Passagem aérea ficou 31% mais cara com Guerra no Irã, revela JP Morgan
Alta do combustível pressiona setor e JP Morgan aponta resiliência financeira como critério-chave para investir


Exame.com
O avanço do conflito no Oriente Médio nos últimos dias começou a redesenhar o setor aéreo brasileiro. Um relatório do JP Morgan publicado logo após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã mostra que a escalada do petróleo provocou uma disparada das tarifas no Brasil e acendeu alertas sobre custos e rentabilidade das companhias.
Em março as passagens aéreas subiram 22% na comparação anual e 31% frente ao mês anterior, segundo o monitor proprietário do banco, que acompanha preços em rotas específicas e que estão relacionadas com 80% dos resultados financeiros das empresas.
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), disse à EXAME que a trégua anunciada nesta semana ocorre em um contexto ainda incerto. Apesar da trégua, o mercado segue sensível a qualquer sinal de escalada. Os preços podem recuar para a faixa de US$ 80 caso o acordo avance, mas não está descartado um retorno aos US$ 100 já nas próximas semanas.
"As partes envolvidas surpreendem muito. Você pode ainda ter uma volta do petróleo caro na próxima semana, dependendo de como essa abertura do estreito vai se dar — se os Estados Unidos vão colocar gente ali para garantir que não haja ataque a navios, ou se o Irã vai impedir esse tipo de presença", explicou o especialista.
Passagens aéreas mais caras
O conflito entre os os países teve seu estopim no dia 28 de fevereiro, quando uma coalizão formada pelos EUA e Israel lançou uma série de ataques aéreos coordenados contra o território iraniano. Desde então, o Teerã fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Isso causou um choque nos preços globais de energia, levando o barril de petróleo a níveis elevados. E a pressão sobre as passagens aéreas vem principalmente do combustível.
O querosene de aviação (QAV) teve alta de 55% anunciada pela Petrobras, enquanto os preços internacionais de derivados chegaram a dobrar no acumulado do ano. No Brasil, há ainda um atraso de cerca de 45 dias no repasse, o que indica que o impacto total ainda não tenha chegado às tarifas. Considerando o aumento de 9,4% em vigor desde 1º de março, a alta acumulada desde o início da guerra, em fevereiro, é de 64% no preço do combustível.
Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), com as altas recentes, o combustível passou a responder por 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. Estimativas do Grupo Abra, holding que controla a Gol e a Avianca, apontavam que a cada elevação de US$ 1 por galão no preço do QAV, as passagens poderiam subir cerca de 10%.
Os dados mostram um comportamento distinto entre os segmentos. As viagens corporativas puxaram a alta, com avanço de 42% no primeiro trimestre de 2026, enquanto o lazer recuou 10% no mesmo período.
As companhias anteciparam o aumento das passagens antes mesmo do repasse integral do combustível, numa tentativa de recompor margens em meio à volatilidade. A estratégia indica uma mudança de postura após anos de compressão de preços no setor.
A reação do governo veio em duas frentes. Foram anunciadas isenções temporárias de PIS/COFINS sobre o combustível por dois meses e linhas de crédito subsidiadas que somam R$ 8,5 bilhões. O objetivo foi dar fôlego de caixa às companhias em um momento de choque de custos.
Apesar do choque recente, os analistas do JP Morgan apontam que o cenário pode começar a mudar ao longo dos próximos meses. A curva futura do óleo de aquecimento — usada como referência para o combustível de aviação — indica uma trajetória de queda gradual após os picos registrados durante o conflito, com projeções próximas de US$ 310 por barril até dezembro de 2026.
Caso o Estreito de Ormuz seja de fato reaberto, a normalização dos preços pode ocorrer rapidamente, inclusive antes da recomposição total da oferta física de petróleo. O ponto é central: o bloqueio da passagem marítima foi o principal gatilho da escalada recente.
Na prática, isso significa que parte da alta pode ser revertida. Como as companhias anteciparam o reajuste de tarifas, um recuo mais rápido do combustível tende a aliviar a pressão sobre os preços — ainda que de forma gradual.
No Brasil, porém, esse movimento não é imediato. A defasagem de cerca de 45 dias na política de preços da Petrobras pode retardar o repasse da queda para as aéreas e, consequentemente, para o consumidor final.
Preferências na bolsa
No mercado de capitais, o JP Morgan adotou uma postura mais seletiva. Latam e Copa Holdings aparecem como principais recomendações, ambas com classificação overweight.
Segundo o banco, as duas companhias combinam balanços mais leves, maior geração de caixa e, no caso da Latam, uma estratégia relevante de proteção contra combustível — cerca de 36% do consumo de 2026 já está hedgeado.
A resiliência operacional e financeira passa a ser o principal diferencial em um cenário de choque de custos, escrevem os analistas.
Já a Azul teve sua recomendação elevada de underweight para neutra após a saída do Chapter 11. A reestruturação fortaleceu o balanço, mas não elimina riscos.
Apesar do avanço financeiro, a companhia segue mais exposta ao cenário adverso. O relatório aponta riscos de diluição de capital e maior sensibilidade ao preço do petróleo, além de desafios na recomposição de margens.
O banco também destaca o monitoramento contínuo de tarifas como indicador-chave para os próximos trimestres. Caso os preços se sustentem elevados, pode haver melhora nos resultados — mas com potencial impacto na demanda, especialmente no segmento de lazer.
No pano de fundo, o setor volta a enfrentar um ciclo já conhecido: custos voláteis, repasse parcial ao consumidor e dependência de fatores externos. A diferença, desta vez, está na disciplina financeira — e em quem consegue atravessar a turbulência com caixa suficiente.








