Asean respondeu por 15% do superávit comercial brasileiro em 2025; comércio com o grupo do Sudeste Asiático deve superar trocas com EUA e UE, diz Itamaraty
Caio Barcellos
Na imagem, o secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), Kao Kim Hourn, e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira | Divulgação/MRE
A primeira visita de um secretário-geral daAssociação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) ao Brasil ganhou peso adicional para a política externa brasileira, em meio ao aumento das tensões comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos.
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Kao Kim Hourn foi recebido nesta terça-feira (18) pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Itamaraty, em uma agenda que busca ampliar os vínculos do país com uma região que já ocupa espaço relevante no comércio brasileiro.
A aproximação com a Asean não nasceu da crise com Washington, mas passou a ser uma alternativa mais relevante para o governo brasileiro, diante da instabilidade na relação com Donald Trump.
Dias depois, Washington impôs outra tarifa, de 12,5%, no âmbito de uma investigação sobre medidas de combate ao trabalho forçado, que atingiu 60 parceiros comerciais. Nos produtos alcançados em ambas as medidas, as sobretaxas se acumulam e chegam a 37,5%.
Ao receber Kao, Vieira colocou a visita dentro da estratégia brasileira de “diversificação das parcerias externas” e de fortalecimento da presença brasileira em diferentes regiões do mundo.
O ministro também destacou o avanço do intercâmbio comercial, que passou de cerca de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025 e cresce a uma média anual de 15% desde 2020.
“Nesse ritmo, o intercâmbio comercial deverá ultrapassar aquele com parceiros tradicionais do Brasil, como os EUA, a União Europeia em um futuro próximo. O Brasil já exporta mais para Singapura do que para a Alemanha. Exporta mais para a Indonésia, para o Vietnã, para a Malásia e Tailândia do que para a França”, declarou Vieira.
O comércio do Brasil com os 11 integrantes da Asean alcançou US$ 38,4 bilhões no ano passado, o que colocou o bloco como o quinto maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China, União Europeia, EUA e Mercosul.
As vendas brasileiras foram de US$ 10,3 bilhões a mais do que as compras, um saldo que corresponde a 15% de todo o superávit comercial brasileiro registrado em 2025.
A Asean reúne Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e, desde 2025, Timor-Leste, que se tornou o 11º integrante da associação. No conjunto, os países representam um mercado consumidor potencial de cerca de 700 milhões de habitantes.
O peso econômico do bloco também aumentou de forma acelerada na última década, com o Produto Interno Bruto (PIB) praticamente dobrando no período, que passou de cerca de US$ 2,5 trilhões para US$ 4,5 trilhões, posicionando o bloco como a quinta maior economia do mundo.
Mesmo em um cenário de desaceleração da economia mundial, a região mantém taxas de crescimento superiores à média global.
A Asean estima crescimento de 4,2% em 2025 e de 4,8% em 2024, sustentado por economias como Indonésia, Vietnã, Filipinas e Malásia e pelo o peso do Sudeste Asiático nas cadeias globais de produção, no comércio e nos investimentos.
Diversificação começou antes do tarifaço
A sequência dos movimentos diplomáticos mostra que a estratégia precede o atual choque com os EUA.
O Brasil se tornou, em 2022, o primeiro país latino-americano a receber da Asean o status de Parceiro de Diálogo Setorial. Desde então, os dois lados estabeleceram um programa de cooperação para 2024 a 2028, e o governo brasileiro passou a manter representação diplomática dedicada à associação.
Em outubro do ano passado, Lula participou da cúpula da Asean em Kuala Lumpur, capital da Malásia, na primeira participação de um presidente brasileiro em um encontro desse nível com o bloco.
No mês passado, Vieira esteve nas Filipinas para uma reunião entre o Brasil, a presidência da associação e o secretariado do bloco.
Em conversa com o SBT News, membros do Itamaraty explicaram que o próximo passo pretendido pelo Brasil é transformar a atual parceria setorial, limitada a algumas áreas de cooperação, na chamada Parceria de Diálogo Plena, que amplia os canais de interlocução e os temas tratados com o bloco.
“O aprofundamento da relação com a Asean está em plena sintonia com as prioridades da política externa brasileira: a diversificação das parcerias econômicas, o estreitamento dos vínculos com as regiões que são destino importante de nossas exportações, a coordenação em termos multilaterais e o fortalecimento da cooperação sul-sul”, destacou Vieira.
Kao confirmou que o pedido brasileiro está sob análise da associação.
“A Asean e Brasil são parceiros naturais, representando regiões dinâmicas, com significativo potencial econômico, rica biodiversidade e populações vibrantes [...] Quero ressaltar a importância de fortalecer as parcerias entre países em desenvolvimento e economias emergentes para enfrentar nossos desafios comuns”, afirmou o diplomata cambojano.
Apesar de a mudança não equivaler a um acordo de livre comércio nem implicar redução automática de tarifas, essa convergência dá à relação uma dimensão que vai além da mera apróximação, com um olhar mais amplo de estratégias, para preservar seus espaços de decisão próprias em um ambiente marcado pela rivalidade entre EUA e China.
A Asean mantém relações estreitas com essas duas potências e também com União Europeia, Japão e outras grandes economias, sem aderir exclusivamente a um dos polos.
Além do Itamaraty, estão previstos encontros com autoridades dos ministérios de Minas e Energia (MME), Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), além de contatos com representantes empresariais e acadêmicos.
No MME, pasta de Alexandre Silveira (PSD), a comitiva da Asean discutiu temas como cooperação em segurança energética, fontes renováveis, bioenergia e combustíveis sustentáveis.
