Artista palestina homenageia Macklemore em ruínas de Gaza
Rapper expulso de turnê com Ed Sheeran por pedir 'Palestina Livre' inspira Anne Redwan, que usa a arte como resistência e pinta em meio à fensiva israelense
Sofia Pilagallo
Artista palestina Anne Redwan em frente ao mural que pintou em homenagem ao rapper Macklemore, sobre os escombros na Cidade de Gaza | Foto: Arquivo pessoal
Anne Redwan, uma artista palestina de 26 anos, deu um pouco de cor à paisagem cinzenta da Cidade de Gaza, marcada pelos bombardeios israelenses. Sobre uma placa de concreto entre os escombros, ela e o artista Qusai al-Helo pintaram um mural em homenagem ao rapper Macklemore.
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"Tenho profunda admiração por Macklemore por ter tomado uma posição e somado sua voz à nossa", afirmou. "Isso exige força e coragem, e nem todos têm coragem de fazer o mesmo. Ele merece apoio, em vez de ser excluído."
O mural de Macklemore foi o primeiro trabalho de Anne pintado sobre um escombro. Depois, ela também homenageou o vocalista da banda de pop rock Imagine Dragons, Dan Reynolds, após o cantor demonstrar apoio aos palestinos durante um show em Milão, na Itália, em maio de 2025.
Anne conta que pinta desde criança e que a arte sempre fez parte de sua vida. A guerra, porém, mudou sua relação com a pintura: antes uma forma livre de expressão, ela passou a ser também uma maneira de mostrar ao mundo o sofrimento da população de Gaza.
"Cresci em meio a anos de guerra e ao bloqueio de Gaza e sempre encontrei no desenho meu único refúgio da dura realidade em que vivemos. Antes da guerra, eu desenhava simplesmente como uma forma livre de expressão artística. Mas a guerra mudou minha maneira de pensar", relata.
"Agora sinto a necessidade de expressar, por meio do meu pincel, o sofrimento da população de Gaza. Sinto que é minha responsabilidade, meu dever para com meu povo, transmitir esse sofrimento ao mundo", acrescenta.
Anne também cria trabalhos mais livres, como mandalas, mas parte de sua produção passou a incorporar símbolos e personagens ligados à Palestina. Em suas pinturas, aparecem a melancia, a oliveira, a keffiyeh, Jerusalém e o mar — elementos usados por ela para falar de identidade, pertencimento e resistência.
Artista palestina Anne Redwan pinta uma mandala com as cores da bandeira palestina em um muro na Cidade de Gaza | Foto: Arquivo pessoal
Algumas obras partem de histórias concretas da guerra. Em uma delas, Anne homenageia a jornalista palestina Bisan Owda, que ganhou projeção internacional ao documentar em vídeos o cotidiano da população de Gaza e continuou trabalhando em meio à fome, à destruição e aos deslocamentos.
Em pintura de Anne Redwan, a jornalista palestina Bisan Owda ergue um megafone e a bandeira da Palestina em meio às chamas | Foto: Arquivo pessoal
Em outra obra, Anne parte de uma fotografia feita pelo fotojornalista palestino Dahman Iyad. A imagem mostra uma criança sobre as pedras, diante do mar, sem as mãos e com uma estrutura metálica na perna direita — um retrato das marcas físicas deixadas pela guerra em crianças palestinas.
À esquerda, a fotografia de Dehman Iyad que inspirou Anne Redwan; à direita, a pintura da artista baseada na imagem de uma criança sem as mãos sobre os escombros em Gaza | Foto: Arquivo pessoal
As mulheres também estão presentes em "Eyes That Don’t Sleep"("Olhos que não dormem"). Na pintura, uma mulher aparece diante das ruínas, com o lenço e a roupa marcados por manchas vermelhas que lembram sangue. Segundo Anne, a obra representa a força e a resistência das mulheres palestinas e busca dar visibilidade às suas experiências durante a guerra.
Em 'Eyes That Don’t Sleep' ('Olhos que não dormem'), a artista palestina Anne Redwan retrata uma mulher diante das ruínas, com manchas vermelhas que lembram sangue no lenço e na roupa | Foto: Arquivo pessoal
Criação em meio ao perigo
Pintar entre os escombros também significa se expor aos riscos da guerra. Anne conta que, ao trabalhar nas ruas da Cidade de Gaza, permanece vulnerável a novos ataques, enquanto convive com cenas de destruição que alimentam sua produção artística.
