Eleições

Flávio x Lula: o que defendem para meio ambiente e energia

SBT News detalha, neste 2º turno da campanha presidencial, os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Lula

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Emanuelle Menezes
Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) | Divulgação/Charles Vieira e Divulgação/Ricardo Stuckert

Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) | Divulgação/Charles Vieira e Divulgação/Ricardo Stuckert

O senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputam o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, apresentam propostas para combater o desmatamento, enfrentar as mudanças climáticas e ampliar a oferta de energia no Brasil.

Os dois candidatos defendem a preservação das florestas e o aproveitamento econômico dos recursos naturais, mas apresentam diferenças nos instrumentos de fiscalização, nas metas ambientais e na participação do Estado nos investimentos.

Veja as propostas dos candidatos para outros temas:

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O SBT News comparou os programas de governo para o mandato de 2027 a 2030 e reuniu posicionamentos públicos sobre os principais temas ambientais e energéticos.

O que dizem os planos de governo

Desmatamento e proteção das florestas

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Zerar o desmatamento ilegal até 2029.
  • Ampliar o uso de satélites, inteligência artificial e bancos de dados para identificar desmatamento, queimadas ilegais e grilagem de terras.
  • Fortalecer a fiscalização contra crimes ambientais sem criar novas obrigações para produtores rurais que cumprem a legislação.

O que propõe Lula (PT):

  • Alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, combinando a redução da derrubada de vegetação com a recuperação de áreas degradadas.
  • Fortalecer a fiscalização ambiental, o monitoramento por satélites e o combate a crimes ambientais.
  • Ampliar a destinação de terras públicas para unidades de conservação, territórios indígenas e quilombolas e assentamentos.

Amazônia e desenvolvimento sustentável

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Estimular a bioeconomia, com atividades que aproveitem a biodiversidade para produzir medicamentos, cosméticos e novos materiais.
  • Ampliar o pagamento por serviços ambientais a produtores e comunidades que preservem a vegetação nativa.
  • Reforçar a presença do Estado na Amazônia e a cooperação com países vizinhos contra crimes ambientais transfronteiriços.

O que propõe Lula (PT):

  • Ampliar os instrumentos de financiamento à conservação, incluindo o Fundo Amazônia e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
  • Incentivar a restauração florestal, o pagamento por serviços ambientais e atividades econômicas sustentáveis.
  • Fortalecer a regularização fundiária e a proteção de territórios indígenas e comunidades tradicionais.

Mudanças climáticas e prevenção de desastres

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Consolidar o mercado regulado de carbono e ampliar oportunidades econômicas ligadas à conservação ambiental.
  • Estimular investimentos em tecnologias sustentáveis, incluindo biocombustíveis e projetos de redução de emissões.
  • Ampliar obras de drenagem, reservatórios e sistemas de monitoramento para reduzir os impactos de secas e enchentes.

O que propõe Lula (PT):

  • Cumprir a meta brasileira de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, em comparação com 2005.
  • Ampliar o financiamento climático por meio do Fundo Clima, Eco Invest e outros instrumentos de investimento sustentável.
  • Fortalecer planos de adaptação às mudanças climáticas e investir na prevenção de enchentes, secas e deslizamentos.

Licenciamento ambiental

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Tornar o licenciamento ambiental mais rápido, com regras claras e prazos definidos para análise de projetos.
  • Estabelecer critérios técnicos e maior previsibilidade para investimentos em infraestrutura, mineração e indústria.
  • Reduzir entraves burocráticos, mantendo, segundo o programa, as exigências de responsabilidade ambiental.

O que propõe Lula (PT):

  • Fortalecer a fiscalização e a aplicação da legislação ambiental, incluindo o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica.
  • Ampliar o uso de tecnologia para monitorar atividades econômicas e identificar irregularidades ambientais.
  • Estimular mecanismos de rastreabilidade e verificação ambiental nas cadeias produtivas.

Petróleo, gás e transição energética

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Ampliar a exploração e a infraestrutura de petróleo e gás natural, incluindo a possibilidade de extração de gás não convencional por fraturamento hidráulico, conhecido como fracking.
  • Expandir a rede de transporte de gás natural e modernizar o refino para aumentar o aproveitamento da produção nacional.
  • Incentivar biocombustíveis, energia solar, eólica, hidrogênio verde e investimentos privados em tecnologias de transição energética.

O que propõe Lula (PT):

  • Ampliar a participação das fontes renováveis e acelerar a substituição progressiva de combustíveis fósseis por alternativas de menor emissão de carbono.
  • Manter investimentos em petróleo e gás natural para garantir segurança energética durante a transição.
  • Expandir a produção de biocombustíveis, hidrogênio de baixa emissão e combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo.

Conta de luz e fornecimento de energia

O que propõe Flávio Bolsonaro (PL):

  • Reduzir gradualmente encargos e subsídios embutidos na conta de luz, mantendo a tarifa social.
  • Ampliar a infraestrutura de transmissão e armazenamento de energia, incluindo baterias de grande porte.
  • Reduzir tributos sobre energia e combustíveis para diminuir custos de famílias e empresas.

