Política

Lula lamenta desunião na América Latina e cita EUA ao criticar "recrudescimento de tentações hegemônicas"

Presidente reclamou que Celac não conseguiu "produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam nossa região"

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Felipe Moraes
28/01/2026, 15:25 • Atualizado em 28/01/2026, 16:14
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lamentou nesta quarta-feira (28) o que chamou de "um dos momentos de maior retrocesso em matéria integração" entre países de América Latina e Caribe e citou "proximidade geográfica" com Estados Unidos como "referência inescapável, por presença ou distanciamento" ao criticar "recrudescimento de tentações hegemônicas". Mandatário fez discurso hoje na abertura do Fórum Econômico Internacional, evento organizado pelo CAF, banco de desenvolvimento da América Latina, na Cidade do Panamá.

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"A única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a Celac, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente Petro. A Celac não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região", disse Lula, sem mencionar diretamente operação militar do governo Trump que capturou Nicolás Maduro na Venezuela.

O petista afirmou que, nos últimos anos, a região voltou "a ser dividida, mais voltada para fora do que para si própria". "Permitimos que conflitos e disputas ideológicas alheios se imponham. As ameaças do extremismo político e da manipulação da informação se incorporam ao nosso cotidiano. Passamos de reunião em reunião, repletas de ideias e iniciativas que nunca saem do papel. Nossas Cúpulas se tornaram rituais vazios, dos quais se ausentam os principais líderes regionais", acrescentou.

O mandatário brasileiro relatou dificuldades que região encarou ao enfrentar "desafios sistêmicos", como pandemia de covid-19, combate ao crime organizado e enfrentamento do aquecimento global. "Em um contexto global de ruptura da ordem liberal e do ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo, os paradigmas endógenos ligados ao panamericanismo e ao bolivarianismo são insuficientes."

Presidente pede criação de bloco econômico forte para acabar com a fome

Lula sugeriu olhar para a União Europeia (UE) como "uma referência positiva", mas opinou que "o peso das identidades nacionais torna inviável a curto prazo qualquer projeto de envergadura parecida com o europeu".

Também reforçou que países precisam aprender "a conviver com a diversidade das vontades políticas". E fez apelo para que região crie um bloco econômico que tenha como objetivo acabar com a fome. "Em dois anos e meio, acabei com a fome outra vez", acrescentou em trecho improvisado da fala, ao falar do terceiro mandato como presidente.

"Não há nenhuma possibilidade de qualquer país da América Latina, sozinho, achar que vai resolver os problemas. São 525 anos de história, não são 525 dias. Já fomos colonizados, recolonizados, independentes e continuamos colonizados. Porque, muitas vezes, colonização não está na interferência, está na formação cultural. Precisamos mudar de comportamento. Precisamos criar bloco econômico que a gente possa dizer que vai acabar com a fome", pediu.

O petista afirmou o que Brasil serve de modelo "em um mundo envolto em turbulências", porque "escolheu o caminho da democracia, da paz, do multilateralismo e da integração regional". Após enumerar conquistas recentes internas, como controle da inflação, índices mínimos recordes de desemprego e retomada de valorização do salário mínimo, e externas, a exemplo do acordo Mercosul-UE, lamentou problemas sociais, sobretudo a violência contra mulheres.

"A América Latina ostenta o triste recorde de ser a região com maior número de feminicídios. Segundo a Cepal, onze mulheres latino-americanas são assassinadas diariamente. Essa não é uma batalha só das mulheres. Nós, homens, temos que nos somar a essa luta e assumir a responsabilidade de acabar com a violência contra as mulheres", completou.

Lula: "Houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro"

O mandatário voltou a falar dos EUA, lembrando da "política de boa vizinhança" e das "quatro liberdades fundamentais" defendidas pelo ex-presidente Franklin D. Roosevelt.

"A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem este hemisfério que é de todos nós. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos. Entre tantos corolários e doutrinas que nos foram dedicadas ao longo da história, também houve momentos em que os Estados Unidos souberam ser um parceiro em prol dos nossos interesses de desenvolvimento."

Em outro momento não ensaiado do discurso, Lula disse que seu terceiro mandato tem feito "uma revolução de inclusão social, colocando as pessoas pobres no orçamento". "Pobres não podem ser tratados como invisíveis. Não existem apenas na época eleitoral, existem todo santo dia. E toda vez que nós, governantes, vamos discutir o país, temos que lembrar dos pobres, aqueles que constroem a riqueza do país", acrescentou.

Na pauta econômica, o petista destacou que exploração de minerais críticos e terras raras "só têm sentido para enriquecer nossos países, se a gente tiver coragem de construir parcerias". "Para serem transformados nos nossos países, para gerar riqueza e emprego e desenvolvimento".

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