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Imigrantes abrem startups enquanto Trump fecha as portas

Estrangeiros e segunda geração se destacam no setor de tecnologia dos EUA, mas restrições migratórias e cortes em pesquisas aumentam risco de perda de talentos

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Caio Barcellos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao embarcar no Air Force One a caminho de Michigan, em Maryland | Foto: REUTERS/Evan Vucci

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao embarcar no Air Force One a caminho de Michigan, em Maryland | Foto: REUTERS/Evan Vucci

Enquanto o governo de Donald Trump amplia as restrições à entrada e à permanência de estrangeiros nos Estados Unidos, imigrantes continuam ocupando uma posição central na criação das empresas de tecnologia mais promissoras do país.

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Das 20 companhias escolhidas pela Forbes para a lista Next Billion-Dollar Startups 2026, 9 têm ao menos um fundador nascido fora dos EUA. Essas startups são avaliadas, juntas, em US$ 4,22 bilhões, 59% dos US$ 7,1 bilhões atribuídos a todas as empresas do ranking.

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A presença estrangeira é ainda mais visível no topo da lista, com as cinco companhias de maior valor tendo ao menos um imigrante entre seus criadores e concentrando US$ 3,12 bilhões, cerca de 44% do valor total do ranking. A Forbes seleciona empresas sediadas nos EUA, financiadas por fundos de capital de risco e avaliadas em menos de US$ 1 bilhão.

No topo da lista está a Juicebox, avaliada em US$ 850 milhões. Criada pelo indiano Ishan Gupta e pelo alemão David Paffenholz, a empresa desenvolveu uma plataforma para pesquisar perfis profissionais e auxiliar empresas na contratação de funcionários.

Na sequência aparece a Fortell Research, com valor estimado em US$ 740 milhões. A empresa desenvolve aparelhos auditivos capazes de separar a fala dos ruídos de fundo em ambientes movimentados. Entre os fundadores está o russo Igor Lovchinsky, que se mudou para os EUA ainda jovem.

A terceira colocada é a DepthFirst, avaliada em US$ 580 milhões. Criada por Qasim Mithani e pelos italianos Daniele Perito e Andrea Michi, a companhia desenvolve modelos de inteligência artificial capazes de procurar vulnerabilidades em programas de computador e sugerir correções. Os fundadores passaram por empresas como Google DeepMind, Databricks, Block e Faire.

A Netic, avaliada em US$ 450 milhões, foi fundada por Melisa Tokmak, que saiu da Turquia para estudar na Universidade Stanford com bolsa integral. Depois de trabalhar como diretora de engenharia da Scale AI, criou uma plataforma que automatiza o atendimento de empresas de manutenção, climatização, hidráulica e serviços elétricos.

Experiência migratória vira produto

Em parte dessas empresas, o negócio nasceu de dificuldades enfrentadas pelos próprios fundadores ao se estabelecerem nos EUA.

A Lotus Health AI surgiu de uma experiência familiar ligada à imigração. KJ Dhaliwal cresceu traduzindo para o punjabi, idioma de partes da Índia e do Paquistão, as orientações dadas por médicos aos seus pais. Anos depois, criou uma plataforma de consultas virtuais disponível em mais de 50 idiomas.

Dhaliwal fundou a empresa cinco anos depois de vender por US$ 50 milhões o Dil Mil, aplicativo de relacionamentos voltado ao público sul-asiático. A Lotus Health AI pretende tornar o atendimento médico nos EUA mais acessível e barato, mas ainda não gera receita e aposta primeiro na expansão da base de usuários para depois definir como monetizar o serviço.

Para o CEO da Jumpstart, Fabiano Rocha, parte do desempenho dessas empresas está relacionada ao perfil dos estrangeiros que conseguem entrar no ecossistema norte-americano de tecnologia.

“A maioria não chega aos EUA no início da carreira, mas já formada, muitas vezes com passagem por universidades de elite ou por empresas como Google, Apple, DeepMind e Morgan Stanley”, afirmou o CEO da empresa brasileira que presta assessoria migratória a empreendedores e profissionais qualificados.

Segundo ele, vários desses profissionais desembarcam no país com conhecimento técnico, experiência empresarial e redes de contato que reduzem o intervalo entre a imigração e a criação de um negócio.

A influência da imigração no setor, porém, não se limita a empreendedores nascidos no exterior. Filhos de estrangeiros também transformam experiências familiares em empresas de tecnologia.

Havi Nguyen, por exemplo, é filha de vietnamitas e cresceu ajudando a família a lidar com o Medicaid, programa público de assistência médica dos EUA, enquanto trabalhava no salão de manicure dos pais. Depois, estudou na Universidade Columbia e passou por empresas como Facebook, Atlassian e Dow Jones antes de fundar a Abby Care.

