Cultura

Oscar 2026: quais as chances de "O Agente Secreto" repetir estatueta de "Ainda Estou Aqui"?

Longa conquista críticos, acumula prêmios e indicações e pode pintar em mais de uma categoria na maior premiação do cinema

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"O Agente Secreto" figura em listas de melhores filmes de 2025 feitas por publicações de peso | Divulgação/Victor Jucá

O que você estava fazendo na madrugada de 2 para 3 de março de 2025? Possivelmente, duas coisas (talvez ao mesmo tempo): pulando Carnaval e vendo "Ainda Estou Aqui" vencer o Oscar de melhor filme internacional, feito inédito – e muitíssimo aguardado – para o cinema nacional. A edição do prêmio em 2026, marcada para 15 de março, não será durante a folia. Mesmo assim, pode fazer milhões de brasileiros perderem o sono novamente e festejarem por bons motivos: as chances de "O Agente Secreto" em uma ou mais categorias da estatueta dourada.

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Ambos os filmes guardam algumas semelhanças, como o fato de retratarem personagens (reais em "Ainda Estou Aqui") e fictícios ("O Agente Secreto") nos anos 1970, durante a ditadura militar, bem como reflexos (presentes e futuros) daquele período no entorno familiar de quem protagoniza essas histórias – Eunice Paiva (Fernanda Torres) e Marcelo (Wagner Moura).

Em "O Agente Secreto", o astro brasileiro conhecido em Hollywood por trabalhos recentes ("Guerra Civil" e "Ladrões de Drogas") e sucessos de alguns anos atrás ("Narcos" e "Tropa de Elite") interpreta um professor universitário da área de tecnologia tentando se reconectar com o filho pequeno na cidade natal, Recife. Lá, porém, as tensões sociais e políticas provocadas pelo regime de exceção não dão trégua.

Em quais categorias "O Agente Secreto" pode ser indicado?

A relação de filmes e artistas indicados ao Oscar 2026 – 98ª edição – será divulgada em 22 de janeiro. "O Agente Secreto" figura em duas shortlists, pré-listas que funcionam como "semifinais": melhor filme internacional e melhor direção de elenco, novidade entre as 24 categorias do prêmio.

Vale lembrar que a principal, de melhor filme, é a única que contempla dez filmes. Em 2025, incluiu "Ainda Estou Aqui", que também conseguiu presença em melhor atriz (Fernanda Torres). O fato de "O Agente Secreto" aparecer entre possíveis concorrentes a uma estatueta recém-criada pode indicar que o longa-metragem tem força para entrar nesse top 10.

Outro sinal vem do Globo de Ouro, com cerimônia de entrega de troféus marcada para 11 de janeiro. Além das indicações a melhor filme estrangeiro e melhor ator (Moura), a produção colocou o Brasil pela primeira vez entre os cinco indicados a melhor filme de drama. No início do ano, "Ainda Estou Aqui" não conquistou melhor filme estrangeiro, mas faturou melhor atriz em drama para Fernanda Torres. Outro feito inédito.

Vale voltar alguns meses para traçar onde e como começou a trajetória de "O Agente Secreto". Em maio, no Festival de Cannes, talvez o mais prestigiado do planeta entre cinéfilos e críticos, o longa do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, vencedor do prêmio do júri por "Bacurau" (2019), ganhou melhor direção e ator (Moura).

Não é exatamente impossível um filme receber dois prêmios na croisette, mas também não dá para dizer que acontece todo ano: em 78 edições do evento francês, 42 longas, incluindo o nacional, saíram de Cannes com dois troféus – sendo que apenas três ganharam três honrarias.

Já entrando no próximo tópico, outra informação para animar quem acompanha Oscar: "O Agente Secreto" virou queridinho da imprensa especializada desde o festival europeu, quando também abocanhou prêmio dado pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci).

Sucesso entre críticos e cinéfilos

Se "Ainda Estou Aqui" foi um estrondoso hitmais de 5 milhões de ingressos vendidos no Brasil, o que coloca o longa entre as 20 maiores bilheterias da história do cinema nacional – nas salas de exibição e nas páginas de memes, "O Agente Secreto" se apresenta inicialmente como um sucesso de crítica e cinefilia que, impulsionado pelo burburinho de Oscar, fisga plateias.

Não que "Ainda Estou Aqui" tenho ido mal de crítica e "O Agente Secreto" seja um fracasso financeiro. Pelo contrário. O filme dirigido por Walter Salles ("Central do Brasil") não teria vencido prêmios inéditos no Oscar e no Globo de Ouro sem chancela da imprensa especializada, que emplacou o drama em várias listas de melhores do ano, e de eventos importantes – troféu de melhor roteiro no Festival de Veneza, o mais antigo do mundo, foi o abre-alas da consagração nos Estados Unidos.

Casa de dona Sebastiana em "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes
Casa de dona Sebastiana em "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes

E "O Agente Secreto" não teria alcançado repercussão atual sem apreço popular. O longa foi lançado no início de novembro e, em dezembro, ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores no país. Número que tem tudo para crescer ao longo de janeiro, com cerimônia do Globo de Ouro e anúncio das indicações ao Oscar, e até março, caso entre em uma ou mais categorias.

