadas mutações. Algumas dessas mutações funcionam como verdadeiros "motores" do tumor, impulsionando sua progressão. Quando identificadas, elas podem ser bloqueadas diretamente por medicamentos específicos, tornando o tratamento mais direcionado e menos tóxico do que as terapias tradicionais.
Exemplos bem conhecidos incluem mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, associadas a cânceres de mama, ovário e próstata, que permitem o uso de inibidores de PARP; alterações no EGFR em tumores de pulmão, tratadas com inibidores específicos; e mutações no FGFR em alguns cânceres de bexiga. Essas terapias atacam o tumor com maior precisão e preservam melhor os tecidos saudáveis.
Como as mutações orientam decisões clínicas
Saber se um tumor apresenta determinadas mutações ajuda o médico a prever como o câncer vai se comportar e qual tratamento tem mais chance de sucesso. Essas informações permitem avaliar a resposta à quimioterapia ou à imunoterapia, identificar resistência a determinados medicamentos e até estimar o prognóstico da doença.
Além disso, a análise genética evita tratamentos ineficazes, reduz o risco de efeitos colaterais desnecessários e ajuda a planejar o cuidado de forma mais assertiva, respeitando as características individuais de cada paciente.
Mutações hereditárias e testes genéticos
Nem todas as mutações surgem apenas no tumor. Algumas estão presentes no DNA herdado e aparecem em todas as células do corpo – são as chamadas mutações germinativas, associadas a síndromes hereditárias de câncer. O exemplo mais conhecido é a presença de mutações em BRCA1 e BRCA2, que aumentam o risco de câncer de mama, ovário e próstata.
Identificar essas alterações é fundamental não apenas para o tratamento do paciente, mas também para a proteção de familiares, permitindo rastreamento precoce e estratégias de prevenção. Hoje, essa análise pode ser feita por meio de testes genéticos ou moleculares, como a biópsia tumoral, que avalia diretamente o DNA do câncer, ou a biópsia líquida, um exame de sangue menos invasivo que detecta fragmentos de DNA tumoral circulante.
Esses avanços ampliam o acesso a terapias inovadoras, inclusive dentro de ensaios clínicos, e reforçam um novo paradigma na oncologia: tratar o câncer não apenas pelo local onde ele surge, mas pela sua assinatura genética.
Estamos vivendo a era da oncologia personalizada. Sempre que estiver diante do diagnóstico de câncer e tiver alguma dúvida, pergunte ao seu médico, que irá orientar e explicar a necessidade e a importância de testes genéticos específicos para o seu caso.
** Marcos Tobias Machado é urologista, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Brazil Health









