Salada espacial? Brasileira quer cultivar alimentos em Marte
Entenda desafio científico de cultivar em solo alienígena e como simular base marciana ajuda a viabilizar missões cada vez maiores
G
Guilherme Latorre
Marte | Divulgação/Nasa
Prepara a salada espacial, pois cultivar alimentos fora da Terra deixou de ser apenas ficção. Se você acha difícil manter viva aquela plantinha na varanda de casa, imagina garantir comida fresca para astronautas que viajarão milhões de quilômetros em foguetes rumo a um planeta completamente estéril?
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Quando os seres humanos estabelecerem suas primeiras bases permanentes na Lua e em Marte, a produção de comida será uma questão de sobrevivência. Vai ser preciso cultivar plantas tanto durante os longos voos espaciais, que podem durar de 6 a 9 meses, no caso de Marte, quanto diretamente nas superfícies extraterrestres.
Para enfrentar esse desafio científico de proporções épicas, em fevereiro de 2026 a astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves assumiu o papel de Cientista-Chefe em uma tripulação internacional na Mars Desert Research Station (Estação de Pesquisa Marciana no Deserto, na tradução para o português), localizada no deserto de Utah, nos Estados Unidos.
Rebeca liderou dois experimentos agrícolas pioneiros. O primeiro analisou o cultivo de micro verdes em quatro substratos diferentes, incluindo um sistema hidropônico (método de cultivo de plantas sem terra), e em uma terra que simula o regolito – o solo marciano. O objetivo não era apenas ver o que crescia, mas calcular o tempo exigido da tripulação, um recurso precioso e escasso para os astronautas que precisam gerenciar a manutenção da base.
Regolito, o solo marciano | Divulgação/Nasa
O segundo experimento testou os limites da biologia. A equipe plantou sementes de tomate que viajaram cerca de 60 dias no espaço a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS) diretamente no solo que simula Marte. O teste é vital para comprovar a resistência das sementes à radiação cósmica a que estarão expostas em missões de longo curso.
Curiosamente, o ambiente extremo provocou uma resposta surpreendente na natureza.
"Os tomates marcianos são mais doces do que os tomates terrenos. E tem uma razão biológica para isso. É porque a uma planta quando ela se estressa, ela acumula glicose nas suas células", explicou Rebeca ao SBT News.
Toda a infraestrutura da base foi projetada para reproduzir a escassez radical de uma colônia espacial. O habitat principal era um cilindro de apenas 8 metros de diâmetro – o tamanho exato planejado para caber nas naves de transporte interplanetário. Energia vinha apenas de painéis solares e cada gota de água importava: o limite era tão brutal que a tripulação só tinha direito a um banho de balde em 15 dias.
"A gente tinha que escolher se queria tomar banho no meio da missão ou no final da missão para voltar para a civilização mais limpinho", revelou Rebeca.
A restrição moldava cada procedimento científico e rotineiro. "Se sobrava um pouquinho de café na xícara (...) a gente não jogava fora esse pouquinho que sobrava, a gente guardava para o dia seguinte, porque daí não precisava fazer aquele pouquinho mais", contou a astrobióloga.
É importante citar que o isolamento e as condições intensas de trabalho exercem um peso considerável durante os experimentos. A ciência espacial precisa prever esses impactos porque, como a especialista alerta, "o elo mais fraco de qualquer missão é a mente humana. Se alguma coisa na missão for quebrar primeiro, vai ser a psique humana. Não vai ser o motor do foguete".
Mas o ponto importante de destacar é: onde fica a ciência para os terráqueos? Desenvolver espécies agrícolas mais resilientes e sistemas estéreis e sustentáveis não serve apenas para povoar os outros planetas, explica Rebeca.
"Uma das coisas que a gente estuda, na agricultura espacial, é como transformar um regolito marciano, que é basicamente pedra moída, sem nenhum nutriente, totalmente estéril e tóxico. Então, o estudo é como pegar esse regolito marciano estéril e transformar em solo fértil". destaca.
Hoje, cerca de 40% dos solos cultiváveis da Terra estão degradados. As mesmas inovações projetadas para transformar o regolito tóxico de Marte em solo fértil podem ser aplicadas para recuperar as terras no planeta. Além disso, estufas autossustentáveis que reciclam água e independem do clima externo poderiam combater diretamente a insegurança alimentar em comunidades vulneráveis.
Rebeca faz questão de cravar: "Investir em tecnologia espacial é investir na Terra também, porque toda pesquisa volta. Toda, 100%".
