'P4M': Lula e líderes lançam manifesto pelo multilateralismo
Em artigo publicado no jornal britânico 'Financial Times', autores defendem reforma das Nações Unidas e ação conjunta contra desafios globais
SBT News
Da esq. para a dir.: Luiz Inácio Lula da Silva, António Costa, Mark Carney e William Ruto | Fotos: Reuters/Wikimedia Commons/Wikimedia Commons/Wikimedia Commons
Às vésperas da Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), juntamente com outros líderes, defendeu a renovação do sistema multilateral diante do aumento das tensões geopolíticas e dos desafios globais que, segundo os autores, não podem ser enfrentados isoladamente pelos países. A opinião foi exposta em um manifesto publicado neste domingo (20) no jornal britânico "Financial Times".
No artigo, assinado também pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e pelo presidente do Quênia, William Ruto, os líderes anunciam a criação da iniciativa "Parceiros pelo Multilateralismo" (P4M, na sigla em inglês). A proposta busca reunir países de diferentes regiões para reformar o sistema internacional e enfrentar desafios globais.
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Segundo os líderes, a P4M não pretende formar "mais um bloco exclusivo" nem criar uma nova burocracia internacional. A iniciativa deve apoiar reformas na ONU e em outras instituições multilaterais, além de fortalecer a cooperação em áreas como paz e segurança, inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde e transformação digital.
Os autores afirmam que o mundo vive um paradoxo: enquanto as economias e sociedades estão cada vez mais interligadas, a geopolítica se torna mais fragmentada e polarizada. Para eles, as falhas do atual sistema multilateral exigem mudanças, mas não reduzem a necessidade de cooperação internacional.
"Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva", escreveram.
Como sinais desse cenário, o manifesto cita 65 conflitos armados envolvendo Estados em 2025, o maior número desde 1946, e gastos militares globais recordes de US$ 2,9 trilhões (cerca de R$ 14,9 trilhões). Os autores também afirmam que o direito internacional está sob pressão e que as relações econômicas têm sido cada vez mais usadas como instrumentos de pressão e coerção.
Para Lula, Costa, Carney e Ruto, desafios como a emergência climática, o avanço da inteligência artificial, pandemias, crises financeiras e conflitos reforçam a necessidade de ação conjunta. Eles argumentam que nenhum país, independentemente de seu poder, consegue enfrentar sozinho problemas com impacto global.
"Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho", escreveram. "A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo."
Os líderes ressaltam que a P4M pretende fortalecer, e não substituir, o sistema multilateral existente. A proposta também busca aproximar países que divergem em diferentes temas, mas compartilham princípios da Carta da ONU, como integridade territorial, solução pacífica de controvérsias, direitos humanos e proibição do uso da força.
Ao citar uma declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que "as superpotências estão descobrindo seus limites", os autores defendem a retomada da ação coletiva. Eles também argumentam que a cooperação internacional pode fortalecer a soberania e contribuir para a defesa dos próprios interesses nacionais.
ONU sob pressão
A iniciativa surge em um momento de forte pressão sobre as ONU, que enfrenta uma grave crise financeira e questionamentos sobre sua capacidade de responder aos principais conflitos internacionais. Em junho, a Assembleia Geral aprovou uma mudança nas regras financeiras que, segundo a então presidente do órgão, evitou um “colapso financeiro iminente”, mas não solucionou o problema estrutural de falta de recursos.
A ONU também chega à Assembleia Geral em meio às guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, onde divisões entre as grandes potências têm limitado a atuação do Conselho de Segurança. A organização passa, ainda, por um amplo processo de reformas e redução de custos, que incluiu cortes de postos e mudanças na estrutura administrativa.
Outro desafio é a escolha de quem substituirá António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro. Neste domingo, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet desistiu da disputa após perder apoio nas votações informais do Conselho de Segurança; sete candidatos continuam no processo para comandar a organização.
É nesse cenário que começa, na terça-feira (22), o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral, que segue até 28 de setembro, em Nova York. Como ocorre tradicionalmente, o Brasil será o primeiro Estado-membro a discursar, com uma fala de Lula, em uma edição cujo tema é "Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas".
