Política

“Não existe passaporte apátrida para quem tem nacionalidade”, diz especialista sobre fala de Eduardo Bolsonaro

Professora de Direito Internacional da USP, Maristella Basso esclarece as regras para perda de nacionalidade e refuta tese levantada pelo deputado cassado

Avatar de Leandro Magalhães
Avatar de Iander Porcella
Avatar de Marcela Mattos
Leandro Magalhães, Iander Porcella, Marcela Mattos
22/12/2025, 00:07 • Atualizado em 22/12/2025, 00:11
compartilhar

Em entrevista exclusiva ao SBT News, direto dos Estados Unidos, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou correr o risco de ficar sem passaporte brasileiro após a perda do mandato. Alegando perseguição política e uma suposta ordem para que embaixadas não emitam seu passaporte comum, o ex-parlamentar cogitou a possibilidade de solicitar um "passaporte de apátrida" para manter suas viagens internacionais.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

Eduardo afirmou que, dentro de 30 a 60 dias, terá que devolver o passaporte diplomático e que buscaria outros meios, como o documento de apátrida, caso o acesso ao passaporte comum lhe seja negado.

Para esclarecer a viabilidade jurídica dessa declaração e explicar o que significa a condição de apátrida, o programa News Domingo recebeu a advogada Maristella Basso. Professora de Direito Internacional da USP, ela analisou as circunstâncias em que um cidadão perde sua nacionalidade e se o caso do político se enquadra nessas regras.

Qual o caminho jurídico necessário para a emissão de um passaporte de apátrida, como mencionado por Eduardo Bolsonaro?

"O Direito Internacional não prevê um "passaporte apátrida" nessas condições. Se a pessoa é apátrida, ou seja, não tem pátria nem nacionalidade, nenhum país emitiria esse passaporte. Não existe a possibilidade de alguém se autointitular apátrida. A nacionalidade é adquirida por um ato de Estado – seja pelo local de nascimento ou por consanguinidade – e só é retirada por um ato administrativo desse Estado. É um status jurídico-político que une a pessoa ao território. Não podemos nos autodeterminar apátridas. Seria preciso um caso muito pitoresco, como um náufrago sem memória, para se considerar algo do tipo."

Em quais circunstâncias um Estado declara um cidadão apátrida? A perda de mandato parlamentar se enquadra nisso?

"Mesmo perdendo o mandato, o parlamentar não perde a nacionalidade. Decretar a perda da nacionalidade é um ato gravíssimo, comparável à "morte civil" ou política. O fato de perder o mandato ou até ser condenado por um crime não implica perda da nacionalidade. A Constituição Federal define que o brasileiro só perde a nacionalidade se adquirir outra voluntariamente, com exceções para reconhecimento originário ou imposição para permanência, ou tiver a naturalização cancelada por sentença judicial. Eduardo Bolsonaro não se enquadra em nenhuma dessas condições. Sua autoproclamação de apátrida é um sonho ou um blefe; de concreto, não tem nada."

Existem convenções sobre apátridas onde governos ou a ONU emitem documentos. Para solicitar isso, o Brasil teria que afirmar que ele não tem mais nacionalidade brasileira?

"Sim, o Brasil teria que primeiro declarar a perda da nacionalidade. Com esse documento provando que ele ficou sem nacionalidade, ele poderia buscar proteção no sistema da ONU como refugiado ou apátrida. Isso geralmente ocorre com pessoas fugindo de guerras ou perseguição étnica ou religiosa, que perdem a nacionalidade de origem e ficam em perigo. O ex-deputado não se encontra nessa situação. Ele poderia, numa perspectiva técnico-jurídica, obter um visto ou Green Card nos EUA futuramente e, ao adquirir outra nacionalidade, pedir o cancelamento da brasileira, mas isso leva tempo – cerca de cinco anos. Neste momento, ele não é um apátrida e não conseguiria esse documento."

