PF: Rioprev investiu no Master para "contornar restrições"
Previdência do RJ havia aplicado R$ 970 mi em Letras Financeiras; após entraves, recursos migraram para fundos estruturados do mesmo grupo, somando R$ 2,01 bi


Fachada do Rioprevidência, no Rio de Janeiro | Divulgação/Tânia Rêgo/Agência Brasil
O Rioprevidência passou a direcionar recursos para fundos ligados ao grupo do Banco Master após dificuldades regulatórias que atingiram as aplicações feitas diretamente em Letras Financeiras da instituição. A mudança é apontada pela Polícia Federal na investigação que embasou a oitava fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), contra Cláudio Castro (PL), ex governador do Rio de Janeiro, dirigentes do fundo previdenciário e outros investigados.
Segundo a decisão, entre outubro de 2023 e julho de 2024, o Rioprevidência realizou aportes de R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. Depois, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, a estratégia mudou: os recursos passaram a ser direcionados para fundos estruturados pelo mesmo grupo, que receberam R$ 2,01 bilhões.
Na decisão, Mendonça afirma que a PF refez a cronologia dos investimentos e concluiu que a migração ocorreu das Letras Financeiras para fundos "constituídos para contornar restrições regulatórias".
A mudança, segundo a investigação, ocorreu em paralelo a alterações na estrutura do Rioprevidência. A decisão afirma que houve mudanças na alta gestão do órgão pouco antes do início dos aportes e que os investimentos teriam sido acompanhados por "aproximação política, encontros pessoais e rearranjos administrativos" dentro da autarquia.
Um dos pontos destacados pela PF envolve Eucherio Lerner Rodrigues, que assumiu a Diretoria de Investimentos do Rioprevidência em 4 de outubro de 2023. De acordo com a decisão, o Banco Master apresentou pedido de credenciamento junto ao órgão no mesmo dia. A investigação aponta que ele depois passou a atuar como responsável técnico pelas aplicações que agora estão sob investigação.
Na avaliação da PF, os novos gestores adotaram uma estratégia diferente da política historicamente seguida pelo fundo. Segundo a decisão, eles teriam tomado medidas "contrárias à política conservadora até então adotada", abrindo caminho para o credenciamento do Banco Master e para aplicações feitas sem análises técnicas estruturadas, comparação com alternativas de mercado e avaliação adequada de risco.
O Rioprevidência é o Regime Próprio de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro e administra recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de mais de 230 mil servidores estaduais. Somando as aplicações em Letras Financeiras e nos fundos, a investigação aponta a aplicação de R$ 3,691 bilhões no banco de Daniel Vorcaro.
Leia nota da defesa de Castro:
"A defesa do ex-governador Cláudio Castro informa que ainda não teve acesso aos autos do processo na íntegra e, portanto, não pode comentar detalhes de elementos que desconhece na totalidade.
A defesa nega de forma categórica qualquer relação pessoal indevida entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Os contatos entre ambos aconteceram em agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial, sem qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal.
A defesa esclarece ainda que Cláudio Castro não conhece o citado Ricardo apontado como suposto intermediário ou elo entre ele e Daniel Vorcaro.
Também não procede a informação de que viagens, passagens ou despesas pessoais de Cláudio Castro tenham sido custeadas por Daniel Vorcaro, assim como não houve qualquer tipo de benefício pessoal recebido pelo ex-governador.
Todos os investimentos realizados pelo Rioprevidência seguiram fluxos técnicos, jurídicos e administrativos próprios da autarquia, dentro dos limites aprovados pelo Conselho de Administração e em conformidade com as regras previstas na Resolução CMN nº 4.963/2021, em operações conduzidas com instituição autorizada e supervisionada pelo Banco Central.
Cláudio Castro jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência, não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia e nunca exerceu função operacional relacionada aos investimentos realizados pelo instituto, o que demonstra a autonomia técnica dos executivos e órgãos internos responsáveis pelas análises e deliberações.
Assim que surgiram questionamentos sobre operações envolvendo o Banco Master, o próprio ex-governador determinou a adoção imediata de medidas de apuração e controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a instauração de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado.
Cabe ainda ressaltar que, em dezembro de 2025, houve o resgate de aproximadamente R$ 1,4 bilhão de fundo administrado pelo Banco Master, garantindo a proteção do patrimônio previdenciário dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro.
As compras de Letras Financeiras do Banco Master foram encerradas ainda em 2024. Não houve novos aportes após determinação do TCE-RJ. O Fundo Arena foi integralmente resgatado em 2025, sem qualquer prejuízo ao Rioprevidência, e o Fundo Revolution teve pedido de resgate realizado pela autarquia em janeiro de 2026.
Importante destacar que todos os recursos investidos nos fundos ligados ao Banco Master que foram integralmente recuperados já foram ressarcidos ao caixa do Estado. Parte desses valores, inclusive, foi utilizada para garantir o pagamento da folha previdenciária.
A defesa reafirma sua confiança no completo esclarecimento dos fatos e no trabalho das instituições."















