Economia

Ibovespa sobe 3,2% e tem maior alta diária em dois meses; dólar cai a R$ 5,24

Movimento foi impulsionado por falas de Donald Trump, que aliviaram temores de escalada no Oriente Médio e derrubaram o petróleo

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Ibovespa sobe 3,2% e tem maior alta diária em dois meses; dólar cai a R$ 5,24 | Cris Faga/NurPhoto/Getty Images

O Ibovespa e o dólar encerraram a sessão desta segunda-feira (23) em movimentos opostos e bastante expressivos, refletindo uma reprecificação global de risco após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o conflito no Oriente Médio.

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O principal índice da bolsa brasileira fechou em forte alta de 3,24%, aos 181.931 pontos — a maior valorização diária desde o dia 21 de janeiro, quando o Ibovespa subiu 3,33%. Já o dólar recuou 1,29%, encerrando cotado a R$ 5,24, após oscilar entre R$ 5,31 na máxima e R$ 5,21 na mínima do dia.

O movimento foi acompanhado por uma queda abrupta no petróleo, que funcionou como o principal gatilho para o apetite por risco. Os contratos do Brent, referência mundial, para maio despencaram 10,91%, a US$ 99,94 por barril, enquanto o WTI, mais usado nos EUA, caiu 10,28%, a US$ 88,13, diante da expectativa de uma possível desescalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

O recuo do petróleo levou as ações da Prio (PRIO3) para uma queda de quase 2%, assim como Brava Enegia (BRAV3), que caiu 0,53%, entre as únicas quatro baixas do dia. Na ponta oposta, as ações da Hapvida (HAPV3) lideraram as 76 altas com 9,04% de ganhos.

Trump alivia temor de escalada

A virada de humor do mercado ocorreu após Trump afirmar que teve "conversas muito boas e produtivas" com o Irã e anunciar o adiamento, por cinco dias, de eventuais ataques a instalações energéticas iranianas. A sinalização foi interpretada como uma tentativa de abertura diplomática ou, ao menos, de redução do risco imediato de escalada, segundo operadores ouvidos pela EXAME.

Apesar disso, autoridades iranianas negaram qualquer negociação em curso. Agências estatais como Fars, Tasnim e Irna afirmaram, com base em fontes do governo, que não há diálogo com Washington e classificaram as declarações como tentativa de influenciar os preços do petróleo e dos mercados. Ainda assim, prevaleceu a leitura de alívio entre os investidores.

De acordo Luis Fonseca, sócio-gestor da Nest Asset, o mercado reagiu principalmente à redução do risco de um choque mais severo no petróleo — um dos principais temores globais.

"A declaração de Trump de que houve progresso nas negociações e de que ataques seriam adiados por cinco dias levou a um movimento bastante positivo nos mercados de risco em geral, ao afastar a possibilidade de acirramento imediato do conflito", afirma.

Fonseca destaca que o mercado é historicamente sensível a choques no preço da commodity, pelo impacto potencial sobre crescimento e inflação. "O temor do mercado vem exatamente do cenário atual estar mais perto do que aconteceu nos anos 70", diz.

O gestor também pondera que, neste momento, o peso das ações supera o das falas. "As atitudes contam mais do que as declarações, e, nesse caso, independentemente do que está sendo dito, o fato é que um eventual acirramento do conflito foi adiado".

Na mesma linha, Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, avalia que o movimento desta segunda reflete muito mais um ajuste tático do que uma mudança estrutural de cenário. "A reação parece muito mais um alívio tático de curto prazo do que uma convicção real de desescalada", afirma.

Segundo Belitardo, o mercado não passou a acreditar que o conflito acabou, apenas reduziu a probabilidade do pior cenário no curtíssimo prazo. "O que ele está dizendo é: 'o pior cenário para as próximas horas ficou menos provável'. Isso é bem diferente de acreditar numa desescalada consolidada", diz.

O gestor também chama atenção para o fato de os ativos terem subido mesmo diante da negativa do Irã. Para ele, isso revela uma disposição dos investidores de reagir rapidamente a qualquer sinal vindo dos EUA que reduza o risco imediato. "O mercado não precisou acreditar totalmente numa negociação, bastou acreditar que o próximo passo poderia ser menos agressivo do que se temia horas antes".

Ele acrescenta que esse comportamento também está ligado ao padrão já observado em relação a Trump. "Parte do mercado acredita menos na diplomacia em si e mais na função de reação política de Washington diante do estresse dos ativos".

EWZ sobe mais de 5%

No pano de fundo, o ambiente global já vinha favorecendo mercados emergentes, o que ajudou a amplificar o movimento local. Segundo Fonseca, há uma rotação em curso no mercado internacional, com investidores reduzindo exposição a ações de tecnologia e buscando outras oportunidades, o que tem beneficiado países como o Brasil.

O EWZ, principal fundo de índice de ações brasileiras negociado fora, subiu mais de 5% nesta segunda, enquanto o EEM, de mercados emergentes, recuou 2,23%.

Ainda assim, a leitura predominante entre os analistas é de cautela. O alívio desta sessão está ancorado em expectativas — e não em confirmações concretas de avanço diplomático. "Houve um alívio de preço, não uma validação dos fundamentos", afirmou Belitardo.

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