Economia

Petrobras segura tabela, mas eleva preço do diesel em leilões e gera mal-estar no setor

Com reajuste oficial contido, estatal vende volumes extras por até 75% acima do preço de referência, eleva custo das distribuidoras e pressiona o consumidor

Imagem da noticia Petrobras segura tabela, mas eleva preço do diesel em leilões e gera mal-estar no setor
Nos nove primeiros meses de 2025, a Petrobras recolheu quase R$ 200 bilhões em tributos | Petrobras / Divulgação

A Petrobras tem evitado reajustes mais fortes no preço de referência dos combustíveis, mas passou a adotar a estratégia de venda de volumes adicionais por leilões a preços acima da tabela, o que na prática encarece o diesel.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

A presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou que sem o subsídio de R$ 0,32 por litro e a redução de impostos federais anunciados na semana passada pelo governo, o reajuste teria sido de cerca de R$ 0,70 por litro.

Com a combinação de aumento menor (R$ 0,38) e compensações bancadas pelo governo, o impacto ao consumidor foi reduzido. A estratégia, segundo ela, é evitar o repasse integral da volatilidade internacional. Porém, os leilões realizados recentemente pela companhia caminham na direção oposta.

Diesel até 75% mais caro nos leilões

Os preços nos leilões variam conforme a região, o momento e o volume ofertado, mas têm registrado ágios (valor pago além do preço de referência) elevados em relação à tabela da Petrobras.

Nos primeiros leilões, como o realizado em Canoas (RS), os adicionais ficaram em torno de R$ 1,78 por litro. Com o avanço das rodadas e maior pressão de demanda, os valores aumentaram.

Ainda na semana passada, os ágios chegaram a cerca de R$ 2,30 por litro em diferentes bases, já refletindo maior disputa entre compradores e restrições de oferta.

Para os próximos leilões, previstos para esta semana, as indicações de mercado apontam para ágios iniciais de aproximadamente R$ 1,85 por litro em São Paulo e de R$ 2,05 no Nordeste. Esses valores correspondem aos lances de abertura e podem subir ao longo do certame.

Os maiores níveis foram observados em regiões com maior pressão logística, como Norte e Nordeste, onde há registros de negociações com adicionais de até R$ 2,65 por litro, cerca de 75% acima do preço de referência em outros polos.

Na prática, os compradores pagam valores superiores ao preço oficial de venda nas refinarias, o que eleva o custo final do combustível sem que a Petrobras altere formalmente sua tabela.

Ao todo, a Petrobras já ofertou cerca de 190 milhões de litros desde o primeiro leilão, realizado em meio a queixas de falta de combustível durante a safra de soja. Um lote adicional de 40 milhões de litros chegou a ser programado, mas foi adiado.

Nos bastidores, distribuidoras relatam que a Petrobras reduziu o volume vendido por contrato e direcionou parte da oferta para os leilões. Segundo relatos obtidos pelo SBT News, os cortes nas cotas variam entre 20% e 30%, enquanto o resto segue sendo entregue pelos contratos tradicionais.

Na prática, isso cria dependência, visto que, para garantir produto suficiente e honrar contratos, as distribuidoras precisam recorrer aos leilões, mesmo pagando mais caro.

Sem esses volumes adicionais, agentes do setor avaliam que há risco de desabastecimento em momentos de pico de demanda

O pano de fundo é a escalada do petróleo no mercado global em meio às tensões no Oriente Médio. Cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã durante o conflito com Estados Unidos e Israel. Isso dificultou a importação e elevou os preços dos combustíveis, com o barril do Brent (principal referência do mercado internacional) ultrapassando os US$ 100.

Mesmo após o reajuste recente, cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) indicam que o diesel nas refinarias brasileiras ainda estava cerca de 60% abaixo do preço internacional, o que reduz o incentivo à importação.

Como o Brasil ainda depende de importações para cerca de 30% do diesel consumido, a defasagem de preços dificulta a entrada de produto externo, intensificando a pressão sobre o mercado interno.

Nesse contexto, os leilões funcionam como um ajuste parcial, permitindo à Petrobras vender parte da produção a valores mais próximos da paridade internacional sem alterar formalmente a tabela.

Sistema híbrido pressiona cadeia

O resultado é um mercado operando em duas camadas: a maior parte do diesel continua sendo vendida pela tabela, enquanto uma parcela crescente é negociada a preços mais altos.

Para distribuidoras, isso significa custos mistos, o que eleva o preço médio e tende a ser repassado ao consumidor no postos. Os valores dos leilões também passam a influenciar o restante do mercado, servindo de referência para novas negociações.

O efeito já começa a aparecer nas bombas, com alta no preço médio do diesel nas primeiras semanas de março.

Mal-estar e dilema

Para agentes do setor, a estratégia distorce a formação de preços. Embora o discurso oficial seja de estabilidade, parte relevante do mercado já opera com valores mais elevados.

A avaliação é que a Petrobras tenta conciliar dois objetivos: evitar um reajuste amplo com impacto político e não absorver sozinha a alta internacional.

Os leilões se tornaram o principal instrumento desse equilíbrio, ao permitir um aumento indireto dos preços. Na prática, porém, o mecanismo não elimina a pressão inflacionária e amplia o mal-estar entre distribuidoras e revendedores.

Se o petróleo permanecer em níveis elevados, a tendência é de continuidade desse modelo, com o mercado sob maior incerteza e preços pressionados, mesmo sem um reajuste formal mais expressivo.

Assuntos relacionados

Petrobras
Combustível
preço

Últimas Notícias