Senado adia projetos contra misoginia e "Lei Maria da Penha digital” após pressão da oposição
Proposta de senador Randolfe Rodrigues previa combate ao ódio contra mulheres na internet; Randolfe critica retirada e chama decisão de “medida protelatória”



Vicklin Moraes
Raquel Landim
Soane Guerreiro
Os projetos que criminalizam a misoginia, classificando-a como forma de preconceito ou discriminação, e que criam a "Lei Maria da Penha digital” foram retirados da pauta do Senado nesta quarta-feira (18), após pedido de parlamentares da oposição ao governo.
Em entrevista ao SBT News, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), autor da proposta que institui a chamada Lei Maria da Penha digital — que também teve a discussão adiada —, criticou a decisão e afirmou que o projeto busca combater conteúdos de ódio contra mulheres nas redes sociais, incluindo comunidades associadas ao chamado movimento “redpill”.
O termo “redpill” é usado por grupos online que dizem expor uma suposta “verdade” sobre relações entre homens e mulheres, mas que, na prática, frequentemente difundem ideias misóginas, defendem a superioridade masculina e incentivam comportamentos de controle, hostilidade ou violência contra mulheres.
“O projeto foi retirado de pauta a pedido de colegas de partidos mais à direita. Era uma iniciativa para enfrentar esse tipo de conteúdo na internet”, afirmou.
Segundo o senador, a proposta tinha como objetivo coibir movimentos e conteúdos que incentivam a violência de gênero. Ele citou tendências recentes nas redes sociais, como a trend “caso ela diga não”.
Os vídeos utilizam imagens de agressão física, muitas vezes retiradas de jogos eletrônicos, animes ou competições de luta, acompanhadas da legenda “quando ela diz não”, sugerindo a violência como resposta aceitável a rejeições, como em pedidos de relacionamento.
Randolfe também afirmou que pretende retomar a discussão e classificou a retirada como uma estratégia para atrasar a tramitação.
“Todos dizem concordar com o mérito, mas, na prática, é uma medida protelatória. Há uma combinação de comportamento machista com o lobby das big techs, que não querem mecanismos para retirar esse tipo de conteúdo”, declarou.
O senador ainda relacionou a disseminação de conteúdos de ódio na internet a casos reais de violência. “A raiz de muitos casos de violência contra a mulher está nesse tipo de conduta disseminada nas redes”, afirmou.
Lei Maria da Penha digital
O projeto, identificado como PL 2/2026, institui a Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet. A proposta prevê novas obrigações para plataformas digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagens, com foco na prevenção, moderação e responsabilização de conteúdos ligados à violência de gênero.
O texto determina a adoção de mecanismos de detecção ativa de conteúdo, com uso de inteligência artificial e revisão humana, além da remoção de conteúdos ilícitos e notificação dos responsáveis, com garantia de defesa.
Na prática, o projeto amplia a responsabilidade das plataformas ao exigir atuação preventiva, e não apenas reativa a denúncias, incorporando o conceito de “responsabilidade sistêmica”.









