Superquarta: BC tem espaço para corte, diz especialista
Economista Bruno Perri vê possibilidade de redução da Selic e destaca importância da estreia de Kevin Warsh à frente do banco central americano


B3 | Germano Lüders/Exame
Nesta quarta-feira (17), o mercado financeiro global volta suas atenções para a chamada “Superquarta”, dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil e o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, anunciam suas respectivas decisões sobre as taxas de juros.
Esta reunião do Fed carrega um componente de novidade: marca a primeira definição oficial de juros sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência da autoridade monetária em maio, sucedendo Jerome Powell. Indicado pelo presidente Donald Trump, Warsh assumiu o cargo após divergências públicas entre Trump e Powell sobre a condução da política monetária norte-americana.
No Brasil, as atenções estão voltadas não apenas para a decisão sobre a taxa Selic, mas também para o comunicado que acompanhará o anúncio do Copom. Segundo o economista Bruno Perri, o cenário mudou significativamente após o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã, que ajudou a aliviar as pressões sobre o mercado de petróleo.
“O mercado estava mais dividido antes do anúncio do acordo dos EUA e Irã. O petróleo estava acima de 90 dólares. Depois do IPCA de maio, que trouxe uma composição que sinalizava uma inflação mais resiliente em alguns grupos importantes, o mercado ficou mais cético”, explicou ao programa Radar News, do SBT News.
Para o economista, a recente queda dos preços do petróleo contribuiu para melhorar a percepção sobre o espaço disponível para o Banco Central brasileiro iniciar um ciclo de afrouxamento monetário.
“O acordo trouxe um alento. Hoje o petróleo caiu bastante e já está bem abaixo de 80 dólares novamente. Assim como esse choque do petróleo prejudicou as expectativas de inflação desde que estourou o conflito em fevereiro, agora espera-se que, com a manutenção do acordo e os preços em níveis mais razoáveis, haja também um movimento reverso”, afirmou.
Diante desse cenário, Perri avalia que o Copom tem condições de promover um corte moderado da Selic.
“Isso trouxe uma melhora da percepção de que o Banco Central tem espaço, sim, para cortar em 0,25 ponto percentual hoje, para 14,25%, que ainda é uma taxa bastante alta e bastante contracionista. Ou seja, que tem força para desacelerar a economia”, disse.
Apesar da expectativa de redução dos juros, o economista acredita que a autoridade monetária deverá adotar cautela nos próximos meses.
“No comunicado, o Banco Central deve sinalizar muito possivelmente uma pausa e uma posição muito sensível aos dados”, acrescentou.
Nos Estados Unidos, a expectativa predominante é de manutenção dos juros. Ainda assim, o mercado acompanha de perto a estreia de Kevin Warsh à frente do Fed e as mensagens que serão transmitidas após a decisão.
“A taxa básica de juros dos EUA é o que chamamos de taxa básica de juros do mundo. Toda sinalização que vem dos Estados Unidos é muito importante, inclusive para determinar o espaço e o diferencial de juros que nos permita cortar mais ou menos juros por aqui”, afirmou Perri.
Segundo ele, o conteúdo do comunicado e o tom adotado por Warsh poderão oferecer pistas relevantes sobre os próximos passos da política monetária americana.
“Embora a manutenção seja largamente esperada, qualquer decisão diferente disso seria uma grande surpresa. O importante é entender qual vai ser o tom do Kevin Warsh, uma vez que é a primeira vez que ele vai assumir essa função de se comunicar com o mercado e com a imprensa”, avaliou.
Perri destacou ainda que Warsh reúne características que tornam sua estreia particularmente observada pelos investidores.
“É um presidente de Banco Central mais alinhado ao presidente Trump, que tem um histórico de ser bastante conservador em suas decisões, mas que recentemente se aproximou do presidente no sentido de pressionar por juros mais baixos”, disse.
Para o economista, não está descartada a possibilidade de um discurso mais favorável a futuras reduções dos juros nos Estados Unidos.
“É possível, não digo que é provável, que ele traga um comunicado talvez mais suave do que o Powell traria. Isso pode levar o mercado a interpretar que a porta está aberta para eventuais cortes nos EUA mais à frente, caso a deflação esperada em alguns preços se confirme”, afirmou.
Se esse cenário se concretizar, acrescenta Perri, o mercado poderá voltar a considerar a possibilidade de novas reduções de juros nos Estados Unidos ainda neste ano, hipótese que perdeu força durante o período de alta do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio.