O que propõe Lula (PT):

  • Ampliar investimentos em geração, transmissão e armazenamento de energia elétrica.
  • Expandir a participação das fontes renováveis, conciliando segurança do fornecimento e preços acessíveis.
  • Combater a pobreza energética, ampliando o acesso à eletricidade e a tecnologias de menor emissão.

O que disseram durante a campanha

Além das propostas oficiais, os candidatos e suas equipes se posicionaram sobre medidas ambientais e energéticas em entrevistas e declarações públicas.

Margem Equatorial

Flávio Bolsonaro e Lula defendem a exploração de petróleo na Margem Equatorial, região que se estende pelo litoral Norte e Nordeste do Brasil e é considerada uma das principais novas fronteiras petrolíferas do país.

Em setembro, Lula afirmou que a região pode representar um "novo pré-sal" e defendeu o uso dos recursos obtidos com o petróleo para financiar a transição energética, a educação e a formação profissional. Durante ato de campanha em Belém (PA), no dia 28, o presidente também afirmou que a exploração seria realizada com cuidados ambientais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, prometeu acelerar a exploração da Margem Equatorial caso seja eleito. Em declaração feita em 30 de agosto, o senador defendeu maior segurança jurídica para atrair investimentos e apontou a produção de petróleo como uma possível fonte de aumento da arrecadação federal.

Terras raras

Flávio Bolsonaro e Lula defendem ampliar a exploração de minerais críticos e terras raras. O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, recursos utilizados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e tecnologias de defesa. Os candidatos, porém, apresentam prioridades diferentes para o desenvolvimento do setor.

Em 16 de setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê incentivos para pesquisa, extração e processamento desses recursos no Brasil. Durante a cerimônia, o presidente defendeu que o país deixe de exportar apenas matérias-primas e passe a produzir bens de maior valor agregado. "Nossa soberania não está à venda", afirmou.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, prometeu estabelecer parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos para a exploração desses minerais, caso seja eleito. Em maio, após encontro com o presidente americano Donald Trump, o senador defendeu investimentos conjuntos e a industrialização do setor nos dois países. Em março, já havia apresentado o Brasil como uma alternativa à dependência americana da China no fornecimento de terras raras.

Mercado de carbono

O governo Lula sancionou a legislação que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), responsável pela estruturação do mercado regulado de carbono no Brasil.

Flávio Bolsonaro também defende a consolidação desse mercado e a utilização de mecanismos econômicos para remunerar atividades de conservação ambiental.

A diferença, entretanto, está na ênfase das propostas: Lula destaca o financiamento climático e a atuação de fundos públicos e privados, enquanto Flávio prioriza incentivos de mercado, segurança jurídica e remuneração de produtores e proprietários que preservam.

Financiamento climático

Flávio Bolsonaro propõe manter e fortalecer o mercado de carbono e ampliar incentivos econômicos à preservação. Seu programa também prevê posicionar o Brasil entre os principais destinos de investimentos em transição energética até 2030.

Lula defende a continuidade das iniciativas de financiamento climático lançadas ou ampliadas durante seu governo, incluindo o Eco Invest, o Fundo Clima e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.

As duas candidaturas reconhecem oportunidades econômicas na agenda ambiental, embora apresentem instrumentos diferentes para atrair recursos e estimular a conservação.

Raio-X: o cenário ambiental e energético do Brasil

Raio-X do Meio Ambiente e da Energia | SBT News
Raio-X do Meio Ambiente e da Energia | SBT News

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Balanço Energético Nacional 2026 ajudam a dimensionar os desafios que o próximo governo enfrentará na preservação das florestas, na transição energética e na proteção da população contra eventos climáticos extremos.

Desmatamento na Amazônia: 5.731 km² de vegetação foram desmatados na Amazônia Legal em 2025, segundo dados consolidados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O resultado representa queda de 12,07% em relação a 2024.

Energia renovável: 86,8% da oferta interna de eletricidade brasileira veio de fontes renováveis em 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Energia solar e eólica: juntas, as duas fontes responderam por 26,4% da geração de eletricidade do Brasil em 2025.

Matriz energética: considerando não apenas eletricidade, mas também combustíveis e outras formas de energia, a participação das fontes renováveis foi de 49,5% em 2025.

Emissões associadas à energia: o setor energético brasileiro registrou 440,2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2025, segundo a EPE.

Monitoramento de desastres: 1.295 municípios passaram a ser monitorados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) a partir de março de 2026, com foco em riscos como enchentes e deslizamentos.

Raio-X do Meio Ambiente e da Energia | SBT News
Raio-X do Meio Ambiente e da Energia | SBT News

O que dizem especialistas

Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam diferenças na forma de conciliar desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Para especialistas ouvidos pelo SBT News, porém, a efetividade das propostas dependerá de investimentos, fiscalização e metas capazes de produzir resultados concretos.

Na avaliação de Carlos Bocuhy, presidente do PROAM – Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Lula apresenta uma abordagem mais alinhada ao enfrentamento das mudanças climáticas, enquanto Flávio prioriza instrumentos econômicos e medidas de flexibilização regulatória.