Apesar do perigo, Anne escolhe esses espaços para suas pinturas. Ela espera provocar alguma mudança, ainda que pequena, na rotina de quem passa pelas ruas. Para a artista, ocupar as ruínas com arte também é uma forma de resistir à ofensiva israelense.
"Ainda não há cessar-fogo. Todos os dias, mais pessoas são mortas, mais crianças ficam órfãs e a destruição aumenta. Mesmo quando estou entre os escombros para pintar, continuo exposta ao perigo. Cada novo acontecimento me leva a pintar com ainda mais força", diz Anne.
"Quase não restou nada em Gaza além de prédios destruídos. Por isso, escolhi esses lugares para minhas pinturas. Queria provocar alguma mudança, ainda que pequena, na vida de quem passa pelas ruas e mostrar que, apesar de toda a destruição, ainda há artistas em Gaza capazes de criar arte e esperança em meio à dor", acrescenta.
Anne integra um movimento mais amplo de artistas palestinos que pintam sobre ruínas. Em maio, os artistas palestinos Ubay al-Qurshali e Ahmed al-Halabi fizeram um mural de Lamine Yamal nos escombros do campo de refugiados de al-Shati, na Cidade de Gaza, após o jogador do Barcelona aparecer com uma bandeira palestina na comemoração do título espanhol.
Artistas palestinos posam diante de um mural em homenagem a Lamine Yamal pintado sobre ruínas no campo de refugiados de al-Shati, na Cidade de Gaza | Foto: Reprodução/Instagram/@obaykareem195 - 14.05.2026
Outras pessoas que manifestaram apoio aos palestinos também viraram tema de murais em Gaza. Entre elas está o ativista brasileiro Thiago Ávila, também retratado por Ubay al-Qurshali, após participar da Global Sumud Flotilla, iniciativa que tentou levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Ávila chegou a ser detido após a embarcação ser interceptada por forças israelenses.
Artista palestino Ubay al-Qurshali posa diante de mural em homenagem ao ativista brasileiro Thiago Ávila, na Cidade de Gaza | Foto: Reprodução/Instagram/@obaykareem195 - 12.05.2026
Há também iniciativas coletivas de produção artística em meio à destruição. Uma delas é a Breathe and Paint, criada pela artista palestina Farah Ajjour. O projeto reúne jovens que usam os escombros da Cidade de Gaza como tela para pinturas sobre a vida durante a guerra e a esperança de reconstrução.
Além dos riscos de trabalhar entre os escombros, Anne enfrenta a falta de materiais artísticos. Ela conta que tem dificuldade para encontrar em Gaza os itens de que precisa e espera receber apoio para continuar pintando. A artista sonha em levar seu trabalho para fora do território palestino: um dia, espera ir a Londres ou à Itália e expor suas obras nesses lugares, ainda que por pouco tempo.
Gaza em ruínas
A dimensão da destruição ajuda a explicar a paisagem que serve de cenário para os trabalhos de Anne. Segundo a ONU, 82% das estruturas da Faixa de Gaza estavam danificadas em junho de 2026. Mais de 134 mil haviam sido completamente destruídas, e a estimativa era de mais de 328 mil unidades habitacionais afetadas.
Uma avaliação da ONU, do Banco Mundial e da União Europeia estimou em US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 370 bilhões) o custo da reconstrução de Gaza na próxima década. Mais de 371 mil moradias foram destruídas ou danificadas, mais da metade dos hospitais estava inoperante e quase todas as escolas sofreram algum tipo de dano.
Crianças palestinas jogam vôlei em meio a escombros de prédios danificados pela guerra, na cidade de Gaza | Foto: Dawoud Abu Alkas/Reuters - 15.09.2026
A ofensiva israelense também deixou dezenas de milhares de mortos. Até setembro, mais de 73 mil palestinos haviam morrido desde o início da guerra, segundo autoridades de saúde de Gaza citadas pela Reuters. Mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, a ONU contabilizou 1.381 mortos e 4.757 feridos até 16 de setembro deste ano.
