Política

Lula responde Trump: "Não se meta nas eleições do Brasil"

Presidente brasileiro deu recado ao americano em balanço sobre a cúpula do G7 nesta quarta-feira (17), na França

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Renato Machado, Victor Schneider
17/06/2026, 18:00 • Atualizado em 17/06/2026, 19:14
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deu um recado ao americano Donald Trump nesta quarta-feira (17) ao fazer um balanço de sua participação no G7, em Évian-les-Bains, na França. A declaração foi em resposta a uma fala de mais cedo em que Trump dizia que o cenário político brasileiro tinha se tornado "perigoso", em referência à condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro por coação à Justiça na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de terça (16).

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O presidente americano, porém, confundiu Eduardo com o irmão Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao se referir ao senador como "Bolsonaro Jr.". Trump dizia ter tomado conhecimento de que Flávio – que, na realidade, era Eduardo – estaria sendo alvo de medidas judiciais. Questionado sobre o assunto em coletiva a jornalistas, Lula disse que se a imagem de Trump sobre o Brasil é baseada na relação com a família Bolsonaro, ele "desconhece" o país.

“Para mim pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque elas são um problema do Brasil, assim como as eleições americanas são um problema deles, não meu. A única coisa que eu quero é o respeito pelo Brasil que eu tenho pelos EUA", disse Lula.

Sem uma reunião bilateral agendada com Trump na cúpula, Lula se limitou a interações protocolares com o presidente americano. Na noite de terça-feira, ambos se cumprimentaram rapidamente após um jantar organizado pelo francês Emmanuel Macron, anfitrião do G7 neste ano. Já na manhã desta quarta-feira, Trump se dirigiu ao presidente brasileiro, perguntou se ele estava bem e lhe desejou “bom trabalho”. Lula respondeu com um meneio de cabeça. O cumprimento foi no corredor do hotel em que estavam hospedados, logo após a última reunião do G7, que discutiu crescimento ecologicamente equilibrado nos países.

Questionado sobre a falta de um encontro formal com o americano às margens da cúpula, Lula avaliou que não havia essa necessidade porque já há um diálogo de alto nível entre os países para negociar os termos das duas rodadas de tarifaço propostas pelo EUA para produtos brasileiros. A sobretaxa foi anunciada pouco tempo após um encontro em clima amistoso com Trump em Washington, o que Lula considerou ter sido uma ação "desaforada".

“Eu não pedi bilateral porque nós estamos em negociação. Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil, ele sabe disso. É por isso que eu disse que ele continua agindo como imperador. Nós estávamos fazendo acordo", afirmou.

Lula voltou a atribuir a responsabilidade pelo tarifaço e pela designação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas à figura do secretário de Estado Marco Rubio, que definiu recentemente como um "latino-americano frustrado". O presidente brasileiro disse que vai deixar a cargo do Itamaraty a negociação para buscar reverter as tarifas antes que entrem em vigor, mas frisou não ter problema em "pegar o telefone, ligar para o Trump e marcar outra conversa" caso as tratativas falhem.

"Eu tinha falado para ele: essas facções criminosas são terroristas para o povo brasileiro, para as comunidades no Brasil. Não são terroristas como você pensa, não querem brigar e derrotar ou criar outro Estado. Elas querem dinheiro, é diferente. Mesmo assim, não o Trump, mas o Marco Rubio, anunciou isso", criticou.

Balanço da Cúpula

Esta foi a décima participação de Lula em cúpulas do G7. A primeira ocorreu em 2003, também em Évian-les-Bains, a convite do então presidente francês Jacques Chirac (1932-2019). Além da cúpula dos sete – que reúnem EUA, França, Japão, Alemanha, Reino Unido, Canadá e Itália, com participação regular da União Europeia), foram convidados para o evento deste ano também Brasil, Índia, Egito e Quênia.

Lula teve reuniões entre ontem e hoje com presidente da Suíça, Guy Parmelin; da França, Emmanuel Macron; do Egito, Abdel Fattah El-Sisi; e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que considerou estar “mais disposto” a encerrar a guerra que se arrasta há mais de 4 anos contra a Rússia.

O destaque ficou para o encontro com a premiê do Japão, Sanae Takaichi, onde os países firmaram as bases para o início das negociações para um acordo comercial com o Mercosul. As tratativas começarão formalmente na próxima reunião da cúpula, marcada para o fim do mês em Assunção, no Paraguai.

A delegação brasileira ratificou três dos oito documentos elaborados pelo grupo. Os textos tratavam sobre segurança no espaço digital para jovens e adolescentes, ações de enfrentamento ao câncer e cooperação global no combate ao narcotráfico. O país preferiu não assinar os demais cinco, incluindo um sobre combate à epidemia de Ebola e outro sobre minerais críticos, menos pela discordância sobre os temas em si e mais por ser contrário à abordagem adotada pelos países desenvolvidos.

No caso das terras raras, um dos motivos para a ausência da assinatura brasileira foi o tom crítico adotado contra a China, líder tanto em volume de minerais críticos mapeados em seu território quanto em capacidade de processamento e conversão em baterias, chips e turbinas. A questão preocupa tanto os EUA quanto a Europa pela vantagem estratégica que o país asiático adquire em áreas como inteligência artificial e energia verde.

Lula, porém, saiu em defesa da China ao dizer que o Brasil tem com o país um superávit bilionário na balança comercial e que os chineses supriram a necessidade de investimentos em áreas deixadas de lado por europeus e americanos, como a África e a América Latina.

“Eu disse ao presidente Trump que faz muitos anos que o Brasil faz licitação internacional e os EUA não participam, a União Europeia não participa. Quem participa? A China. Essa é a vantagem que a China leva. A China ocupou um espaço que estava vazio pela ausência dos europeus e dos americanos. Então eles não podem se queixar que a China estava ocupando o espaço. O espaço estava vazio. [... ] Ninguém tem culpa que a China tenha se preparado melhor do que os outros sobre a questão dos minerais críticos e das terras raras", avaliou.

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