Economia

Casas Bahia: entenda como o crédito virou peça de uma crise

Crediário virou símbolo de inclusão no consumo popular, mas juros altos e endividamento das famílias mudaram a equação do modelo

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Casas Bahia: entenda como o crédito virou peça de uma crise

Durante décadas, o carnê das Casas Bahia ajudou milhões de brasileiros a comprar a primeira geladeira, televisão ou conjunto de móveis. Em uma época em que o acesso ao crédito bancário era limitado para boa parte da população, a varejista criou um modelo baseado em confiança, parcelamento e relacionamento direto com o consumidor.

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Agora, esse mesmo modelo está no centro de uma das maiores reestruturações da história da companhia — não como causa isolada da crise, mas como uma das peças para entender a pressão sobre a operação.

O Itaú BBA, em relatório divulgado após o pedido de recuperação judicial da empresa, afirmou que a crise da Casas Bahia (BHIA3) é resultado de uma combinação de fatores, incluindo juros elevados, restrição de crédito, pressão sobre o consumo das famílias e dificuldade de geração de caixa.

No novo ciclo de ajuste, a Casas Bahia deixou de lado uma estratégia de aceleração para adotar uma abordagem de “caixa primeiro” (cash-first), com fechamento de lojas, redução de custos e foco nos canais mais rentáveis.

O banco também destacou a forte exposição da empresa ao crédito ao consumidor, ou seja, o hábito de financiar os próprios clientes.

Foi com essa lógica que Samuel Klein construiu uma das maiores empresas do varejo brasileiro. Ao chegar ao Brasil, Klein começou vendendo roupas de cama e banho em uma charrete no ABC Paulista, atendendo principalmente migrantes nordestinos. Em 1957, abriu a primeira loja com o nome Casas Bahia, em homenagem aos clientes baianos que formavam parte importante de sua base.

A estratégia era simples: vender para consumidores que muitas vezes não tinham acesso ao sistema financeiro tradicional. O carnê permitia parcelar compras de bens duráveis em meses, criando uma relação de longo prazo entre empresa e cliente.

“O brasileiro possui uma particularidade no que se refere ao consumo: a cultura da prestação. Muitas vezes a pergunta não é ‘quanto custa?’, mas ‘quanto fica por mês?’”, afirma Mauricio Grandeza, consultor de varejo.

O modelo ajudou a transformar a Casas Bahia em um dos maiores símbolos do consumo popular no Brasil. A empresa passou a associar sua marca à democratização do acesso a produtos antes restritos a parcelas de maior renda.

Mas a mesma ferramenta que impulsionou o crescimento da companhia passou a operar em um ambiente muito diferente. Com juros elevados, famílias mais endividadas e menor disponibilidade de crédito, o modelo baseado em parcelamento passou a exigir mais capital e carregar mais risco para a empresa.

Segundo as estimativas do BBA, uma mudança de 100 pontos-base na taxa Selic impacta o fluxo de caixa livre anual da companhia em aproximadamente R$ 200 milhões.

Um novo contexto macro

No pedido de recuperação judicial, o Grupo Casas Bahia reconhece que o ambiente macroeconômico afetou diretamente sua operação de crédito ao consumidor. Segundo os documentos apresentados pela companhia, a alta dos juros e o endividamento das famílias reduziram a demanda por bens duráveis e elevaram os níveis de inadimplência.

Em junho de 2026, o saldo bruto do crediário da empresa somava R$ 6,17 bilhões. As vendas financiadas pelo modelo podem ser parceladas em até 24 meses, com prazo médio de recebimento de aproximadamente 14 meses.

A taxa média de juros praticada no carnê era de 177,03% ao ano, enquanto o custo de financiamento da operação por meio do CDCI (Crédito Direto ao Consumidor com Interveniência) chegou a 17,98% ao ano para a companhia.

O problema é que, em um ambiente de maior fragilidade financeira das famílias, uma parcela maior dos consumidores passou a ter dificuldade para honrar os pagamentos.

No fim do segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia estimava perdas de 13% sobre a carteira de crediário, equivalente a aproximadamente R$ 805 milhões. O índice havia aumentado em relação aos 12,2% registrados em dezembro de 2025.

Segundo a empresa, o cenário de juros elevados e inflação pressionou o crédito ao consumo, afetando a demanda e as margens da operação.

Vários responsáveis

Para a consultora de varejo Ana Paula Tozzi, o crediário não foi o responsável pela crise da Casas Bahia, mas passou a carregar mais risco em um ambiente econômico adverso.

“Crediário não criou a crise da Casas Bahia. Durante décadas ele foi parte da vantagem competitiva da companhia. O problema é que, num ambiente de juros muito altos e renda pressionada, aquilo que era uma fortaleza passa a carregar muito mais risco sem o devido retorno”, afirma Tozzi.

Na visão da especialista, a recuperação judicial da empresa está ligada a uma combinação de fatores mais ampla, envolvendo dívida, custo financeiro, capital de giro, investimentos e estrutura operacional.

“A inadimplência pode ser um componente coadjuvante, mas não é nem de longe a razão da RJ. A Recuperação Judicial é resultado de uma equação muito maior: dívida, custo financeiro, capital de giro, investimentos, estrutura de lojas, competição digital e dificuldade de gerar caixa”, diz.

