Copom vê cenário incerto para cortes com El Niño, EUA e Irã
Comitê foi unânime no corte de 0,25 ponto na Selic, para 14,25%, mas incertezas indicam estagnação na queda

O Banco Central (BC) indicou nesta terça-feira (23) incerteza sobre a redução da taxa básica de juros nas próximas reuniões na ata do Comitê de Política Monetária (Copom) que justificou o corte unânime de 0,25 ponto da Selic para 14,25% ao ano. A principal razão são volatilidades no cenário global de curto prazo, como a condução da política econômica dos Estados Unidos do governo Donald Trump, a resolução do conflito no Irã e os impactos climáticos do El Niño sobre a economia global a partir do segundo semestre.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", diz a ata.
O comunicado destaca que o atual nível de restrição monetária já produziu efeitos sobre a desaceleração da economia, mas que a trajetória futura dos juros dependerá da evolução dos indicadores e dos riscos para a inflação.
Em entrevista ao SBT News, o economista Otto Nogami, professor do Insper, afirmou que a política fiscal também influencia diretamente as decisões do Banco Central. Segundo ele, o aumento dos gastos públicos e da dívida pode pressionar os juros por mais tempo.
"À medida que o governo gasta mais do que arrecada, ele acumula dívida pública. E isso é extremamente preocupante porque essa dívida precisa ser financiada. Como costumamos dizer tecnicamente, ela depende da poupança formada pelas famílias", afirmou.
As expectativas para a inflação deste ano estão em 5,2%, e em 3,7% para 2027, conforme o boletim Focus. O Copom elenca como fatores de pressão inflacionária “horizontes mais longos” de expectativas, influenciados por choques de oferta do petróleo e efeitos climáticos sobre a colheita de safras. Como mostrou o SBT News, agências meteorológicas da Europa e dos EUA projetam uma formação ainda mais acentuada do El Niño neste ano, com potencial para criar secas extremas no Norte e Nordeste e enchentes no Sul do Brasil.
Nogami avalia que o crescimento da dívida pública pode representar um desafio adicional para a política monetária. "Isso porque a formação dessa dívida representa, em última instância, um excesso de gastos por parte do governo. E o excesso de gastos acaba repercutindo necessariamente sobre o comportamento da taxa de juros", disse.
Por outro lado, jogam a favor da estabilização inflacionária uma desaceleração doméstica acima do projetado inicialmente e uma queda no preço das commodities no mercado global.
A ata também mostra que o Copom considerou outros cenários que não os considerados no Focus e no Questionário Pré-Copom (QPC), mas preferiu descartar por ora trajetórias “menos discrepantes” do que as presentes nessas estimativas para evitar “induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos, com efeitos potencialmente contraproducentes à própria convergência da inflação à meta".
Os cenários, conforme a ata, levavam em conta ciclos de pausa e retomada das calibrações da Selic, com a inflação convergindo para dentro da meta de 3,5% no início de 2028.
O economista também destacou os efeitos dos juros elevados sobre o consumo e a atividade econômica. Segundo ele, a manutenção da Selic em patamares altos encarece empréstimos e financiamentos, reduzindo a capacidade de compra das famílias.
"A grande preocupação com relação à manutenção da taxa de juros nesse patamar é que isso acaba, de alguma maneira, dificultando a vida do consumidor. Encarecendo o crédito, isso faz com que as famílias posterguem a compra, principalmente de bens duráveis", afirmou.
Para Nogami, o impacto também se estende às famílias já endividadas. "À medida que as famílias estão endividadas, o custo desse endividamento começa a crescer. Esse aumento acaba comprometendo a renda futura, fazendo com que as famílias consumam menos. Isso tem um impacto direto sobre o nível da atividade econômica", disse.