A atuação de Israel em Gaza tem ampliado o isolamento diplomático do governo de Benjamin Netanyahu. Nesta quinta-feira (24), o primeiro-ministro foi vaiado na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e delegações de vários países, incluindo o Brasil, deixaram o plenário em protesto. Ele rejeitou as acusações de genocídio, que chamou de "a maior mentira do século".
Uma comissão independente da ONU afirmou que Israel comete genocídio em Gaza. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já usou o termo outras vezes, voltou a empregá-lo nesta semana na ONU, ao falar em "genocídio praticado pelo governo Netanyahu". Israel rejeita a classificação e afirma que suas operações têm como alvo o Hamas.
Artista palestina homenageia Macklemore em ruínas de Gaza Rapper expulso de turnê com Ed Sheeran por pedir 'Palestina Livre' inspira Anne Redwan, que usa a arte como resistência e pinta em meio à fensiva israelenseMundo2026-09-26T09:00:00.000ZAnne Redwan, uma artista palestina de 26 anos, deu um pouco de cor à paisagem cinzenta da Cidade de Gaza, marcada pelos bombardeios israelenses. Sobre uma placa de concreto entre os escombros, ela e o artista Qusai al-Helo pintaram um mural em homenagem ao rapper Macklemore. Em entrevista ao SBT News, Anne contou que o mural é uma forma de agradecer ao músico por usar sua voz em apoio aos palestinos. nos Estados Unidos e, depois, foi retirado dos shows seguintes. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. "Tenho profunda admiração por Macklemore por ter tomado uma posição e somado sua voz à nossa", afirmou. "Isso exige força e coragem, e nem todos têm coragem de fazer o mesmo. Ele merece apoio, em vez de ser excluído." O mural de Macklemore foi o primeiro trabalho de Anne pintado sobre um escombro. Depois, ela também homenageou o vocalista da banda de pop rock Imagine Dragons, Dan Reynolds, após o cantor demonstrar apoio aos palestinos durante um show em Milão, na Itália, em maio de 2025. Anne conta que pinta desde criança e que a arte sempre fez parte de sua vida. A guerra, porém, mudou sua relação com a pintura: antes uma forma livre de expressão, ela passou a ser também uma maneira de mostrar ao mundo o sofrimento da população de Gaza. "Cresci em meio a anos de guerra e ao bloqueio de Gaza e sempre encontrei no desenho meu único refúgio da dura realidade em que vivemos. Antes da guerra, eu desenhava simplesmente como uma forma livre de expressão artística. Mas a guerra mudou minha maneira de pensar", relata. "Agora sinto a necessidade de expressar, por meio do meu pincel, o sofrimento da população de Gaza. Sinto que é minha responsabilidade, meu dever para com meu povo, transmitir esse sofrimento ao mundo", acrescenta. Anne também cria trabalhos mais livres, como mandalas, mas parte de sua produção passou a incorporar símbolos e personagens ligados à Palestina. Em suas pinturas, aparecem a melancia, a oliveira, a keffiyeh, Jerusalém e o mar — elementos usados por ela para falar de identidade, pertencimento e resistência. Algumas obras partem de histórias concretas da guerra. Em uma delas, Anne homenageia a jornalista palestina Bisan Owda, que ganhou projeção internacional ao documentar em vídeos o cotidiano da população de Gaza e continuou trabalhando em meio à fome, à destruição e aos deslocamentos. Em outra obra, Anne parte de uma fotografia feita pelo fotojornalista palestino Dahman Iyad. A imagem mostra uma criança sobre as pedras, diante do mar, sem as mãos e com uma estrutura metálica na perna direita — um retrato das marcas físicas deixadas pela guerra em crianças palestinas. As mulheres também estão presentes em "Eyes That Don’t Sleep" ("Olhos que não dormem"). Na pintura, uma mulher aparece diante das ruínas, com o lenço e a roupa marcados por manchas vermelhas que lembram sangue. Segundo Anne, a obra representa a força e a resistência das mulheres palestinas e busca dar visibilidade às suas experiências durante a guerra. Criação em meio ao perigo Pintar entre os escombros também significa se expor aos riscos da guerra. Anne conta que, ao trabalhar nas ruas da Cidade de Gaza, permanece vulnerável a novos