Reforma Tributária exige reação das PMEs para evitar perda de contratos em 2026
Empresas de serviços e comércio precisam revisar regime tributário, contratos, sistemas e créditos acumulados para não perder competitividade na cadeia B2B


João Kepler
A reforma tributária começou a sair do papel e entrou na prática a partir deste ano, e muitas pequenas e médias empresas ainda tratam o tema como algo distante, técnico ou restrito ao contador. Esse pode ser o primeiro erro estratégico.
A transição para o novo modelo, com a criação da CBS federal e do IBS estadual e municipal, não muda apenas alíquotas. Ela altera a lógica de competitividade entre fornecedores, especialmente no mercado B2B, onde crédito tributário e conformidade fiscal passam a pesar diretamente na decisão de contratação.
Em 2026, entram em vigor as alíquotas teste de 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS, iniciando o período de convivência entre o sistema atual e o novo modelo, que seguirá até 2033. Embora os percentuais iniciais sejam baixos, o impacto estratégico já começa agora.
Empresas maiores, que operam com crédito amplo no novo IVA, tendem a priorizar fornecedores que também estejam estruturados para gerar créditos tributários plenos. Isso pode reduzir a atratividade de parte das PMEs que permanecem no Simples Nacional sem avaliar os efeitos na cadeia.
O ponto central não é apenas quanto se paga de imposto, mas como esse imposto circula na cadeia produtiva. No modelo não cumulativo, o crédito financeiro passa a ser elemento-chave. Um fornecedor que não gera crédito ou que transfere crédito reduzido pode se tornar menos competitivo para grandes empresas que buscam eficiência tributária. Nesse cenário, a tributação deixa de ser apenas tema contábil e passa a ser critério comercial.
Especialistas alertam que setores intensivos em serviços podem enfrentar aumento relativo de carga no novo modelo, enquanto segmentos com maior volume de insumos tendem a se beneficiar da não cumulatividade plena. Para o comércio, o desafio pode vir da reorganização logística e da adaptação de sistemas fiscais. Em todos os casos, o impacto real dependerá do regime tributário adotado, da estrutura de custos e da capacidade de adaptação da empresa.
Para não perder contratos, eficiência, competitividade e oportunidades, as Pequenas e Médias empresas precisam agir agora em cinco frentes:
A primeira é revisar o regime tributário. Permanecer no Simples pode continuar fazendo sentido para muitos negócios, mas a decisão deve ser estratégica e não automática. Em cadeias B2B com grandes contratantes, migrar para Lucro Presumido ou Lucro Real pode aumentar competitividade ao permitir melhor aproveitamento de créditos.
A segunda frente é a revisão contratual. Como haverá período de transição até 2033, é recomendável incluir cláusulas de reequilíbrio econômico-financeiro e atualização automática em caso de mudança de alíquotas. Contratos antigos, sem proteção, podem corroer margens silenciosamente.
A terceira é investir em tecnologia e compliance. A convivência entre dois sistemas tributários exigirá maior controle na emissão de notas fiscais, escrituração e apuração de créditos. Empresas que gerarem inconsistências fiscais podem se tornar risco para seus clientes e perder espaço na cadeia.
A quarta frente, ainda pouco discutida, é estratégica para o caixa. Se Trata da recuperação e organização dos créditos tributários acumulados até 2025, dentro do modelo atual. Muitas empresas possuem créditos de PIS, Cofins ou ICMS não aproveitados integralmente. Com a transição para o novo sistema, é fundamental mapear esses valores, avaliar possibilidades de compensação ou restituição e estruturar um plano para transformar créditos parados em fluxo de caixa.
Isso é relevante porque, no novo modelo, a lógica de recolhimento muda. O imposto será destacado na nota e a dinâmica financeira tende a exigir maior organização do caixa no momento da operação. Ter créditos recuperados ou compensados pode aliviar a pressão inicial da transição e fortalecer o capital de giro justamente no período de adaptação.
A quinta frente é reposicionar a proposta de valor. Em um ambiente de maior transparência tributária, competir apenas por preço tende a se tornar mais difícil. PMEs que demonstram geração de resultado, eficiência operacional e governança sólida aumentam sua relevância estratégica, independentemente do regime tributário.
A reforma tributária não é apenas um debate sobre alíquotas futuras. É uma mudança estrutural que redefine como empresas compram e contratam. Para as PMEs, a decisão não é se a reforma vai impactar o negócio, mas se o impacto será negativo ou se poderá ser transformado em vantagem competitiva. O momento de preparação não é 2026. É agora.
Pense Nisso!









