Cidades

Caso das joias: pai de Mauro Cid usou estrutura de agência em Miami para negociar presentes, diz Apex

General Mauro Lourena Cid estava à frente do escritório nos EUA e também apoiou trama golpista em 2022; celular institucional foi utilizado em negociações

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Carlos Catelan
12/07/2024, 14:38 • Atualizado em 12/07/2024, 14:39
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Pai (a esq.), Mauro Cesar Lourena Cid, e filho, Mauro Cid (dir.), são investigados pela PF no caso | Reprodução Romério Cunha/VPR e Antônio Cruz/Ag. Brasil

Pai (a esq.), Mauro Cesar Lourena Cid, e filho, Mauro Cid (dir.), são investigados pela PF no caso | Reprodução Romério Cunha/VPR e Antônio Cruz/Ag. Brasil

Uma comissão da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) designada a apurar possíveis irregularidades no escritório em Miami, nos Estados Unidos, concluiu que houve práticas "de delitos e graves desvios de conduta durante a gestão do general Mauro Lourena Cid à frente do escritório". O militar, pai do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), é investigado no caso da suposta venda ilegal de joias da Arábia Saudita dadas à presidência no governo passado.

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Conforme apurou a Apex, o general, que, segundo a Polícia Federal (PF), atuava com suporte de Cid, utilizou a estrutura da agência no exterior para negociação dos presentes.

"Isso ocorreu antes e depois de sua demissão do cargo, em 3 de janeiro de 2023. A partir de trecho de relatório da PF com imagens de mensagens de WhatsApp enviadas por Lourena Cid com identificação de data, foi possível concluir que, às 10:39 da manhã de 4 de janeiro de 2023, já demitido mas ainda nas dependências do escritório da Apex, ele usou o celular funcional para compartilhar fotos das jóias e objetos de arte do acervo atribuído ao ex-presidente", diz nota enviada pela Apex.

Lourena Cid teria utilizado o celular em fotos amplamente divulgadas pela mídia à época em que a investigação, que tornou indiciados Bolsonaro e aliados, veio à tona. Nas imagens, aparece reflexo do pai de Cid. O relatório ainda afirma que, no momento de devolução do aparelho corporativo, este teve "seus dados apagados, de forma irregular, por um servidor na presença de outros".

Veja outras conclusões do relatório

+ "Lourena Cid recebeu em seu gabinete corretor que transportou joias de Bolsonaro": teria recebido em seu gabinete o corretor de imóveis Cristiano Piquet, que confessou à PF, em janeiro de 2023, ter transportado uma mala de joias de Orlando para Miami, com objetivo de entregá-la ao general Cid. Pai e filho, acompanhados da matriarca, teriam ainda frequentado o local mesmo após exoneração;

+ "Resistência explícita de Cid ao resultado eleitoral e visita ao acampamento golpista na companhia de servidores da ApexBrasil": "Manifestava repetidamente aos funcionários sua convicção de que, mesmo depois de eleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tomaria posse e de que ele, Cid, continuaria em seu cargo à frente do escritório", diz relatório.

O pai de Mauro Cid teria, na companhia de dois funcionários (não identificados), frequentado o QG do Exército em Brasília à época dos acampamentos. Entre esses funcionários, um deles já demitido (segundo informa a Apex), observou-se o desvio de funções, em que eles exerciam trabalhos inclusive na residência pessoal de Cid;

+ "Exame da atuação do general Mauro Cid na chefia do escritório de Miami denota afastamento das atividades de negócios": documento diz que Lourena possuía "comportamento desviante" em relação às atribuições inerentes à função. Durante sua gestão, nunca teria feito "proposições voltadas à exportação ou captação de investimentos. Não solicitou relatórios, tampouco avaliou resultados. Segundo relatos unânimes, o general aprovava todas as propostas levadas a ele, sem aprofundar conteúdos, sugestões ou reparos". A investigação também apontou para uma agenda de "baixo perfil", sem o registro de alguns encontros;

+ "Agravante: a condição de 'anexo consular' do escritório da Apex em Miami na gestão de Lourena Cid" após negociação do governo Bolsonaro com o Departamento de Estado dos EUA, a condição diplomática de "anexo consular" deu aos dirigentes do escritório benefícios e imunidades concedidas a diplomatas, como por exemplo facilidades para obtenção de vistos;

+ "Médico de Bolsonaro, Ricardo Camarinha, era funcionário fantasma": ele "não desenvolvia qualquer atividade profissional que mantivesse ligação com o cargo de assessor (ao qual foi alçado), e nem frequentava as dependências do escritório, configurando uma possível contratação fraudulenta".

O que fará a Apex?

A agência informou em nota que as conclusões serão encaminhadas à PF, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal de Contas da União (TCU). Também informou que já iniciou tratativas junto ao Ministério das Relações Exteriores para rever o status do escritório nos EUA.

"A Diretoria da ApexBrasil decidiu ainda fazer uma intervenção no escritório de Miami, designando temporariamente para seu comando servidora da Agência qualificada e experiente, com a missão de avaliar todos os aspectos de sua funcionalidade operacional e negocial e propor completa reestruturação. Este trabalho encontra-se em fase de conclusão", completou a Apex.

O que diz o acusado?

A reportagem tentou contato com a defesa de Mauro Lourena Cid, mas não obteve resposta até a finalização desta reportagem.

O SBT News também pediu posicionamento do Itamaraty quanto à condição de "anexo consular" do escritório da Apex em Miami e aguarda retorno. O espaço segue aberto.

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