Um dos principais fatores apontados pela companhia foi o ambiente macroeconômico dos últimos anos. A taxa Selic, que estava em 2% em 2021, chegou a 15% em 2025, aumentando o custo de financiamento da operação e pressionando tanto a dívida corporativa quanto o crédito oferecido aos consumidores.

“O principal desafio desse tipo de varejo é conseguir equilibrar o fluxo de caixa usando capital de giro de terceiros. Com taxas de juros persistentemente acima de dois dígitos, essa não é uma tarefa fácil”, afirma Grandeza.

Além da pressão financeira, o cenário de consumo também mudou. A inflação e o aumento do endividamento das famílias reduziram o espaço para novas compras de bens duráveis.

Segundo dados citados pela companhia nos documentos da recuperação judicial, 50,9% da população adulta brasileira estava negativada em junho de 2026, com R$ 579,5 bilhões em dívidas em aberto.

A própria Casas Bahia apontou que a renda disponível das famílias passou a disputar espaço com novas categorias de consumo, como as apostas on-line, que movimentariam entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês, segundo estimativa citada pela companhia.

Para Grandeza, esse movimento afeta diretamente empresas que dependem do parcelamento para estimular vendas. “As Casas Bahia ensinaram o consumidor a comprar parcelado, e agora sente o peso da gestão desse tipo de venda”, afirma.

Segundo ele, o aumento do endividamento das famílias tende a reduzir a aprovação de novas vendas financiadas, afetando o volume comercializado.

Integração com Pontofrio e pressão sobre operação

Outro ponto citado nos documentos da recuperação judicial foi o processo de integração com o Pontofrio, iniciado em 2009. A associação entre as marcas criou uma das maiores empresas de varejo do país, mas também exigiu uma complexa reorganização operacional em um momento em que o setor passava por uma transformação acelerada, especialmente no comércio digital.

Segundo a petição inicial, a companhia precisou realizar investimentos relevantes em tecnologia e logística para adaptar a operação ao novo ambiente competitivo, aumentando a pressão sobre a estrutura financeira.

Para Mauricio Grandeza, especialista em varejo, a união fazia sentido do ponto de vista estratégico, mas encontrou dificuldades na execução.

Segundo ele, a separação entre o comércio eletrônico e as lojas físicas durante parte do processo criou estruturas duplicadas e chegou a gerar competição interna de preços entre canais da própria companhia.

Na avaliação de Alberto Serrentino, especialista em varejo, a integração entre as empresas não foi plenamente absorvida pela organização e afetou a capacidade de execução da companhia.

“A fusão com Ponto Frio não foi uma coisa bem digerida. A integração com o GPA não foi boa para a Bahia. Isso tirou muito de foco, de competitividade e minou muito a cultura”, afirma.

A governança também passou a ser um desafio. Segundo Serrentino, a empresa atravessou uma sequência de mudanças de comando em ciclos curtos, dificultando a construção de uma estratégia consistente de longo prazo.

“A Bahia teve uma sequência de mudanças de comando em ciclos muito curtos. Foram quatro CEOs seguidos. Isso nunca é bom para nenhuma empresa. Você cria instabilidade, cria mudança de direção, tinha uma governança instável”, diz.

Ao mesmo tempo, a Casas Bahia enfrentou uma transformação estrutural no próprio setor em que atua. O avanço de plataformas digitais como Mercado Livre, Amazon e Shopee, além da evolução mais rápida de concorrentes tradicionais no comércio eletrônico, aumentou a pressão sobre margens e participação de mercado.

“O que esses casos mostram é uma crise mais específica: a do varejo de bens duráveis muito alavancado, intensivo em estoque e capital de giro, depois de anos de juros altos e mudança brutal na competição digital”, afirma Serrentino.

Falta de liquidez acelerou a crise

O agravamento final da situação veio com a dificuldade de acesso a recursos. Segundo os documentos apresentados pela companhia, uma operação de captação internacional considerada relevante para o planejamento financeiro de 2026 não foi concluída após a desistência de um investidor âncora.

A Casas Bahia avaliava alternativas tanto no mercado de dívida quanto de equity, incluindo uma possível oferta subsequente de ações (follow-on). O objetivo era substituir fontes de financiamento mais caras, como o risco sacado, por alternativas com prazos e custos mais adequados à geração de caixa da empresa.

A operação chegou a uma fase avançada, com negociações de documentos e estruturação do processo de reserva de ordens dos investidores. Segundo a administração, porém, a piora do cenário de mercado, a manutenção dos juros elevados no Brasil e a maior seletividade de bancos e seguradoras dificultaram a conclusão.

O ponto decisivo foi a desistência formal do investidor âncora com quem a companhia mantinha negociações. Além dessa alternativa, a Casas Bahia tentou outras formas de reforçar o caixa. A contratação de empréstimos-ponte (bridge loans) não avançou no prazo esperado, enquanto a tentativa de transformar parte dos R$ 6,3 bilhões em créditos fiscais acumulados pela companhia em recursos disponíveis também encontrou obstáculos.

A restrição de liquidez teve impacto direto na operação. Sem os recursos esperados, a Casas Bahia reduziu de forma significativa a compra de mercadorias no segundo trimestre de 2026.

Como consequência, os estoques consolidados caíram de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,2 bilhões em junho.

Segundo a administração, a redução dos estoques afetou a disponibilidade de produtos nas lojas físicas e nos canais digitais e se tornou um dos principais fatores que levaram a companhia a redimensionar a operação e protocolar o pedido de recuperação judicial.

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