Lula x Milei: relembre crises entre Brasil e Argentina
Abalo diplomático é novo capítulo de relação que já contou com desconfiança nuclear, disputas comerciais e farpas entre Bolsonaro e Alberto Fernández
Victor Schneider
O presidente da Argentina, Javier Milei, e o presidente Lula | Ricardo Stuckert/Presidência
Embora vista como a crise diplomática mais grave da história recente entre Brasília e Buenos Aires, as declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no final de semana representam só um de vários abalos que marcam a relação bicentenária entre os países vizinhos.
Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.
O Itamaraty reagiu com indignação e mandou tanto convocar o embaixador brasileiro Julio Bitelli para consultas quanto chamar o enviadoargentino Daniel Raimondi para explicar a razão de declarações tão “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis", nas palavras do chanceler Mauro Vieira.
A própria relação entre Milei e Lula é contenciosa desde antes de o argentino chegar à Casa Rosada. Durante a campanha, o economista libertário chamou o petista de "corrupto", disse que não teria relações com “comunistas” — dentro os quais a China e o Brasil — e acusou Lula de ter escalado assessores de campanha para ajudar seu adversário, Sérgio Massa.
O então ministro da Fazenda argentino era um nome ligado aos Kirchner, de quem Lula foi bastante próximo tanto com Néstor (2003-2007) quanto com Cristina (2007-2015), sua esposa e sucessora ideológica.
Em julho de 2024, Milei já havia vindo ao Brasil para apoiar a oposição sem ter qualquer encontro bilateral agendado com o Planalto. A ocasião foi a conferência conservadora CPAC, em Balneário Camboriú (SC), a qual o argentino priorizou sobre a cúpula do Mercosul no mesmo final de semana.
Se Lula e Milei representam hoje o embate entre a esquerda brasileira e a direita argentina, a dinâmica foi justamente a inversa na relação entre Jair Bolsonaro (2019-2023) e Alberto Fernández (2019-2023).
Bolsonaro apoiou publicamente a reeleição de Maurício Macri e avaliou que, se a chapa de Fernández com Cristina Kirchner fosse eleita, o Sul do Brasil viraria uma "nova Roraima", em referência à crise migratória venezuelana.
Em resposta, Fernández chamou o então presidente brasileiro de "misógino" e "violento" e, durante a campanha, visitou Lula na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, gesto interpretado pelo Palácio do Planalto como provocação. O desgaste se refletiu na posse de Fernández, em dezembro de 2019: Bolsonaro se recusou a ir à cerimônia.
A pandemia de covid e as diferentes estratégias de combate aprofundaram o distanciamento entre os dois governos. Integrantes da administração argentina usaram o Brasil como exemplo indireto ao dizer que Buenos Aires priorizava medidas de proteção à saúde e desaceleração da atividade econômica, em contraste com a postura adotada por Bolsonaro.
Mas apesar das farpas e do esfriamento da relação nos anos de mandato compartilhados, não houve quebra de canais diplomáticos, pedido de explicações ou rebaixamento formal das relações entre Brasil e Argentina.
Protecionismo kirchnerista
A era Kirchner, embora mantivesse proximidade ideológica com o lulismo, teve desgastes com o Brasil por estratégias protecionistas de Buenos Aires, como a exigência de licenças prévias para a importação de produtos brasileiros como calçados, têxteis, eletrodomésticos e autopeças. Como as autorizações demoravam meses, exportadores acabaram prejudicados e o Brasil ajuizou protesto na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em 2009, o então governo Lula 2 respondeu impondo licenças para produtos agrícolas vindos da Argentina, como vinhos, trigo e leguminosas. Mas a disputa terminou resolvida em visita de Cristina a Brasília, firmando um entendimento que reduziu o tempo de liberação das licenças de importação e criou um mecanismo permanente de monitoramento e uma mesa de diálogo entre os governos.