Salada espacial? Brasileira quer cultivar alimentos em MarteEntenda desafio científico de cultivar em solo alienígena e como simular base marciana ajuda a viabilizar missões cada vez maioresMundo2026-07-29T09:00:00.000ZPrepara a salada espacial, pois cultivar alimentos fora da Terra deixou de ser apenas ficção. Se você acha difícil manter viva aquela plantinha na varanda de casa, imagina garantir comida fresca para astronautas que viajarão milhões de quilômetros em foguetes rumo a um planeta completamente estéril? Quando os seres humanos estabelecerem suas primeiras bases permanentes na Lua e em Marte, a produção de comida será uma questão de sobrevivência. Vai ser preciso cultivar plantas tanto durante os longos voos espaciais, que podem durar de 6 a 9 meses, no caso de Marte, quanto diretamente nas superfícies extraterrestres. Para enfrentar esse desafio científico de proporções épicas, em fevereiro de 2026 a astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves assumiu o papel de Cientista-Chefe em uma tripulação internacional na Mars Desert Research Station (Estação de Pesquisa Marciana no Deserto, na tradução para o português), localizada no deserto de Utah, nos Estados Unidos. Rebeca liderou dois experimentos agrícolas pioneiros. O primeiro analisou o cultivo de micro verdes em quatro substratos diferentes, incluindo um sistema hidropônico (método de cultivo de plantas sem terra), e em uma terra que simula o regolito – o solo marciano. O objetivo não era apenas ver o que crescia, mas calcular o tempo exigido da tripulação, um recurso precioso e escasso para os astronautas que precisam gerenciar a manutenção da base. O segundo experimento testou os limites da biologia. A equipe plantou sementes de tomate que viajaram cerca de 60 dias no espaço a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS) diretamente no solo que simula Marte. O teste é vital para comprovar a resistência das sementes à radiação cósmica a que estarão expostas em missões de longo curso. Curiosamente, o ambiente extremo provocou uma resposta surpreendente na natureza. "Os tomates marcianos são mais doces do que os tomates terrenos. E tem uma razão biológica para isso. É porque a uma planta quando ela se estressa, ela acumula glicose nas suas células", explicou Rebeca ao SBT News. Toda a infraestrutura da base foi projetada para reproduzir a escassez radical de uma colônia espacial. O habitat principal era um cilindro de apenas 8 metros de diâmetro – o tamanho exato planejado para caber nas naves de transporte interplanetário. Energia vinha apenas de painéis solares e cada gota de água importava: o limite era tão brutal que a tripulação só tinha direito a um banho de balde em 15 dias. "A gente tinha que escolher se queria tomar banho no meio da missão ou no final da missão para voltar para a civilização mais limpinho", revelou Rebeca. A restrição moldava cada procedimento científico e rotineiro. "Se sobrava um pouquinho de café na xícara (...) a gente não jogava fora esse pouquinho que sobrava, a gente guardava para o dia seguinte, porque daí não precisava fazer aquele pouquinho mais", contou a astrobióloga. É importante citar que o isolamento e as condições intensas de trabalho exercem um peso considerável durante os experimentos. A ciência espacial precisa prever esses impactos porque, como a especialista alerta, "o elo mais fraco de qualquer missão é a mente humana. Se alguma coisa na missão for quebrar primeiro, vai ser a psique humana. Não vai ser o motor do foguete". Mas o ponto importante de destacar é: onde fica a ciência para os terráqueos? Desenvolver espécies agrícolas mais resilientes e sistemas estéreis e sustentáveis não serve apenas para povoar os outros planetas, explica Rebeca. "Uma das coisas que a gente estuda, na agricultura espacial, é como transformar um regolito marciano, que é basicamente pedra moída, sem nenhum nutriente, totalmente estéril e tóxico. Então, o estudo é como pegar esse regolito marciano estéril e transformar em solo fértil". destaca. Hoje, cerca de 40% dos solos cultiváveis da Terra estão degradados. As mesmas inovações projetadas para transformar o regolito tóxico de Marte em solo fértil podem ser aplicadas para recuperar as terras no planeta. Além disso, estufas autossustentáveis que reciclam água e independem do clima externo poderiam combater diretamente a insegurança alimentar em comunidades vulneráveis. Rebeca faz questão de cravar: "Investir em tecnologia espacial é investir na Terra também, porque toda pesquisa volta. Toda, 100%".São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/salada-espacial-brasileira-quer-cultivar-alimentos-em-marte