Governo dos EUA defende classificar grupos do narcotráfico como terroristas em vídeo em português
Publicação não cita facções brasileiras, mas ocorre em meio à pressão dos EUA para rotular PCC e CV como "organizações terroristas estrangeiras"


Giovanna Colossi
A conta oficial em português do Departamento de Estado dos EUA divulgou um vídeo na rede social X, defendendo a designação de cartéis do narcotráfico como "organizações terroristas estrangeiras".
No vídeo, a porta-voz da pasta, Amanda Roberson, diz que a designação não é apenas um rótulo, mas "uma ferramenta poderosa que bloqueia seus ativos, proíbe pessoas sujeitas à justiça dos Estados Unidos de realizar negócios com eles e tipifica como crime o ato de lhes prestar apoio".
A publicação foi feita na terça-feira (21), um dia depois de um dos principais jornais do país, o Wall Street Journal, comparar o Primeiro Comando da Capital (PCC) à máfia italiana e descrever a operação da organização como um modelo operacional eficiente, comparável ao de grandes corporações multinacionais. Mas rumores de que os governo de Donald Trump poderia classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras começaram a circular em março e acenderam um alerta no governo federal.
O movimento encabeçado pelo Departamento de Estado é visto com preocupação pelo governo do Brasil, que receia interferências externas e até ações militares dos Estados Unidos, nos moldes do que aconteceu na Venezuela. Já que na prática, essa classificação poderia abrir caminho para ações mais duras dos EUA, inclusive com possibilidade de operações extraterritoriais contra integrantes da facção.
"A designação de cartéis como organizações terroristas estrangeiras auxilia as autoridades a romper suas redes financeiras e envia uma mensagem clara: os EUA não toleram o crime transnacional violento; incentivamos nossos parceiros em todo o mundo a adotar medidas semelhantes", diz a porta-voz em outro trecho da mensagem.
Em reuniões bilaterais, em maio de 2025, com representantes do governo Trump, membros do Ministério da Justiça, então comandado por Ricardo Lewandowski, explicaram aos homólogos que o Brasil não pode classificar o PCC e CV como terroristas.
Na ocasião, técnicos do Ministério explicaram que a legislação brasileira estabelece uma abordagem diferente para considerar uma organização criminosa como terrorista. A lei brasileira define terrorismo como "prática por um ou mais indivíduos dos atos previstos neste artigo, por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".
O assunto, no entanto, virou uma pauta da oposição do governo, com Flávio e Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, trabalhando por meses para que o governo de Trump adotasse a designação, segundo reportagem publicada pelo jornal norte-americano The New York Times na época em que os rumores passaram a circular na mídia brasileira.