“A principal diferença é o papel atribuído à política ambiental no desenvolvimento. Lula apresenta a questão climática como eixo de planejamento, associado à adaptação, à redução de emissões e à transformação econômica. Flávio privilegia o meio ambiente como ativo econômico, com mercado de carbono, bioeconomia e incentivos à conservação, ao mesmo tempo que propõe facilitar autorizações, o que é antagônico”, afirma.

Para Bocuhy, o plano de Lula apresenta uma contradição ao combinar compromissos climáticos com a expansão da exploração petrolífera. Já as propostas de Flávio, segundo o ambientalista, levantam preocupações quanto à capacidade de fiscalização e proteção dos recursos naturais.

“O teste de suficiência para programas de governo deve ser concreto: metas anuais, orçamento, responsáveis, fiscalização e resultados verificáveis”, diz.

Uma das diferenças entre os programas está nos compromissos de combate ao desmatamento. Lula promete alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, enquanto Flávio estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029.

Bocuhy explica que os conceitos não são equivalentes. A meta de Flávio se refere à eliminação da derrubada de vegetação que contraria a legislação, sem impedir necessariamente a supressão autorizada. Já o desmatamento líquido zero, prometido por Lula, considera um equilíbrio entre perdas e recuperação florestal.

“Uma área restaurada não repõe imediatamente a biodiversidade, o carbono e as funções hídricas de uma floresta madura”, alerta.

Licenciamento ambiental e riscos da exploração energética

A proposta de Flávio Bolsonaro de conceder licenças ambientais quando o órgão responsável não se manifestar dentro do prazo estabelecido é um dos pontos mais criticados por Bocuhy.

“É o mesmo que conceder habilitação ao motorista por decurso de prazo”, compara.

O ambientalista considera a medida inconstitucional e argumenta que a entrega da documentação exigida não garante, por si só, que um empreendimento seja ambientalmente viável. Segundo ele, a falta de servidores ou recursos poderia resultar em autorizações sem a avaliação adequada dos riscos, ampliando conflitos e disputas judiciais.

A exploração de petróleo e gás também é apontada como um desafio comum aos dois programas. Para Bocuhy, o aumento da oferta de energias renováveis não significa necessariamente uma redução das emissões se a produção de combustíveis fósseis continuar crescendo.

“Expandir renováveis enquanto petróleo e gás continuam crescendo pode apenas aumentar a oferta total de energia, sem produzir a substituição necessária”, afirma.

Sobre a Margem Equatorial, o especialista defende que eventuais projetos sejam submetidos a avaliações dos impactos sobre os ecossistemas, a pesca e as comunidades tradicionais, além de estudos sobre vazamentos e capacidade de resposta a acidentes.

Bocuhy também alerta para os riscos associados ao fracking, técnica de extração de gás prevista no plano de Flávio. Entre os problemas apontados estão a pressão sobre os recursos hídricos, a possibilidade de contaminação das águas subterrâneas, as emissões de metano e a ocorrência de abalos sísmicos associados a determinadas atividades.

Água, florestas e saneamento

A relação entre preservação ambiental e segurança hídrica é destacada por Marta Angela Marcondes, bióloga, professora titular da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e coordenadora do Projeto IPH – Índice de Poluentes Hídricos.

A pesquisadora ressalta que a proteção das florestas é fundamental para a manutenção do ciclo da água e dos regimes de chuva em diferentes regiões do Brasil. Nesse contexto, destaca positivamente as propostas de Lula de fortalecer a fiscalização e ampliar a destinação de terras públicas para unidades de conservação e comunidades tradicionais.

Marta também manifesta preocupação com as mudanças no licenciamento ambiental previstas no programa de Flávio Bolsonaro. Para ela, a simplificação dos procedimentos precisa ser analisada à luz dos problemas já existentes de desmatamento e ocupação irregular de áreas protegidas.

“Existe a grande necessidade das fiscalizações principalmente em áreas distantes dos grandes centros, onde as populações são intimidadas por grandes produtores”, afirma.

A bióloga explica que revitalizar bacias hidrográficas exige mais do que obras de infraestrutura. Segundo ela, a recuperação dos rios depende de políticas habitacionais, saneamento, proteção de mananciais, práticas agrícolas sustentáveis e controle dos impactos da mineração.

Também é necessário considerar as características de cada região e bacia hidrográfica, especialmente em relação à ocupação do solo, à irrigação e ao lançamento de resíduos nos corpos d'água.

O que falta nos planos?

Apesar das diferenças entre os candidatos, Bocuhy avalia que os dois programas precisam ser acompanhados de compromissos verificáveis, capazes de demonstrar como as promessas serão executadas.

Na prevenção de eventos climáticos extremos, por exemplo, ele reconhece que ambos apresentam medidas, mas considera insuficiente avaliar o desempenho de um governo apenas pelo número de obras realizadas. Para o ambientalista, o resultado deve ser medido pela redução dos riscos enfrentados pela população.

“A credibilidade da política ambiental depende também da disposição de reconhecer esses limites e estabelecer a prioridade, o essencial, que é a proteção da saúde da população e do meio ambiente equilibrado”, conclui.

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