Mas é que o carinho da crítica com "O Agente Secreto" se mostra realmente especial desde que a Fipresci premiou a produção em Cannes. Publicações de peso vêm ranqueando o filme em seleções de melhores de 2025. Para citar algumas: The Hollywood Reporter (primeiro lugar), Cahiers du Cinéma (quarto), BBC (sexto) e The New York Times (oitavo).

Entre as premiações de diversas associações de críticos norte-americanos que amaram o filme, vale destacar as de Nova York (NYFCC), em que "O Agente Secreto" foi o mais lembrado ao lado de "Uma Batalha Após a Outra", longa de repercussão positiva quase unânime em 2025, e Los Angeles (Lafca). Em ambas, eleito o melhor longa em língua estrangeira do ano.

Ainda apareceu no top 5 do National Board of Review (NBR), associação nacional de críticos sediada em Nova York, e recebeu duas indicações (melhor filme em língua estrangeira e melhor ator) ao Critics' Choice, premiação mais pop da crítica nos EUA – cerimônia será em 4 de janeiro.

Cena de "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes
Cena de "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes

Estilos de um de outro também não poderiam ser mais distintos. Enquanto "Ainda Estou Aqui" se desenrola como um drama baseado em fatos organizado numa narrativa tradicional, "O Agente Secreto" desenvolve alguns de seus temas centrais – como apagamento histórico – na forma de um thriller paranoico disposto a flertar com gêneros e temperamentos diversos e a se filiar diretamente ao visual inconfundível do cinema dos anos 1970 – não por acaso, década famosa por tantos thrillers paranoicos.

Dois prêmios consecutivos para filmes do mesmo país? O que diz a história do Oscar

Não é incomum um país ter indicações ao Oscar de melhor filme internacional – até 2020, categoria era chamada de melhor filme em língua estrangeira – em anos consecutivos.

Já aconteceu com o Brasil, por sinal: em 1997 ("O que é Isso, Companheiro?") e 1998 ("Central do Brasil"). Pouco antes, em 1995, "O Quatrilho" encerrou décadas de "jejum" desde a primeira indicação, com o clássico "O Pagador de Promessas" (1962), único filme nacional vencedor da Palma de Ouro, prêmio máximo de Cannes. Quinta indicação e prêmio vieram com "Ainda Estou Aqui".

"O Agente Secreto" venceu dois prêmios no Festival de Cannes | Divulgação/Vitrine Filmes
"O Agente Secreto" venceu dois prêmios no Festival de Cannes | Divulgação/Vitrine Filmes

Ganhar duas vezes seguidas, porém, é bem mais raro e não acontece há quase 40 anos. Entre 1948 e 1956, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dava um prêmio especial ou honorário ao melhor filme estrangeiro lançado nos EUA, a Itália venceu em 1950, com "Ladrões de Bicicleta", e 1951, com "Três Dias de Amor", na única ocasião em que um longa representou dois países – coprodução com a França; e Japão conquistou em 1955 ("Portal do Inferno") e 1956 ("Samurai: O Guerreiro Dominante").

O Oscar passou a premiar produções realizadas fora dos EUA em categoria específica a partir de 1957, já com "bicampeonato" do italiano Federico Fellini: "A Estrada Vida" naquele ano e "Noites de Cabíria" em 1958. Dobradinhas voltaram a agraciar Itália e França, maiores vencedores da categoria – 14 e 12 estatuetas, respectivamente –, nas décadas de 1950, 1960 e 1970 (veja lista mais abaixo).

Detalhe: só europeus conseguiram esse feito. Franceses e italianos à parte, Suécia (1961 e 1962) e Dinamarca (1988 e 1989) ganharam por dois anos consecutivos. Japão (5) é o maior vencedor não europeu. Nas Américas, Argentina lidera como nação com mais prêmios (2).

Países vencedores do Oscar de melhor internacional em anos consecutivos (desde criação da categoria):

França

1959 – "Meu Tio", de Jacques Tati

1960 – "Orfeu Negro", de Marcel Camus

1973 – "O Discreto Charme da Burguesia", de Luis Buñuel

1974 – "A Noite Americana", de François Truffaut

1978 – "Madame Rosa - A Vida à Sua Frente", de Moshé Mizrahi

1979 – "Preparem seus Lenços", de Bertrand Blier

Itália

1957 – "A Estrada da Vida", de Federico Fellini

1958 – "Noites de Cabíria", de Fellini

1964 – "8½", de Fellini

1965 – "Ontem, Hoje e Amanhã", de Vittorio de Sica

1971 – "Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", de Elio Petri

1972 – "O Jardim dos Finzi-Contini", de De Sica

Dinamarca

1988 – "A Festa de Babette", de Gabriel Axel

1989 – "Pelle, o Conquistador", de Bille August

Suécia

1961 – "A Fonte da Donzela", de Ingmar Bergman

1962 – "Através de um Espelho", de Bergman

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