Noruega vê acordo com Brasil como resposta ao protecionismo
Embaixador defende comércio previsível e com diversificação de parceiros em meio à incertezas geopolíticas; redução e eliminação de tarifas começam no domingo

Kjetil Elsebutangen é o embaixador da Noruega no Brasil desde dezembro de 2025 | Luis Nova
O embaixador da Noruega no Brasil, Kjetil Elsebutangen, apresentou nesta quinta-feira (29) o acordo comercial entre Mercosul e Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) como uma resposta ao avanço do protecionismo e ao uso das questões comerciais como instrumento político.
Em conversa com jornalistas na embaixada, em Brasília, o diplomata classificou o entendimento como “tanto econômico quanto estratégico”. Na avaliação dele, além de ampliar as oportunidades de negócios, o acordo sinaliza o compromisso dos participantes com um comércio internacional baseado em regras claras e previsíveis.
🔎 A EFTA é um bloco formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein que busca facilitar o comércio entre seus integrantes e com outros países. É separado da União Europeia.
“Isso porque estamos em um mundo com tarifas cada vez mais protecionistas. Um mundo onde a política comercial é utilizada como instrumento político [...] Isso também vai mandar uma mensagem para o mundo de que queremos criar um espaço de previsibilidade. Com tudo que vimos nos últimos meses e anos de mudanças de tarifas, todos os países estão procurando uma diversificação no comércio”, destacou Elsebutangen.
As reduções e eliminações de tarifas entre Brasil e Noruega começam neste domingo (1º). O acordo já é aplicado nas relações entre Brasil e Islândia, enquanto Suíça e Liechtenstein ainda dependem da conclusão de procedimentos internos.
Juntos, os quatro países da EFTA reúnem cerca de 15 milhões de habitantes. Apesar da população pequena, possuem um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de US$ 1,4 trilhão e estão entre os países com maior PIB por habitante segundo o Banco Mundial:
- Liechtenstein ocupa a 2ª posição, com US$ 220,2 mil;
- Suíça, a quinta, com US$ 114,8 mil;
- Islândia, a sétima, com US$ 98,3 mil;
- Noruega, a oitava, com US$ 94,6 mil.
Produtos e tarifas
O embaixador destacou quatro setores com potencial de expansão dos negócios entre Noruega e Brasil:
- serviços marítimos e atividades em alto-mar;
- energia e tecnologias ambientais (em especial de captura de carbono);
- pescados e frutos do mar;
- fertilizantes minerais.
Um dos principais destaques do acordo é a eliminação da tarifa de 10% sobre a importação de salmão inteiro fresco e filé congelado da Noruega a partir deste domingo (1º). Outras apresentações do pescado terão redução gradual, até chegar à isenção em quatro anos.
Também terão as tarifas zeradas peixes salgados como saithe, ling e zarbo. Para o bacalhau da espécie Gadus morhua, a alíquota já era zero e será mantida.
No caso dos fertilizantes NPK, o Brasil já aplica tarifa zero. Contudo, o acordo prevê tornar essa isenção um compromisso entre os parceiros ao fim de quatro anos, ampliando a previsibilidade para fornecedores e importadores.
🔎NPK é a sigla para nitrogênio, fósforo e potássio, nutrientes essenciais para plantas e usados em fertilizantes. O Brasil é altamente dependente da importação desses insumos, o que deixa o agronegócio exposto a choques internacionais, como a disparada dos preços após a invasão russa da Ucrânia em 2022.
Nos setores marítimo e energético, Elsebutangen apontou oportunidades em serviços para operações no mar, captura e armazenamento de carbono, eficiência energética e energia eólica marítima.
"É um acordo de comércio que cobra quase tudo [do negociado entre os países]". avalia o diplomata.
Para as exportações brasileiras, o acordo amplia o acesso ao mercado norueguês de produtos como carnes, mel, frutas, café, sucos e milho. O governo brasileiro também identifica oportunidades para aeronaves e peças, madeira, celulose, pedras ornamentais e produtos semimanufaturados de ferro e aço.
Produtos agrícolas como carne bovina, frango, mel, maçãs e suco de maçã poderão entrar na Noruega sem imposto de importação, desde que respeitados os limites de cotas estabelecidos no acordo.
A Noruega é a principal doadora do Fundo Amazônia desde sua criação, em 2008, e já destinou cerca de R$ 3,8 bilhões ao mecanismo, segundo os valores recebidos até setembro de 2026. Os repasses integram a Iniciativa Internacional de Clima e Florestas do país, financiada pelo orçamento norueguês de ajuda internacional.
Questionado sobre novas contribuições ao Fundo Amazônia, o embaixador reafirmou a intenção de manter o apoio norueguês, mas não anunciou valores nem datas para novos repasses.
“Temos esse compromisso de continuar a cooperação”, declarou. Segundo ele, futuros anúncios deverão ocorrer no momento considerado oportuno pelos governos.
Elsebutangen também elogiou os resultados brasileiros na redução do desmatamento e apontou a COP31, conferência do clima das Organização das Nações Unidas (ONU) que será realizada em Antália, na Turquia, de 9 a 20 de novembro, como uma oportunidade para avançar nas conversas sobre a cooperação ambiental.
“Foi bem sucedido. Duas semanas atrás, anunciaram resultados muito fortes, muito impressionantes de recordes na redução do desmatamento. E a Noruega é muito feliz de poder apoiar neste trabalho. É claro que a Noruega tem um compromisso para continuar esse apoio, essa contribuição. E tenho certeza que vamos junto com o Brasil procurar como fazer isso de maneira construtiva”, afirmou.