Tensão com EUA aproxima Brasil de bloco da ÁsiaAsean respondeu por 15% do superávit comercial brasileiro em 2025; comércio com o grupo do Sudeste Asiático deve superar trocas com EUA e UE, diz ItamaratyPolítica2026-08-18T18:40:59.010ZA primeira visita de um secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) ao Brasil ganhou peso adicional para a política externa brasileira, em meio ao aumento das tensões comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique e siga o canal do SBT News. Kao Kim Hourn foi recebido nesta terça-feira (18) pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Itamaraty, em uma agenda que busca ampliar os vínculos do país com uma região que já ocupa espaço relevante no comércio brasileiro. A aproximação com a Asean não nasceu da crise com Washington, mas passou a ser uma alternativa mais relevante para o governo brasileiro, diante da instabilidade na relação com Donald Trump. . A primeira, de 25%, foi aplicada sob a alegação de que políticas brasileiras em áreas como comércio digital, sistema financeiro, etanol e propriedade intelectual prejudicam empresas e exportadores americanos. Dias depois, Washington impôs outra tarifa, de 12,5%, no âmbito de uma investigação sobre medidas de combate ao trabalho forçado, que atingiu 60 parceiros comerciais. Nos produtos alcançados em ambas as medidas, . Ao receber Kao, Vieira colocou a visita dentro da estratégia brasileira de “diversificação das parcerias externas” e de fortalecimento da presença brasileira em diferentes regiões do mundo. O ministro também destacou o avanço do intercâmbio comercial, que passou de cerca de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025 e cresce a uma média anual de 15% desde 2020. “Nesse ritmo, o intercâmbio comercial deverá ultrapassar aquele com parceiros tradicionais do Brasil, como os EUA, a União Europeia em um futuro próximo. O Brasil já exporta mais para Singapura do que para a Alemanha. Exporta mais para a Indonésia, para o Vietnã, para a Malásia e Tailândia do que para a França”, declarou Vieira. O comércio do Brasil com os 11 integrantes da Asean alcançou US$ 38,4 bilhões no ano passado, o que colocou o bloco como o quinto maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China, União Europeia, EUA e Mercosul. As vendas brasileiras foram de US$ 10,3 bilhões a mais do que as compras, um saldo que corresponde a 15% de todo o superávit comercial brasileiro registrado em 2025. A Asean reúne Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e, desde 2025, Timor-Leste, que se tornou o 11º integrante da associação. No conjunto, os países representam um mercado consumidor potencial de cerca de 700 milhões de habitantes. O peso econômico do bloco também aumentou de forma acelerada na última década, com o Produto Interno Bruto (PIB) praticamente dobrando no período, que passou de cerca de US$ 2,5 trilhões para US$ 4,5 trilhões, posicionando o bloco como a quinta maior economia do mundo. Mesmo em um cenário de desaceleração da economia mundial, a região mantém taxas de crescimento superiores à média global. A Asean estima crescimento de 4,2% em 2025 e de 4,8% em 2024, sustentado por economias como Indonésia, Vietnã, Filipinas e Malásia e pelo o peso do Sudeste Asiático nas cadeias globais de produção, no comércio e nos investimentos. Diversificação começou antes do tarifaço A sequência dos movimentos diplomáticos mostra que a estratégia precede o atual choque com os EUA. O Brasil se tornou, em 2022, o primeiro país latino-americano a receber da Asean o status de Parceiro de Diálogo Setorial. Desde então, os dois lados estabeleceram um programa de cooperação para 2024 a 2028, e o governo brasileiro passou a manter representação diplomática dedicada à associação. Em outubro do ano passado, Lula participou da cúpula da Asean em Kuala Lumpur, capital da Malásia, na primeira participação de um presidente brasileiro em um encontro desse nível com o bloco. No mês passado, Vieira esteve nas Filipinas para uma reunião entre o Brasil, a presidência da associação e o secretariado do bloco. Em conversa com o SBT News, membros do Itamaraty explicaram que o próximo passo pretendido pelo Brasil é transformar a atual parceria setorial, limitada a algumas áreas de cooperação, na chamada Parceria de Diálogo Plena, que amplia os canais de interlocução e os temas tratados com o bloco. “O aprofundamento da relação com a Asean está em plena sintonia com as prioridades da política externa brasileira: a diversificação das parcerias econômicas, o estreitamento dos vínculos com as regiões que são destino importante de nossas exportações, a coordenação em termos multilaterais e o fortalecimento da cooperação sul-sul”, destacou Vieira. Kao confirmou que o pedido brasileiro está sob análise da associação. “A Asean e Brasil são parceiros naturais, representando regiões dinâmicas, com significativo potencial econômico, rica biodiversidade e populações vibrantes [...] Quero ressaltar a importância de fortalecer as parcerias entre países em desenvolvimento e economias emergentes para enfrentar nossos desafios comuns”, afirmou o diplomata cambojano. Apesar de a mudança não equivaler a um acordo de livre comércio nem implicar redução automática de tarifas, essa convergência dá à relação uma dimensão que vai além da mera apróximação, com um olhar mais amplo de estratégias, para preservar seus espaços de decisão próprias em um ambiente marcado pela rivalidade entre EUA e China. A Asean mantém relações estreitas com essas duas potências e também com União Europeia, Japão e outras grandes economias, sem aderir exclusivamente a um dos polos. Além do Itamaraty, estão previstos encontros com autoridades dos ministérios de Minas e Energia (MME), Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), além de contatos com representantes empresariais e acadêmicos. No MME, pasta de Alexandre Silveira (PSD), a comitiva da Asean discutiu temas como cooperação em segurança energética, fontes renováveis, bioenergia e combustíveis sustentáveis.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/tensao-com-eua-aproxima-brasil-de-bloco-da-asia