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Partido da extrema direita alemã quer cortar apoio à Ucrânia

Líder do Alternativa para a Alemanha também defende retomada dos laços energéticos com a Rússia após partido vencer pela primeira vez uma eleição estadual

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Caio Barcellos
Os co-líderes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel e Tino Chrupalla | Reprodução/Reuters

Os co-líderes do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel e Tino Chrupalla | Reprodução/Reuters

A copresidente do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, afirmou que um eventual governo da sigla interromperia os pagamentos e o apoio alemão à Ucrânia e exigiria a devolução de parte dos recursos enviados a Kyiv.

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A declaração foi feita em entrevista ao canal austríaco AUF1 divulgada na sexta-feira (11), poucos dias depois da vitória na Saxônia-Anhalt, a primeira do partido em uma eleição estadual na Alemanha.

“Vamos interromper os pagamentos à Ucrânia e todo o apoio à guerra, também exigiremos reembolsos substanciais da Ucrânia”, afirmou Weidel, sem detalhar quais recursos seriam cobrados de volta nem qual mecanismo jurídico permitiria a exigência da restituição.

Weidel também defendeu o retorno de homens ucranianos em idade de serviço militar que vivem na Alemanha.

“[Devem voltar] sobretudo os jovens ucranianos sujeitos ao serviço militar, em idade de serviço militar. Temos também, na faixa dos seis dígitos, jovens homens que então, por favor, devem voltar”, disse, sem apresentar provas sobre a quantidade.

Relação com Moscou é bandeira antiga

A posição sobre a Ucrânia acompanha uma defesa mais ampla do AfD pela retomada das relações econômicas e energéticas com Moscou, uma orientação que antecede a invasão em larga escala russa, iniciada em fevereiro de 2022. No programa aprovado em 2016, o partido já defendia o fim das sanções impostas a Moscou após a anexação da Crimeia, em 2014.

Essa posição também aparece no programa apresentado pelo AfD para a eleição federal de 2025, que previa o levantamento imediato das sanções econômicas contra a Rússia e a recuperação dos gasodutos Nord Stream, construídos para levar gás russo diretamente à Alemanha pelo Mar Báltico.

“A Rússia foi, durante décadas, um fornecedor confiável e garantidor de um abastecimento energético a preços acessíveis, que, devido à natureza intensiva em energia da nossa indústria, constitui o calcanhar de Aquiles da economia alemã”, diz o documento.

A proposta aproximaria novamente a Alemanha do modelo energético que vigorava antes da guerra na Ucrânia, quando mais da metade do gás natural importado pelo país vinha da Rússia, assim como mais de um terço das compras externas de petróleo bruto, uma dependência que Berlim passou a reduzir depois da invasão em larga escala.

Weidel retomou esse discurso em junho, ao defender o fim das restrições às compras de petróleo e gás russos e a recuperação do acesso à energia fornecida por Moscou.

“A energia barata da Rússia era o segredo do sucesso do ‘Made in Germany’. Precisamos dela de volta”, disse em entrevista à Reuters.

A aproximação com Moscou também aparece na atuação de outros dirigentes do partido. No mesmo mês, o porta-voz de política externa da bancada do AfD, Markus Frohnmaier, viajou à Rússia, reuniu-se com o presidente-executivo da Gazprom, Alexei Miller, e com Kirill Dmitriev, representante de Vladimir Putin para investimentos e cooperação econômica.

No programa, o partido também defende que a Ucrânia permaneça como um país neutro, fora tanto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quanto da União Europeia.

O presidente-executivo da Gazprom, Alexey Miller, à direita, reúne-se com Markus Frohnmaier, porta-voz de política externa do AfD | Reprodução/AfD
O presidente-executivo da Gazprom, Alexey Miller, à direita, reúne-se com Markus Frohnmaier, porta-voz de política externa do AfD | Reprodução/AfD

Euroceticismo está na origem do AfD

A crítica à integração europeia está no gene do AfD. Criado em 2013, o partido surgiu principalmente da oposição à política adotada pela então chanceler Angela Merkel para enfrentar a crise da zona do euro, com programas de assistência financeira a países altamente endividados, como a Grécia.

Entre os principais fundadores estava o economista Bernd Lucke, professor da Universidade de Hamburgo e primeiro grande rosto nacional do AfD. Ele havia deixado em 2011 a União Democrata-Cristã (CDU) após mais de três décadas de filiação no partido de Merkel.

Lucke representava a ala eurocética do CDU que deu origem a AfD, centrada sobretudo na oposição ao euro e aos resgates financeiros da zona do euro. No entanto, ele deixou o partido em 2015 ao afirmar que a legenda havia se deslocado para posições nacionalistas e anti-imigração mais radicais.

Outro nome central na fundação foi Alexander Gauland, que também rompeu com a CDU depois de mais de 40 anos de filiação. Ex-secretário no governo estadual de Hessen, Gauland se tornou uma das figuras mais influentes do AfD e ajudou a conduzir a legenda da crítica econômica à União Europeia para uma plataforma nacional-conservadora mais ampla.

Essa radicalização ganhou força durante a crise migratória europeia de 2015, ainda no governo Merkel. Naquele ano, mais de um milhão de refugiados e migrantes -principalmente sírios, afegãos e iraquianos- chegaram ao continente no maior fluxo migratório para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O programa atual mantém essa posição eurocética e prevê que, caso as reformas defendidas pela legenda não possam ser realizadas dentro da estrutura da União Europeia, a Alemanha deixe o bloco ou trabalhe por sua substituição.

O AfD também considera o euro um projeto fracassado e defende que a Alemanha abandone a moeda comum.

Partido é monitorado pela inteligência alemã

O crescimento eleitoral da extrema-direita alemã ocorre ao mesmo tempo em que o partido permanece sob acompanhamento do Escritório Federal para a Proteção da Constituição (BfV), o serviço de inteligência interna da Alemanha.

Atualmente, a legenda é tratada nacionalmente como um “caso suspeito” de extremismo de direita, classificação que permite ao órgão empregar instrumentos de inteligência sob limites de proporcionalidade.

Em maio de 2025, o BfV decidiu elevar o AfD para a categoria de organização de extrema-direita comprovada, alegando, entre outros pontos, posições contrárias à ordem democrática e uma concepção de nacionalidade baseada em critérios étnicos.

Contudo, o partido recorreu à Justiça e, em fevereiro deste ano, o Tribunal Administrativo de Colônia suspendeu a classificação até o julgamento da ação em que o AfD tenta anulá-la definitivamente. Com isso, a sigla voltou à condição anterior de “caso suspeito”, que já foi confirmada definitivamente pela Justiça após recursos apresentados pela legenda.

No domingo (6), o AfD recebeu 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt, mais que o dobro de sua votação na eleição estadual anterior, e conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento. A sigla ficou a três assentos da maioria absoluta e ainda depende do apoio de outras forças políticas para chegar ao governo estadual.

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