Cultura

"O Agente Secreto": quais as chances de prêmio para o filme brasileiro em Cannes?

Cerimônia de entrega da Palma de Ouro e de outros troféus é neste sábado (24); longa com Wagner Moura ganhou elogios da crítica

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Felipe Moraes
24/05/2025, 12:39 • Atualizado em 24/05/2025, 15:48
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Wagner Moura em "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes

Wagner Moura em "O Agente Secreto" | Divulgação/Vitrine Filmes

Quase três meses depois da consagração de "Ainda Estou Aqui" com Oscar inédito de melhor filme internacional, o cinema brasileiro volta as atenções para "O Agente Secreto". Dirigido por Kleber Mendonça Filho ("Bacurau") e estrelado por Wagner Moura, o longa tem boas chances de prêmio no prestigiado Festival de Cannes, cuja 78ª edição se encerra neste sábado (24), com entrega da Palma de Ouro e de outros troféus.

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A exemplo do longa de Walter Salles, "O Agente Secreto" se passa na ditadura militar. Ambientada no fim dos anos 1970, a história acompanha Marcelo (Moura), especialista em tecnologia que retorna à terra natal, Recife, em busca de tranquilidade em meio ao caos político e social do país.

Nomes como Maria Fernanda Cândido ("O Traidor"), Gabriel Leone ("Eduardo e Mônica"), Isabél Zuaa ("As Boas Maneiras"), Hermila Guedes ("O Céu de Suely") e o veterano alemão Udo Kier, que trabalhou com Kleber em "Bacurau" (2019), completam o farto elenco.

Brasil em Cannes

Se o Brasil levou anos para finalmente abocanhar estatueta no Oscar, em Cannes a história é diferente. O cinema nacional faturou a Palma de Ouro, prêmio máximo, apenas uma vez, com "O Pagador de Promessas" (1962), de Anselmo Duarte.

Por outro lado, acumulou uma série de troféus importantes em diferentes edições. Em melhor atriz, por exemplo, foram duas vezes: Fernanda Torres ("Eu Sei que Vou te Amar", 1986), estrela de "Ainda Estou Aqui", e Sandra Corveloni ("Linha de Passe", 2008).

Glauber Rocha, nome histórico do Cinema Novo, ganhou melhor direção por "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" (1969), também conhecido fora do Brasil como "Antonio das Mortes".

E o próprio Kleber Mendonça Filho saiu do festival com prêmio do júri por "Bacurau" (2019), trabalho codirigido por Juliano Dornelles. Por sinal, também naquela edição, Karim Aïnouz, cujo "Motel Destino" (2024) concorreu à Palma ano passado, foi eleito vencedor da mostra paralela mais importante do evento, Um Certo Olhar (Un Certain Regard), por "A Vida Invisível" (2019).

Histórico de Kleber

Aos 56 anos, o pernambucano Kleber Mendonça Filho figura como um dos diretores mais reconhecidos do cinema nacional aqui e fora do país. Jornalista de formação, cobriu Cannes várias vezes na função de crítico e repórter. Tanto que seu primeiro longa, o documentário "Crítico" (2008), reúne dezenas de entrevistas com gente do cinema no Brasil e no exterior, incluindo, claro, depoimentos coletados no festival francês.

Dono de extenso currículo de curtas-metragens premiados e cultuados, como "Recife Frio" (2009), Kleber começou a ganhar tração internacional a partir de "O Som ao Redor" (2012). "Aquarius" (2016), protagonizado por Sônia Braga ("A Dama do Lotação"), concorreu à Palma e fez burburinho durante processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT), com diretor e equipe protestando a favor da ex-presidente no tapete vermelho.

Depois, vieram o já citado prêmio do júri para "Bacurau", que articula vários gêneros (faroeste, ação, terror e ficção científica) para comentar tensões regionais brasileiras, e o documentário pessoal e cinéfilo "Retratos Fantasmas" (2023), que não concorreu à Palma, mas também foi exibido em Cannes.

Por que é difícil prever prêmio em Cannes?

Bastante ativo nas redes sociais, Kleber postou algumas reações da crítica a "O Agente Secreto" ao longo dos últimos dias. Peter Bradshaw, do jornal The Guardian, deu cinco estrelas, chamando filme de "brilhante". Nicholas Barber, da BBC, falou que o "vibrante thriller político" pode até ser candidato a Oscar.

Mas ser bem recebido pela crítica não é garantia de nada. Prêmios de festivais são decididos por júris, colegiados que variam em cada edição. O site Screen Daily lembrou que há quatro anos, por exemplo, "Titane", de Julia Ducournau, sofreu acolhida pouco calorosa da imprensa e, mesmo assim, ganhou a Palma.

Em 2025, a grande intérprete francesa Juliette Binoche ("Cópia Fiel") chefia o júri, formado por artistas como o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo ("Certo Agora, Errado Antes") e os atores Jeremy Strong ("Succession") e Halle Berry (Oscar por "A Última Ceia").

Apostas sobre quem vai levar o prêmio máximo variam. "It Was Just an Accident", do cultuado iraniano Jafar Panahi ("Isto Não É um Filme"), e "Sentimental Value", de Joachim Trier ("A Pior Pessoa do Mundo"), têm aparecido com destaque em previsões.

A Variety publicou que "O Agente Secreto" pode sair da cerimônia com prêmio especial do júri, mas não descartou Palma de Ouro. Bradshaw, de novo ele, foi mais otimista em prévia no Guardian: afirmou que o filme merece prêmio máximo.

Distribuição "premiada"

Ainda sem data de estreia divulgada, "O Agente Secreto" já tem distribuição garantida no Brasil, pela Vitrine Filmes. Lá fora também.

Mubi, plataforma de streaming de filmes clássicos e cult, comprou direitos de exibição para Reino Unido, Irlanda, América Latina, com exceção do Brasil, e Índia. Nos Estados Unidos, mercado sempre de peso para pretensões internacionais de qualquer produção, será lançado pela Neon.

Não é qualquer selo. Os últimos quatro ganhadores da Palma de Ouro foram distribuídos pela Neon: "Parasita" (2019), "Titane" (2021), "Triângulo da Tristeza" (2022), "Anatomia de uma Queda" (2023) e "Anora" (2024) – não houve festival no formato tradicional em 2020, por causa da pandemia de covid-19.

Quer mais um dado animador? "Parasita", do sul-coreano Bong Joon-ho ("O Hospedeiro"), e "Anora", de Sean Baker ("Projeto Flórida"), dominaram o Oscar meses depois da glória em Cannes.

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