Lula leva à cúpula da Celac discurso contra interferências externas
Em Bogotá, presidente deve defender integração regional e abordar combate ao crime diante de tensões com os EUA


Hariane Bittencourt
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa neste sábado (21), da Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Bogotá, na Colômbia. No encontro, o petista vai reforçar a defesa da integração regional e condenar ameaças à soberania dos países da região.
Na última quarta-feira (11), Lula conversou por telefone com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anfitrião do encontro deste sábado. Petro reiterou o convite para a cúpula e lembrou que a Celac também vai promover, na mesma data, o 1º Fórum de Alto Nível Celac-África com a participação de lideranças de países africanos.
Em seu discurso, ao criticar interferências externas, Lula deve reiterar que a América Latina é uma zona de paz. Sem citar nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o petista pretende ecoar as preocupações do Brasil com ataques à independênciade nações soberanas, como o que ocorreu com a captura de Nicolás Maduro, em janeiro.
Interlocutores consideram que a postura também deve servir para o envio de um recado contrário a eventuais interferências no processo eleitoral brasileiro. O receio de que a Casa Branca busque envolvimento nas eleições de outubro ganhou tração com a tentativa de um assessor de Donald Trump, Darren Beattie, de vir ao Brasil para se reunir com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e lideranças da oposição.
O encontro, programado para esta semana, não aconteceu. Além da internação médica do ex-presidente, o visto de Beattie foi cancelado pelo governo brasileiro, diante da constatação da prestação de informações falsas sobre o real motivo da viagem.
Durante sua fala na cúpula, na Colômbia, Lula também espera ressaltar as ações do governo brasileiro para combater o crime organizado, como forma de externar a outros países que o Palácio do Planalto está comprometido e ciente da gravidade do tema.
Anunciar as ações do governo nesta área é uma das estratégias adotadas pelo Planalto. Na segunda-feira (16), durante reunião com o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, o petista escalou nomes como o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, para discutir questões de cooperação em segurança. Brasil e Bolívia, inclusive, assinaram um acordo de cooperação e coordenação contra o crime organizado transnacional.
Ainda assim, em entrevista a jornalistas após o encontro, Paz sugeriu ser favorável à possível classificação pelos EUA de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e afirmou que "o Brasil exporta violência para a Bolívia".
Há semanas, o presidente brasileiro tem se mostrado particularmente preocupado com as investidas americanas na América Latina e no Caribe.
Movimentos como o do Paraguai, que recentemente aprovou um acordo militar com os EUA autorizando a presença de tropas americanas no país para combate ao crime organizado e narcotráfico, reforçaram o sinal de alerta. A cúpula "Escudo das Américas", organizada por Trump com a presença de países da região e sem a presença do Brasil - para discutir questões de segurança - também.
Investimento em defesa e integração
Na semana passada, em meio às tensões no cenário geopolítico mundial, Lula citou explicitamente a vulnerabilidade do Brasil quando o assunto é capacidade de defesa. Em declaração à imprensa no Palácio do Planalto após agenda com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o petista afirmou que se o Brasil não se preparar melhor na área de defesa, "qualquer dia alguém invade a gente".
Para assessores, a fala reiterou uma "constatação óbvia". Em outras ocasiões, no entanto, o presidente adotou uma postura diferente.
Durante a abertura da 39ª Conferência Regional da FAO em Brasília, em 4 de março, Lula criticou a afirmação de que "quem quer paz se prepara para a guerra". O petista afirmou que o ditado é usado como justificativa por aqueles que, na verdade, desejam fazer guerra e fez críticas aos gastos com armamentos ao redor do mundo.
Em novembro do ano passado, em seu discurso na Cúpula Celac-União Europeia, na Colômbia, Lula afirmou que América Latina e o Caribe "vivem uma profunda crise em seu projeto de integração".
"Voltamos a conviver com as ameaças do extremismo político, da manipulação da informação e do crime organizado. Projetos pessoais de apego ao poder solapam a democracia. Estamos deixando de cultivar nossa vocação de cooperação e permitindo que conflitos e disputas ideológicas se imponham", afirmou0