Criada em 2021, após enfrentar dificuldades para encontrar atendimento domiciliar para crianças autistas, a companhia de Nguyen busca capacitar familiares de idosos e pessoas com deficiência a atuar como cuidadores remunerados com recursos do Medicaid.

Imigrantes também dominam entre os unicórnios

A concentração de estrangeiros não se limita às empresas que ainda tentam alcançar seu primeiro bilhão de dólares.

Levantamento da National Foundation for American Policy identificou ao menos um imigrante entre os fundadores de 455 das 775 startups privadas avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais nos EUA . A proporção também é de 59%.

Quando são incluídos os filhos de imigrantes, a participação sobe para 66%. As empresas fundadas por estrangeiros tinham valor conjunto estimado em US$ 5 trilhões em abril de 2026 e empregavam 833 pessoas cada uma em média.

Quase um quarto dos unicórnios norte-americanos foi criado por empreendedores que entraram inicialmente nos EUA como estudantes internacionais. A Índia é o principal país de origem, com imigrantes envolvidos na fundação de 96 companhias bilionárias. Depois aparecem Israel, Reino Unido, China e Canadá.

A Índia é o caso mais visível de como a imigração ajudou os EUA a manter a liderança tecnológica. Executivos nascidos no país ou ligados à diáspora indiana comandam algumas das maiores empresas já consolidadas do setor:

  • Sundar Pichai, criado em Chennai, dirige a Alphabet, controladora da Google;
  • Satya Nadella, nascido em Hyderabad, lidera a Microsoft;
  • Arvind Krishna, formado no Instituto Indiano de Tecnologia de Kanpur, preside a IBM;
  • Shantanu Narayen, natural de Hyderabad, comanda a Adobe;
  • Neal Mohan, filho de indianos que passou parte da juventude em Lucknow, é o presidente-executivo do YouTube.

Apesar desses resultados, os EUA não têm um visto permanente criado especificamente para fundadores de startups. Empreendedores estrangeiros dependem de modalidades destinadas a trabalhadores qualificados, estudantes, pessoas com habilidades extraordinárias, familiares de residentes ou profissionais patrocinados por empresas.

Universidades norte-americanas afirmam que mudanças adotadas pelo governo Trump tornaram mais difícil para estudantes estrangeiros permanecerem no país depois da conclusão dos cursos e ingressarem no mercado de trabalho.

Em janeiro de 2026, o Departamento de Estado informou ter cancelado cerca de 8.000 vistos estudantis em uma operação mais ampla que atingiu 100.000 vistos de não imigrantes.

Risco de fuga de cérebros

As políticas migratórias de Donald Trump não afetam apenas a entrada de novos empreendedores. Cientistas e pesquisadores que já trabalham nos EUA também passaram a considerar oportunidades em outros países diante das restrições a estrangeiros, dos cortes no financiamento federal e dos confrontos do governo com universidades.

Uma consulta realizada pela revista Nature com mais de 1.600 cientistas mostrou que 75% dos participantes consideravam deixar os EUA depois das mudanças promovidas pela Casa Branca, com Europa e Canadá entre os destinos mais citados.

Para João Fernando Finazzi, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), os dados indicam que o brain drain (fuga de cérebros) -nome dado à saída de mão de obra altamente qualificada de um país- já é um processo em andamento.

“Na verdade, a chamada fuga de cérebros já tem ocorrido nos EUA desde o início do governo Trump. As políticas de Trump têm criado não somente uma fuga, mas também e principalmente uma reavaliação da atratividade dos EUA como destino profissional”, afirmou ao SBT News.

Essa mudança ocorre em paralelo à redução do financiamento e da estrutura de pesquisa do governo norte-americano. Segundo dados citados por Finazzi, cerca de 25 mil cientistas e funcionários foram demitidos ou deixaram agências ligadas à pesquisa durante o primeiro ano da atual gestão Trump, enquanto mais de 7.800 financiamentos foram suspensos ou cancelados.

O professor também cita cortes no National Institutes of Health (NIH), principal agência de pesquisa médica do país, e na National Science Foundation (NSF), responsável por financiar pesquisas em diferentes áreas da ciência. As duas instituições somaram mais de 1.000 demissões e milhares de cancelamentos de financiamentos.

Finazzi afirma que esse conjunto de medidas não estimula apenas a saída de quem já está nos EUA, mas pode fazer pesquisadores estrangeiros desistirem de escolher o país para estudar ou desenvolver a carreira.

