Justiça

Responsabilidade climática: governos e empresas condenam a Amazônia e sua gente

Falta de compromisso dos governos e da indústria agrava a crise ambiental na Amazônia e coloca em risco populações vulneráveis

Avatar de Ruy Marcelo
Ruy Marcelo
O colapso ambiental avança: povos indígenas e a floresta em risco iminente | Cido Coelho/SBT News/Imagem gerada por IA

O colapso ambiental avança: povos indígenas e a floresta em risco iminente | Cido Coelho/SBT News/Imagem gerada por IA

*Integridade e Desenvolvimento é uma coluna do Centro de Estudos em Integridade e Desenvolvimento (CEID) do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC). Os artigos têm publicação semanal.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

Nada de novo em prol do clima. Governos e empresas seguem sem assumir a responsabilidade pela crise ambiental, comprometendo a Amazônia e o planeta. Mais uma COP, a 29ª, com resultado insatisfatório e incerto. O saldo foi o subfinanciamento de ações para o enfrentamento da crise climática: da proposta inicial de US$ 1,3 trilhão até 2035, restaram apenas US$ 300 bilhões por ano, ou seja, cerca de 23%.

Essa brusca redução vem acompanhada da falta de definição de mecanismos e estratégias para garantir o repasse efetivo dos recursos, bem como do compromisso fundamental dos países desenvolvidos e das indústrias transnacionais com a descarbonização de sua produção no curto prazo. Em vez disso, apostam na panaceia falaciosa do mercado de crédito de carbono.

No país, a indústria permanece dependente do governo. A CNI apresentou um estudo na COP29, no qual faz recomendações “ao Brasil”. Ficou claro que a indústria nacional necessita de fomento do Estado Brasileiro e da cooperação internacional para acelerar a transição e superar o alto custo da tecnologia de baixo carbono.

Logo, não há interesse do mercado, no curto prazo, em viabilizar seu dever jurídico de neutralizar as emissões por meio de licenciamento e estudo de impacto ambiental, conforme determina a norma do art. 225 da Constituição.

Antes mesmo do início da COP, já havia fundada suspeita de parcialidade do anfitrião em favor das empresas petrolíferas. As delegações de representantes e lobistas de mercado ofuscaram as de governos e ativistas do clima. Durante o evento, houve vários protestos de segmentos sociais.

Destaque para a ONG Engajamundo, que concedeu o troféu “cara de pau” ao governador do Pará, estado que sediará a COP30. Enquanto ele discursava em Baku sobre iniciativas de preservação, a região de Santarém ardia – e ainda arde – em chamas, com índices alarmantes de fuligem que se espalham por boa parte da região, afetando até mesmo a capital amazonense, que apresenta níveis críticos de poluição atmosférica.

O planeta aquece, e as elites – econômica e política – brincam com fogo, literalmente. Os impactos são cada vez mais evidentes. O episódio mais recente, na Espanha, mostra que não há salvo-conduto no hemisfério norte. Aqui, no Amazonas, além da ameaça da poluição atmosférica, os prejuízos econômicos diretos da seca extrema dos rios nos últimos anos começam a ganhar cifras preocupantes.

Um estudo recente da CIEAM aponta um prejuízo de R$ 1,3 bilhão para assegurar o transporte de cargas no período de estiagem severa da bacia amazônica.

Nas estiagens recordes de 2023 e 2024, contam-se centenas de comunidades afetadas pelo isolamento, desabastecimento, falta de água, desassistência médica, sem ações eficazes de prevenção de desastres e de adaptação climática.

Relatório da britânica Aon estima que o Brasil acumula danos da ordem de US$ 6,4 bilhões pelos desastres ocorridos no país, apenas no período de janeiro a setembro de 2024. Embora o STF, na pessoa do ministro Flavio Dino (ADPF 743), tenha determinado o fortalecimento do combate à epidemia de fumaça, Maranhão e Pará, em novembro passado, ainda persistiam os focos de incêndio, e uma densa pluma de fumaça continua recobrindo frequentemente toda a porção central e oeste da Amazônia. Para os amazonenses, as consequências desses eventos são desastrosas, seja pela privação do direito fundamental ao ar puro, seja pelo adoecimento da população, sobretudo crianças e idosos.

Que ninguém alegue ignorância das graves consequências dessa postura leniente, moralmente corrupta e de profunda injustiça socioambiental, cujas repercussões catastróficas já são evidentes.

O bioma da Floresta Amazônica está sentenciado e condenado à desertificação, com a extinção progressiva da biodiversidade e dos processos ecológicos vitais, levando milhares de amazônidas à condição de refugiados climáticos e determinando o fim do clima temperado e do solo fértil em toda a América do Sul.

Ao fim e ao cabo, a ameaça não se limita apenas à agricultura e às atividades econômicas, mas se estende também às condições gerais para uma qualidade de vida saudável das presentes e futuras gerações.

