'Até quando?': amigo de jovem vítima de feminicídio em Araguari (MG) questiona onda de violência contra a mulher
Luana Carolina de Melo, de 27 anos, teria sido atraída para uma emboscada, abusada e morta; suspeito era obcecado por ela, segundo testemunhas

Sofia Pilagallo
"Até quando?". O questionamento é de Maycon Douglas da Silva, de 26 anos, amigo de Luana Carolina de Melo, de 27 anos, mais uma vítima de feminicídio no Brasil. Após ficar horas desaparecida, ela foi encontrada morta no domingo (22), em Araguari, no Triângulo Mineiro. Ao SBT News, Maycon conta que o crime chocou os moradores da cidade.
Segundo a TV Vitoriosa, afiliada do SBT na região, o principal suspeito do crime é um homem de 38 anos que era casado com uma tia de Luana e, segundo testemunhas, demonstrava comportamento obsessivo pela vítima. De acordo com a Polícia Militar, ela foi atraída para uma emboscada, e teria sido abusada sexualmente antes de ser morta.
O suspeito ligou para Luana afirmando ter encontrado uma bolsa que ela supostamente havia perdido e, confiando na informação, a vítima deixou sua filha de seis anos em casa e foi até a residência dele. Depois disso, familiares não conseguiram mais contato com ela.
O corpo de Luana foi descoberto pela própria filha do suspeito, que é prima da vítima, dentro do imóvel. Ela estava parcialmente despida e apresentava sinais de abuso. Levantamentos iniciais realizados pela perícia apontam que a causa provável da morte foi estrangulamento, possivelmente executado com o uso de um fio de cobre.
Após o crime, o homem fugiu da residência levando a motocicleta e o aparelho celular de Luana, mas foi preso na madrugada desta terça-feira (24), em Goiânia.
Maycon, que conheceu Luana na adolescência e era um dos seus melhores amigos, afirma se sentir "aliviado" com a prisão do suspeito, mas lamenta o fato de que o cumprimento da justiça não pode trazer a amiga de volta. Ele também está espantado com a onda de violência contra a mulher no país, que tem se agravado nos últimos tempos.
"É claro que queremos justiça, mas a justiça não vai trazer a Luana de volta. Eu não gosto de me expor, mas pensei: 'Vou ter que ir para as redes sociais, fazer alguma coisa.’ Porque sinto que [a violência contra a mulher] foi banalizada. Todo dia vemos casos de feminicídio. Até quando?", questiona Maycon, ressaltando que Araguari parece enfrentar uma crise de segurança pública.
"Teve um dia que eu estava olhando as notícias e, em menos de 24 horas, foram três mortes. Araguari é uma cidade pequena. Não deveria haver tamanha violência. Eu não sei aonde vamos chegar. Sempre consideramos aqui um lugar bom e tranquilo para se viver", acrescenta.
Maycon conta que passou cerca de dois meses viajando e que a última vez que conversou com Luana foi no final de janeiro. Ela comentou uma foto dele, postada nas redes sociais, e disse que estava com vontade de ir à praia, algo que vinha adiando há tempos.
O jovem relata que só "curtiu" a mensagem, certo de que veria Luana em breve e de que conversariam sobre essa possibilidade — o que nunca ocorreu. Ele lamenta o fato de não ter dado mais atenção à mensagem, sem saber que aquela seria a última interação entre os dois.

'Pessoa única'
A lembrança de Luana que fica para Maycon é a de uma pessoa alegre, espontânea e acolhedora. Ele relembra que os dois se conheceram no ensino médio, quando o jovem se mudou para uma escola onde se sentia deslocado e estudou por um ano apenas. Ainda assim, a amiga o fazia se sentir acolhido.
Logo no primeiro dia de aula, Maycon e Luana ficaram conversando por horas na quadra de esportes e viraram melhores amigos. Passaram a fazer tudo juntos. Segundo o jovem, a amiga era uma pessoa querida na cidade e seu velório reuniu inúmeras pessoas, que choravam copiosamente, inconformadas.
Luana enfrentou uma série de problemas em sua vida pessoal. Ela cresceu sem o pai, virou mãe solo e teve que lidar com o drama do irmão, que sofreu um acidente e perdeu alguns movimentos do corpo. Ainda assim, de acordo com Maycon, nunca era vista de mau humor.
"Luana era uma pessoa única. Era espontânea, feliz. Nunca a vi para baixo, apesar de todos os seus problemas pessoais. Não havia uma pessoa que a conhecesse e não falasse: 'Que energia maravilhosa, que alma linda'", conta Maycon, acrescentando que a amiga tinha uma veia artística.
"Ela sempre foi muito esperta, muito inteligente. Amava o teatro e tudo relacionado à arte. Participamos de vários grupos de dança na época da escola. Na vida adulta, trabalhou muito com artesanato e, recentemente, estava ganhando dinheiro fazendo tranças", acrescenta.
Maycon conta que a notícia da trágica morte de Luana pegou a todos de surpresa. Embora relatos de pessoas próximas apontem que o suspeito demonstrava comportamento obsessivo pela vítima, a amiga nunca teria dado indícios de que estava sendo perseguida ou de que corresse perigo.
O jovem relata ainda que, segundo o que ouviu de pessoas próximas, Luana teria gritado por socorro antes de ser morta. A filha dela também teria chorado por horas esperando pela mãe, que nunca chegou em casa. A criança pulou o portão de casa e pediu ajuda a familiares que moravam na vizinhança.
"Foi tudo muito brutal — tanto para Luana, quanto para a filha. A mãe dela já tem um filho com algumas limitações. Agora, perdeu a filha e não sabe como vai fazer para cuidar da neta", afirma Maycon. "Eu a amo e vou cuidar muito bem dela, mas é mais uma criança que vai crescer sem a mãe."