“Boa parte do fundamento da competitividade e da prosperidade dos EUA depende destes talentos nacionais e estrangeiros, atraídos pelas boas condições até então oferecidas”, disse.

Segundo ele, restrições a vistos, redução do financiamento à pesquisa e conflitos relacionados à educação e à liberdade acadêmica fragilizam “a formação de talentos e a cadeia de inovação que sustenta boa parte da economia dos EUA, principalmente no que diz respeito às startups”.

“Os impactos são profundos e amplos, com consequências em diversos níveis da sociedade. Não apenas na produção científica, mas também na formação e capacitação de pessoal, na produção de inovação e desenvolvimento tecnológico, na economia estadunidense e, no limite, na própria posição global dos EUA enquanto grande potência”, afirmou.

Um estudo da Information Technology and Innovation Foundation (ITIF) mostra que a redução do financiamento à pesquisa também pode ter efeitos econômicos de longo prazo. A entidade estima que um corte de 20% nos investimentos federais em pesquisa e desenvolvimento tiraria quase US$ 1 trilhão da economia norte-americana em 10 anos e reduziria a arrecadação em cerca de US$ 250 bilhões.

Outros governos tentam aproveitar a mudança de ambiente para captar talentos. A União Europeia passou a oferecer mais de cem programas nacionais e regionais destinados a atrair ou manter pesquisadores, com um total de quase € 900 milhões em recursos no início de 2026. A quantidade de pedidos para uma das principais bolsas europeias feitos por cientistas de fora do bloco cresceu 130% em relação ao ano anterior.

A França também criou programas voltados a pesquisadores instalados nos EUA. A iniciativa Choose France for Science oferece financiamento e apoio para que cientistas estrangeiros transfiram projetos e equipes ao país.

Segundo a Nature, entre janeiro e março de 2025, as candidaturas de cientistas baseados nos EUA para postos em outros países cresceram 32% em relação ao mesmo período do ano anterior -só em março, a alta chegou a 68%. No Canadá, o número de interessados vindos dos EUA subiu 41% no 1º trimestre, enquanto as candidaturas de canadenses para trabalhar no país vizinho recuaram 13%.

Nobel troca EUA pela China

Um dos exemplos mais simbólicos do brain drain ocorreu em julho de 2026, quando Omar Yaghi, ganhador do Prêmio Nobel de Química de 2025, deixou seu cargo na Universidade da Califórnia em Berkeley para trabalhar em tempo integral na Universidade Tsinghua, em Pequim.

Nascido em Amã, na Jordânia, em uma família de refugiados palestinos, Yaghi mudou-se para os EUA na década de 80, ainda na adolescência. Construiu sua carreira acadêmica no país e recebeu o Nobel pelo desenvolvimento das estruturas metal-orgânicas, materiais porosos que podem ser usados para captar água do ar, armazenar gases e retirar dióxido de carbono da atmosfera.

Na China, ele comandará o AIMATRY, instituto que pretende combinar inteligência artificial, química e ciência dos materiais. O objetivo é usar modelos computacionais para prever estruturas e propriedades antes da realização dos testes em laboratório, reduzindo o tempo necessário para descobrir novos materiais.

Antes da mudança, Yaghi já havia manifestado preocupação com a política migratória de Trump. Em entrevista concedida ao The New York Times, afirmou que o nacionalismo e a redução da abertura a estrangeiros colocavam em risco a rede formada por universidades, empresas e órgãos públicos que ajudou o país norte-americano a alcançar a liderança científica.

“Acho [a política migratória de Trump] lamentável. Precisamos entender que pessoas de diferentes origens elevam o nível para todos os envolvidos”, afirmou Yaghi na entrevista concedida em Estocolmo, capital da Suécia, logo após vencer o Nobel.

O governo Trump afirma que suas medidas buscam eliminar desperdícios, proteger a segurança nacional, aumentar a transparência das universidades e direcionar recursos para pesquisas consideradas estratégicas. A administração também sustenta que sua política de “ciência padrão-ouro” pretende elevar a capacidade de reprodução, a transparência e a objetividade dos estudos financiados pelo governo.

O risco apontado por universidades, empresas e entidades científicas é que as restrições acabem produzindo o efeito contrário: em vez de proteger a vantagem tecnológica dos EUA, podem empurrar para países concorrentes os profissionais que ajudaram a construir a liderança tecnológica norte-americana.

“Se os EUA não restaurarem estes pilares, como imigração, financiamento, regulação e educação, arriscam perder sua liderança científica e econômica, já fortemente tensionada por outros países, principalmente a China”, afirmou Finazzi.

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