Eduardo Bolsonaro mencionou que perderia o passaporte diplomático e também o comum. Em que situações um brasileiro pode ter o passaporte comum cancelado?

"O passaporte diplomático tem validade atrelada à função; perdendo o mandato, perde-se o documento, pois sua duração é proporcional ao cargo. Já o passaporte comum pode ser cancelado ou retido pelas autoridades – Polícia Federal ou Justiça – se a pessoa estiver respondendo a um processo, não comparecer aos chamados do Judiciário ou como medida para fazê-la voltar e responder por seus atos. Nesse caso, retira-se o documento de viagem internacional, mas a pessoa continua sendo brasileira e mantendo sua nacionalidade."

O deputado cassado alegou dificuldade em obter um passaporte comum junto às embaixadas. O governo brasileiro pode negar a entrega desse documento?

"O governo pode cancelar o passaporte atual. Se o documento for cancelado por ordem judicial ou administrativa e ele se dirigir a uma embaixada ou consulado – alegando, por exemplo, perda ou roubo para fazer um novo –, o sistema acusará o impedimento. Qualquer funcionário verá o registro de cancelamento. Portanto, se houver essa restrição no sistema da Polícia Federal, ele de fato não conseguirá emitir um novo passaporte e ficaria numa situação delicada, podendo precisar pedir asilo ou proteção diplomática nos EUA, o que exigiria a entrega do passaporte brasileiro."

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: Brasil x Escócia: palco do jogo já recebeu NFL, tênis e F1

Brasil x Escócia: palco do jogo já recebeu NFL, tênis e F1

Imagem da notícia: Ativistas anti-ICE são condenados a até 100 anos de prisão

Ativistas anti-ICE são condenados a até 100 anos de prisão

Imagem da notícia: Colômbia x RD Congo na Copa do Mundo; siga em tempo real

Colômbia x RD Congo na Copa do Mundo; siga em tempo real

Imagem da notícia: Mega-Sena: aposta do AM leva prêmio de quase R$ 3 milhões

Mega-Sena: aposta do AM leva prêmio de quase R$ 3 milhões

Imagem da notícia: Brasil x Escócia: palco do jogo já recebeu NFL, tênis e F1

Brasil x Escócia: palco do jogo já recebeu NFL, tênis e F1

Imagem da notícia: Ativistas anti-ICE são condenados a até 100 anos de prisão

Ativistas anti-ICE são condenados a até 100 anos de prisão

Imagem da notícia: Colômbia x RD Congo na Copa do Mundo; siga em tempo real

Colômbia x RD Congo na Copa do Mundo; siga em tempo real

Imagem da notícia: Mega-Sena: aposta do AM leva prêmio de quase R$ 3 milhões

Mega-Sena: aposta do AM leva prêmio de quase R$ 3 milhões

Últimas notícias

Trump compartilha artigo que vê Brasil como 'próximo teste'

Texto publicado no veículo conservador 'Newsmax' aponta suposta onda de realinhamento político na América Latina

Flávio confirma ida aos EUA em busca de reverter tarifaço

Senador diz que defenderá exportadores brasileiros em audiência do governo norte-americano marcada para 6 de julho

10 anos do Brexit: Reino Unido ainda sente separação da UE

Uma década depois de escolher sair da UE, britânicos sentem impacto na economia e imigração

PIB da Argentina cresce 2,3% e supera previsões do mercado

Economia argentina avança acima das expectativas no primeiro trimestre de 2026, impulsionada pelas exportações e pela estabilidade macroeconômica

Oposição aciona TCU contra publicidade do governo Lula

Rogério Marinho aponta suposto excesso de despesas e questiona campanha sobre o fim da escala 6x1 antes da aprovação da proposta

Kane perde gol feito e Inglaterra só empata com Gana

No Gillette Stadium, em Boston, os ingleses não conseguiram superar o adversário e ficou no empate sem gols no Grupo L da Copa do Mundo