A saída dos Emirados Árabes da Opep poderia fortalecer Trump? Entenda
No longo prazo, presidente dos EUA capitalizaria uma eventual queda da inflação como mérito de seu governo

Sofia Pilagallo
Os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira (28) que deixarão, a partir de 1º de maio, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a Opep+, aliança que reúne os 12 membros da organização. Segundo especialistas ouvidos pelo SBT News, a decisão poderia fortalecer, a longo prazo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Para entender os possíveis impactos da saída, é importante compreender o papel da Opep e sua influência sobre o mercado global de petróleo. Fundada em 1960, a organização funciona como um cartel internacional criado para coordenar políticas petrolíferas entre seus membros, regular a produção e buscar estabilidade nos preços da commodity.
A Opep reúne 12 países membros, todos produtores de petróleo. Para influenciar o preço da matéria-prima, esses países adotam um sistema de cotas de produção, restringindo a oferta a níveis inferiores à sua capacidade produtiva. Com menor volume disponível no mercado, o preço global da commodity tende a subir.
De acordo com o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a saída dos Emirados Árabes da Opep não foi uma decisão repentina e vinha sendo discutida desde 2021. O principal motivo estaria justamente na insatisfação do país com as limitações impostas pelo sistema de cotas.
Ao lado da Árabia Saudita, os Emirados Árabes estão entre os poucos membros com capacidade ociosa relevante para elevar a produção, mas vinham enfrentando resistência, especialmente dos sauditas, para obter uma fatia maior nas metas do cartel. O país produz cerca de 3,5 milhões de barris por dia, mas teria potencial para alcançar entre 5 milhões e 6 milhões diários até 2027.
Para Pires, esse aumento de cerca de 2 milhões de barris por dia teria potencial para aliviar parcialmente os preços internacionais, hoje acima de US$ 100 (cerca de R$ 500) por barril. Em um cenário de desaceleração da inflação global e redução da pressão sobre juros, a medida também poderia, futuramente, conter reajustes de combustíveis no Brasil e em outros países.
"No curto prazo, enquanto houver a guerra, a saída dos Emirados Árabes da Opep não afeta o preço do petróleo. Isso porque é preciso que a commodity passe pelo Estreito de Ormuz. Como a rota marítima está fechada, a produção dos Emirados Árabes não pode chegar no mercado", afirma Pires.
"Em 2027, já que em 2026 dificilmente haveria tempo hábil, esse aumento de produção poderia ajudar a reduzir a inflação global, que hoje pressiona juros e compromete o crescimento econômico, inclusive no Brasil", acrescenta o economista, ressaltando que Trump poderia se agarrar a essa narrativa para se fortalecer politicamente.
A professora doutora de relações internacionais Ana Carolina Marson também defende que a saída dos Emirados Árabes da Opep poderia fortalecer a narrativa política de Trump. Isso porque o episódio reforçaria discursos favoráveis ao aumento da produção doméstica de energia nos EUA e críticas a alianças multilaterais e cartéis internacionais.
Trump adota uma postura crítica em relação a organizações internacionais e ao multilateralismo, baseada no lema "America First" ("América Primeiro"), que prioriza a soberania nacional e os interesses bilaterais em detrimento de acordos coletivos. Nesse sentido, a fragmentação da Opep causada pela saída de um de seus membros tende a alimentar esse discurso.
Ana Carolina ressalta ainda que a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep, por si só, não teria um impacto automático e duradouro sobre o preço do petróleo. Como o país é um importante produtor global, a decisão tende a gerar, inicialmente, um movimento de alta e maior volatilidade nos preços, sobretudo em razão da incerteza no mercado internacional.
No curto e médio prazo, porém, o efeito poderia ser inverso. Alinhada com a análise de Adriano Pires, Ana Carolina acredita que, caso os Emirados passassem a produzir acima das cotas antes definidas pela Opep, haveria aumento da oferta global de petróleo, o que poderia pressionar os preços para baixo.
"Esse possível recuo nos preços, no entanto, dependeria de um cenário global mais estável. Com a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Hormuz, principal rota de escoamento de petróleo da região, a tendência de alta permanece, independentemente de uma eventual ampliação da produção emiradense", diz.
E o impacto no bolso dos brasileiros?
Para Ana Carolina, a saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep também poderia gerar reflexos no Brasil, especialmente por meio dos preços dos combustíveis e da inflação. Caso a decisão provocasse uma alta adicional no petróleo Brent (o principal referencial de preços no mercado internacional) no curto prazo, os efeitos seriam sentidos no mercado doméstico.
Como a matriz logística brasileira é fortemente baseada no transporte rodoviário, qualquer encarecimento do diesel tende a pressionar custos em diversos setores da economia — o aumento no frete acaba sendo repassado ao consumidor final, elevando os preços. Em relação à Petrobras, o impacto imediato seria mais limitado.
"Desde 2023, a companhia adota uma política de preços menos automática, utilizando margens operacionais e estoques para suavizar repasses abruptos ao consumidor", explica Ana Carolina. "Ainda assim, essa estratégia não elimina completamente os efeitos das oscilações externas, especialmente em um cenário de forte tensão geopolítica."