Ainda assim, em 2012, com a Argentina perdendo reservas cambiais e tendo estagnado o crescimento econômico, Cristina Kirchner endureceu os controles e passou a exigir autorização prévia para praticamente todas as importações.
A medida voltou a atingir empresas brasileiras, foi contestada na OMC também pela União Europeia e Estados Unidos e posteriormente considerada incompatível com as normas do comércio internacional.
Rivalidade nuclear
A desconfiança entre o Palácio do Planalto e a Casa Rosada nunca foi tão intensa na história recente quanto no período de 1960 a 1980, no auge da Guerra Fria. Os dois governos militares — no Brasil, de 1964-1985, e na Argentina de 1966-1973 e 1976-1983 — desenvolveram programas nucleares paralelos, mantidos em grau de alto sigilo.
Em 1975, o Brasil firmou acordo com a então Alemanha Ocidental para adquirir capacidade de enriquecimento de urânio e construir as usinas do projeto Angra. Em paralelo, a ditadura portenha passou a desenvolver seu próprio programa nuclear e a adquirir expertise em reatores e produção de combustível nuclear.
Documentos revelados após a queda dos regimes mostram que ambos os países passaram a desconfiar abertamente um do outro nesse período, com o Brasil tocando também um programa clandestino fora das salvaguardas internacionais e a Argentina mantendo instalações estratégicas sob forte sigilo. Questões como a segurança hídrica com a construção de Itaipu e disputas na Bacia do Prata também contribuíram para manter os países de costas um para o outro.
Foi só com a assinatura de um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos, em 1980, e visitas mútuas a instalações nucleares promovidas nos governos do brasileiro José Sarney (1985-1990) e do argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) que refundaram as bases do bilateralismo Brasil-Argentina. O ponto alto foi a assinatura do Tratado de Assunção, em março de 1991, juntando o interesse comum dos dois países no bloco do Mercosul.
Lula x Milei: relembre crises entre Brasil e ArgentinaAbalo diplomático é novo capítulo de relação que já contou com desconfiança nuclear, disputas comerciais e farpas entre Bolsonaro e Alberto FernándezPolítica2026-07-28T09:00:00.000ZEmbora vista como a crise diplomática mais grave da história recente entre Brasília e Buenos Aires, as declarações do presidente argentino, Javier Milei, contra o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no final de semana representam só um de vários abalos que marcam a relação bicentenária entre os países vizinhos. No domingo (26), ao vir ao Brasil para a , Milei foi ao palanque sem eufemismos e chamou Lula de “ex-presidiário” e “lixo socialista", entre outras provocações. e mandou tanto convocar o embaixador brasileiro Julio Bitelli para consultas quanto chamar o enviado argentino Daniel Raimondi para explicar a razão de declarações tão “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis", nas palavras do chanceler Mauro Vieira. A própria relação entre Milei e Lula é contenciosa desde antes de o argentino chegar à Casa Rosada. Durante a campanha, o economista libertário chamou o petista de "corrupto", disse que não teria relações com “comunistas” — dentro os quais a China e o Brasil — e acusou Lula de ter escalado assessores de campanha para ajudar seu adversário, Sérgio Massa. O então ministro da Fazenda argentino era um nome ligado aos Kirchner, de quem Lula foi bastante próximo tanto com Néstor (2003-2007) quanto com Cristina (2007-2015), sua esposa e sucessora ideológica. Em julho de 2024, Milei já havia vindo ao Brasil para apoiar a oposição sem ter qualquer encontro bilateral agendado com o Planalto. A ocasião foi a conferência conservadora CPAC, em Balneário Camboriú (SC), a qual o argentino priorizou sobre a cúpula do Mercosul no mesmo final de semana. Bolsonaro x Fernández Se Lula e Milei representam hoje o embate entre a esquerda brasileira e a direita argentina, a dinâmica foi justamente a inversa na relação entre Jair Bolsonaro (2019-2023) e Alberto Fernández (2019-2023). Bolsonaro