'P4M': Lula e líderes lançam manifesto pelo multilateralismoEm artigo publicado no jornal britânico 'Financial Times', autores defendem reforma das Nações Unidas e ação conjunta contra desafios globaisMundo2026-09-20T22:59:58.333ZÀs vésperas da Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), juntamente com outros líderes, defendeu a renovação do sistema multilateral diante do aumento das tensões geopolíticas e dos desafios globais que, segundo os autores, não podem ser enfrentados isoladamente pelos países. A opinião foi exposta em um manifesto publicado neste domingo (20) no jornal britânico "Financial Times". No artigo, assinado também pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e pelo presidente do Quênia, William Ruto, os líderes anunciam a criação da iniciativa "Parceiros pelo Multilateralismo" (P4M, na sigla em inglês). A proposta busca reunir países de diferentes regiões para reformar o sistema internacional e enfrentar desafios globais. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. Segundo os líderes, a P4M não pretende formar "mais um bloco exclusivo" nem criar uma nova burocracia internacional. A iniciativa deve apoiar reformas na ONU e em outras instituições multilaterais, além de fortalecer a cooperação em áreas como paz e segurança, inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde e transformação digital. Os autores afirmam que o mundo vive um paradoxo: enquanto as economias e sociedades estão cada vez mais interligadas, a geopolítica se torna mais fragmentada e polarizada. Para eles, as falhas do atual sistema multilateral exigem mudanças, mas não reduzem a necessidade de cooperação internacional. "Alguns podem concluir, portanto, que o sistema multilateral fracassou. Em parte, essa crítica é compreensível. Um sistema multilateral que não reflita as realidades de hoje não resistirá ao tempo. Mas a necessidade de cooperação multilateral segue plenamente viva", escreveram. Como sinais desse cenário, o manifesto cita 65 conflitos armados envolvendo Estados em 2025, o maior número desde 1946, e gastos militares globais recordes de US$ 2,9 trilhões (cerca de R$ 14,9 trilhões). Os autores também afirmam que o direito internacional está sob pressão e que as relações econômicas têm sido cada vez mais usadas como instrumentos de pressão e coerção. Para Lula, Costa, Carney e Ruto, desafios como a emergência climática, o avanço da inteligência artificial, pandemias, crises financeiras e conflitos reforçam a necessidade de ação conjunta. Eles argumentam que nenhum país, independentemente de seu poder, consegue enfrentar sozinho problemas com impacto global. "Nenhum país, por mais poderoso que seja, pode enfrentar esses desafios sozinho", escreveram. "A cooperação não é um ato de idealismo; é uma necessidade prática. A questão não é saber se o multilateralismo pode sobreviver, mas como ele deve evoluir para responder às realidades do nosso tempo." Os líderes ressaltam que a P4M pretende fortalecer, e não substituir, o sistema multilateral existente. A proposta também busca aproximar países que divergem em diferentes temas, mas compartilham princípios da Carta da ONU, como integridade territorial, solução pacífica de controvérsias, direitos humanos e proibição do uso da força. Ao citar uma declaração do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que "as superpotências estão descobrindo seus limites", os autores defendem a retomada da ação coletiva. Eles também argumentam que a cooperação internacional pode fortalecer a soberania e contribuir para a defesa dos próprios interesses nacionais. ONU sob pressão A iniciativa surge em um momento de forte pressão sobre as ONU, que enfrenta uma grave crise financeira e questionamentos sobre sua capacidade de responder aos principais conflitos internacionais. Em junho, a Assembleia Geral aprovou uma mudança nas regras financeiras que, segundo a então presidente do órgão, evitou um “colapso financeiro iminente”, mas não solucionou o problema estrutural de falta de recursos. A ONU também chega à Assembleia Geral em meio às guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, onde divisões entre as grandes potências têm limitado a atuação do Conselho de Segurança. A organização passa, ainda, por um amplo processo de reformas e redução de custos, que incluiu cortes de postos e mudanças na estrutura administrativa. Outro desafio é a escolha de quem substituirá António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro. Neste domingo, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet desistiu da disputa após perder apoio nas votações informais do Conselho de Segurança; sete candidatos continuam no processo para comandar a organização. É nesse cenário que começa, na terça-feira (22), o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral, que segue até 28 de setembro, em Nova York. Como ocorre tradicionalmente, o Brasil será o primeiro Estado-membro a discursar, com uma fala de Lula, em uma edição cujo tema é "Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas". São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/p4-m-lula-e-lideres-lancam-manifesto-pelo-multilateralismo