O ponto de não retorno para a falência do bioma está próximo – se é que já não foi ultrapassado –, pois o problema não se resume apenas ao desmatamento local. O aquecimento global, impulsionado pela continuidade e progressão das emissões de gases de efeito estufa, impõe impactos devastadores à saúde da floresta e de sua gente.

Outro fenômeno que compromete os serviços ecossistêmicos e os torna ainda mais vulneráveis ao calor pode ser percebido nos rios amazônicos, que permanecem em seca severa, sem que o regime de cheia consiga restaurar os níveis minimamente históricos, dado que as chuvas estão abaixo da média.

O colapso atmosférico das fumaças represadas em bolhas de calor é um sinal assustador no centro da Amazônia. Antes, mesmo em maior quantidade, as fumaças eram rapidamente dissipadas ou transportadas para as regiões Sul e Sudeste; hoje, mesmo após fortes tempestades, é impossível ver o horizonte limpo em Manaus, que permanece sob um céu cinzento, prenunciando um futuro tenebroso, caso nada seja feito com urgência.

Quando ampliamos o olhar para a população brasileira diante da destruição da Floresta Amazônica, destacam-se como os mais prejudicados e extremamente vulneráveis os povos tradicionais amazônicos – comunidades indígenas, ribeirinhas e extrativistas. Seu meio de vida são os rios e matas, que estão sendo profundamente afetados. A infraestrutura básica nunca chegou até eles. Convivem com lixões e esgoto a céu aberto em cidades e vilarejos. Os piores índices de pobreza, desenvolvimento humano e falta de serviços essenciais estão concentrados nessa região.

Se não bastassem os desafios naturais, esses povos também enfrentam, há décadas, a violência de grileiros, garimpeiros e madeireiros. Trata-se de uma ingratidão sem precedentes, pois são eles os verdadeiros guardiões da floresta. A Amazônia sofre ainda com a ausência de policiamento suficiente para proteger sua imensa fronteira, que é rota do tráfico de drogas e crimes ambientais.

É imensa a responsabilidade dos governos e do mercado. O tempo está se esgotando, e muitos impactos já não podem sequer ser mitigados. As consequências desse descaso pesarão na consciência desses agentes, e o mundo se verá cada vez mais inóspito, sob uma natureza colapsada e em fúria.

*Integridade e Desenvolvimento é uma coluna do Centro de Estudos em Integridade e Desenvolvimento (CEID) do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC). Os artigos têm publicação semanal.

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: Palmeiras domina retrospecto recente contra o Atlético

Palmeiras domina retrospecto recente contra o Atlético

Imagem da notícia: True Crime debate o drama dos desaparecimentos no Brasil

True Crime debate o drama dos desaparecimentos no Brasil

Imagem da notícia: Autismo em adultos: por que os diagnósticos estão aumentando

Autismo em adultos: por que os diagnósticos estão aumentando

Imagem da notícia: Polícia identifica suspeito de atropelamento em Berlim

Polícia identifica suspeito de atropelamento em Berlim

Imagem da notícia: Palmeiras domina retrospecto recente contra o Atlético

Palmeiras domina retrospecto recente contra o Atlético

Imagem da notícia: True Crime debate o drama dos desaparecimentos no Brasil

True Crime debate o drama dos desaparecimentos no Brasil

Imagem da notícia: Autismo em adultos: por que os diagnósticos estão aumentando

Autismo em adultos: por que os diagnósticos estão aumentando

Imagem da notícia: Polícia identifica suspeito de atropelamento em Berlim

Polícia identifica suspeito de atropelamento em Berlim

Últimas notícias

IA de Bolsonaro pode gerar punições? Especialista avalia

Advogada afirma que Justiça Eleitoral poderá analisar o contexto, autoria e impacto do conteúdo antes de decidir por sanções

Dinheiro esquecido: veja como consultar valores no BC

Maioria dos contemplados tem entre R$ 10 e R$ 100 disponíveis para resgate

O terror das mulheres afegãs sob o governo Talibã

Série de restrições retira direitos fundamentais femininos, ampliando a repressão no Afeganistão

Caiado oficializa candidatura à Presidência neste domingo

Ex-governador de Goiás terá Gilberto Kassab como vice, numa chapa "puro-sangue" do PSD

Escassez de míssil explica EUA adiar ataque ao Irã, diz NYT

Após alertas sobre a falta de interceptores, pela primeira vez em duas semanas, os Estados Unidos não anunciaram ações contra o Oriente Médio neste sábado (25)

Zelensky diz que Rússia teve 225 mil baixas em 7 meses

Presidente da Ucrânia afirma que Moscou prepara nova mobilização, amplia cooperação com a Coreia do Norte e pede mais pressão internacional pela paz