apoiou publicamente a reeleição de Maurício Macri e avaliou que, se a chapa de Fernández com Cristina Kirchner fosse eleita, o Sul do Brasil viraria uma "nova Roraima", em referência à crise migratória venezuelana. Em resposta, Fernández chamou o então presidente brasileiro de "misógino" e "violento" e, durante a campanha, visitou Lula na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, gesto interpretado pelo Palácio do Planalto como provocação. O desgaste se refletiu na posse de Fernández, em dezembro de 2019: Bolsonaro se recusou a ir à cerimônia. A pandemia de covid e as diferentes estratégias de combate aprofundaram o distanciamento entre os dois governos. Integrantes da administração argentina usaram o Brasil como exemplo indireto ao dizer que Buenos Aires priorizava medidas de proteção à saúde e desaceleração da atividade econômica, em contraste com a postura adotada por Bolsonaro. Mas apesar das farpas e do esfriamento da relação nos anos de mandato compartilhados, não houve quebra de canais diplomáticos, pedido de explicações ou rebaixamento formal das relações entre Brasil e Argentina. Protecionismo kirchnerista A era Kirchner, embora mantivesse proximidade ideológica com o lulismo, teve desgastes com o Brasil por estratégias protecionistas de Buenos Aires, como a exigência de licenças prévias para a importação de produtos brasileiros como calçados, têxteis, eletrodomésticos e autopeças. Como as autorizações demoravam meses, exportadores acabaram prejudicados e o Brasil ajuizou protesto na Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 2009, o então governo Lula 2 respondeu impondo licenças para produtos agrícolas vindos da Argentina, como vinhos, trigo e leguminosas. Mas a disputa terminou resolvida em visita de Cristina a Brasília, firmando um entendimento que reduziu o tempo de liberação das licenças de importação e criou um mecanismo permanente de monitoramento e uma mesa de diálogo entre os governos. Ainda assim, em 2012, com a Argentina perdendo reservas cambiais e tendo estagnado o crescimento econômico, Cristina Kirchner endureceu os controles e passou a exigir autorização prévia para praticamente todas as importações. A medida voltou a atingir empresas brasileiras, foi contestada na OMC também pela União Europeia e Estados Unidos e posteriormente considerada incompatível com as normas do comércio internacional. Rivalidade nuclear A desconfiança entre o Palácio do Planalto e a Casa Rosada nunca foi tão intensa na história recente quanto no período de 1960 a 1980, no auge da Guerra Fria. Os dois governos militares — no Brasil, de 1964-1985, e na Argentina de 1966-1973 e 1976-1983 — desenvolveram programas nucleares paralelos, mantidos em grau de alto sigilo. Em 1975, o Brasil firmou acordo com a então Alemanha Ocidental para adquirir capacidade de enriquecimento de urânio e construir as usinas do projeto Angra. Em paralelo, a ditadura portenha passou a desenvolver seu próprio programa nuclear e a adquirir expertise em reatores e produção de combustível nuclear. Documentos revelados após a queda dos regimes mostram que ambos os países passaram a desconfiar abertamente um do outro nesse período, com o Brasil tocando também um programa clandestino fora das salvaguardas internacionais e a Argentina mantendo instalações estratégicas sob forte sigilo. Questões como a segurança hídrica com a construção de Itaipu e disputas na Bacia do Prata também contribuíram para manter os países de costas um para o outro. Foi só com a assinatura de um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos, em 1980, e visitas mútuas a instalações nucleares promovidas nos governos do brasileiro José Sarney (1985-1990) e do argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) que refundaram as bases do bilateralismo Brasil-Argentina. O ponto alto foi a assinatura do Tratado de Assunção, em março de 1991, juntando o interesse comum dos dois países no bloco do Mercosul.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/lula-x-milei-relembre-outras-crises-entre-brasil-e-argentina