Aniversário de São Paulo: cidade reafirma seu papel como cenário do cinema brasileiro
Entre contradições e afetos, a maior cidade do país inspira filmes, histórias de amor e narrativas que atravessam gerações.

Simone Queiroz
Asfalto, concreto, carros, gente, muita gente. Amada por uns, rejeitada por outros e considerada cinematográfica por muitos, São Paulo completa 472 anos reafirmando seu papel como protagonista da vida cultural brasileira.
A maior e mais rica cidade do país também é um dos principais cenários do cinema nacional e internacional, capaz de acolher histórias de amor, luta, violência e sonhos.
Uma metrópole de contrastes que vira cenário
São Paulo carrega contradições que saltam aos olhos: é a cidade dos arranha-céus e da gastronomia premiada, mas também a que concentra a maior população em situação de rua do país.
Convive com congestionamentos históricos, problemas de segurança e desigualdade social — e, justamente por isso, se transforma em um cenário potente para o cinema.
A relação entre São Paulo e o cinema atravessa décadas. O Minhocão, por exemplo, tornou-se quase um personagem em Terra Estrangeira, de Walter Salles, estrelado por Fernanda Torres.
O bairro do Bom Retiro serve de pano de fundo para O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, que acompanha a infância de Mauro durante a ditadura militar. Já São Paulo Sociedade Anônima, de Luiz Sérgio Person, retrata a cidade como espaço de encontros e desencontros.
Em Pixote, a capital aparece como palco da discussão sobre menores infratores. E em Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meirelles, São Paulo ganhou projeção internacional na adaptação do livro de José Saramago, com a atriz Julianne Moore no elenco.
Mais recentemente, a cidade aparece em produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, estrelado por Wagner Moura, reforçando sua presença constante nas telas.
Pinheiros vira set de filmagem internacional
Na zona oeste da capital, um bar de Pinheiros virou cenário para o filme Isabel, dirigido por Gabe Klinger, selecionado para o Festival de Cinema de Berlim e com estreia prevista para o fim do ano.
Grande parte das cenas foi gravada nas ruas do bairro, cercadas por prédios modernistas. Para o diretor, a cidade é um espaço democrático, onde a vida acontece sem interrupção.
“São histórias de pessoas que lutam por uma vida digna e sonham com possibilidades. Mostrar São Paulo é também revelar as contradições da classe média brasileira”, afirmou Klinger.
A cidade que nunca para — nem nas filmagens
Segundo o diretor, cerca de 95% do filme foi rodado nas ruas, sem interrupção do fluxo de pedestres e veículos. Motoboys, carros e pessoas aparecem naturalmente em cena, refletindo o caos organizado da cidade.
“São Paulo não é uma cidade bonita no senso convencional. O desafio é encontrar a beleza dela. E isso exige olhar com atenção”, disse.
Em quase uma década, São Paulo foi cenário de 8.451 obras, entre novelas, documentários e filmes, somando mais de 25 mil locações. O protagonismo rendeu à capital o título de Cidade Criativa do Cinema, concedido pela Unesco.
Nenhuma história sobre São Paulo se sustenta sem seus moradores. Como Renato e Rosemeire Damico, casados há mais de 60 anos, que construíram uma vida juntos na cidade.
“Foi paixão à primeira vista. São Paulo é cultura, encontros, cinemas. No tempo em que ir ao cinema era um grande acontecimento”, lembra Renato.
Para Lucas Pereira, a cidade é também sinônimo de trabalho e oportunidades. Ele divide a rotina entre a marcenaria, montagem de estandes e entregas.
“Só não trabalha quem não quer. São Paulo tem oportunidade até para quem anda de bicicleta”, afirma.