ataques, enquanto convive com cenas de destruição que alimentam sua produção artística. Apesar do perigo, Anne escolhe esses espaços para suas pinturas. Ela espera provocar alguma mudança, ainda que pequena, na rotina de quem passa pelas ruas. Para a artista, ocupar as ruínas com arte também é uma forma de resistir à ofensiva israelense. "Ainda não há cessar-fogo. Todos os dias, mais pessoas são mortas, mais crianças ficam órfãs e a destruição aumenta. Mesmo quando estou entre os escombros para pintar, continuo exposta ao perigo. Cada novo acontecimento me leva a pintar com ainda mais força", diz Anne. "Quase não restou nada em Gaza além de prédios destruídos. Por isso, escolhi esses lugares para minhas pinturas. Queria provocar alguma mudança, ainda que pequena, na vida de quem passa pelas ruas e mostrar que, apesar de toda a destruição, ainda há artistas em Gaza capazes de criar arte e esperança em meio à dor", acrescenta. Anne integra um movimento mais amplo de artistas palestinos que pintam sobre ruínas. Em maio, os artistas palestinos Ubay al-Qurshali e Ahmed al-Halabi fizeram um mural de Lamine Yamal nos escombros do campo de refugiados de al-Shati, na Cidade de Gaza, após o jogador do Barcelona aparecer com uma bandeira palestina na comemoração do título espanhol. Outras pessoas que manifestaram apoio aos palestinos também viraram tema de murais em Gaza. Entre elas está o ativista brasileiro Thiago Ávila, também retratado por Ubay al-Qurshali, após participar da Global Sumud Flotilla, iniciativa que tentou levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Ávila chegou a ser detido após a embarcação ser interceptada por forças israelenses. Há também iniciativas coletivas de produção artística em meio à destruição. Uma delas é a Breathe and Paint, criada pela artista palestina Farah Ajjour. O projeto reúne jovens que usam os escombros da Cidade de Gaza como tela para pinturas sobre a vida durante a guerra e a esperança de reconstrução. Além dos riscos de trabalhar entre os escombros, Anne enfrenta a falta de materiais artísticos. Ela conta que tem dificuldade para encontrar em Gaza os itens de que precisa e espera receber apoio para continuar pintando. A artista sonha em levar seu trabalho para fora do território palestino: um dia, espera ir a Londres ou à Itália e expor suas obras nesses lugares, ainda que por pouco tempo. Gaza em ruínas A dimensão da destruição ajuda a explicar a paisagem que serve de cenário para os trabalhos de Anne. Segundo a ONU, 82% das estruturas da Faixa de Gaza estavam danificadas em junho de 2026. Mais de 134 mil haviam sido completamente destruídas, e a estimativa era de mais de 328 mil unidades habitacionais afetadas. Uma avaliação da ONU, do Banco Mundial e da União Europeia estimou em US$ 71,4 bilhões (cerca de R$ 370 bilhões) o custo da reconstrução de Gaza na próxima década. Mais de 371 mil moradias foram destruídas ou danificadas, mais da metade dos hospitais estava inoperante e quase todas as escolas sofreram algum tipo de dano. A ofensiva israelense também deixou dezenas de milhares de mortos. Até setembro, mais de 73 mil palestinos haviam morrido desde o início da guerra, segundo autoridades de saúde de Gaza citadas pela Reuters. Mesmo após o cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, a ONU contabilizou 1.381 mortos e 4.757 feridos até 16 de setembro deste ano. A atuação de Israel em Gaza tem ampliado o isolamento diplomático do governo de Benjamin Netanyahu. Nesta quinta-feira (24), o , em Nova York, e delegações de vários países, incluindo o Brasil, deixaram o plenário em protesto. Ele rejeitou as acusações de genocídio, que chamou de "a maior mentira do século". Uma comissão independente da ONU afirmou que Israel comete genocídio em Gaza. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já usou o termo outras vezes, voltou a empregá-lo nesta semana na ONU, ao falar em "genocídio praticado pelo governo Netanyahu". Israel rejeita a classificação e afirma que suas operações têm como alvo o Hamas.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/mundo/artista-palestina-homenageia-macklemore-em-ruinas-de-gaza