Tecnologia ajuda a encontrar desaparecidos e reacende esperança de famílias após décadas
Cruzamento de dados, drones e reconhecimento facial ampliam as chances de reencontro e ajudam a reduzir a dor da incerteza
Simone Queiroz
O cruzamento de dados de diferentes bancos é apenas uma das tecnologias disponíveis e capazes de abreviar o sofrimento de quem procura por um desaparecido.
Jovita Belfort é uma mãe que há 22 anos tem o coração despedaçado pela falta de informação do paradeiro da filha. Uma dor que só as mães que perdem os filhos são capazes de traduzir.
"Ninguém pode esquecer um pedaço que nasceu de mim, é como se arrancassem um braço ou uma perna, então todos os dias eu acordo na esperança de uma resposta, todos os dias, nesses 22 anos. Não tem um dia que eu não levante da cama e pense: será que é hoje? É hoje o dia da resposta."
Priscila Belfort desapareceu em 9 de janeiro de 2004, aos 29 anos, quando saiu do trabalho para almoçar, no Rio de Janeiro. Apesar da mobilização que a família conseguiu, surgiram inúmeras informações que nunca se confirmaram. O desaparecimento de Priscila ainda é um mistério.
"Mais um dia que eu não tenho uma resposta, que eu não sei onde ela está, se ela tá viva, se ela tá morta, se ela tá bem, se ela tá sofrendo, se ela tá sendo abusada, se ela tem comida, se ela tem papelão pra dormir na rua."
Se Priscila tivesse desaparecido hoje, as chances de ser encontrada seriam maiores, graças à evolução tecnológica a serviço da polícia, da Justiça e até dos bombeiros.
Um exemplo é o drone com sensores de calor que identificam a presença humana mesmo em áreas de difícil acesso. Foi graças a ele que bombeiros do Paraná localizaram um homem de 50 anos perdido em uma mata no noroeste do estado. A câmera acoplada ao drone captou calor em cima de uma árvore. Era ele. A localização aconteceu em três horas.
O Cadastro Nacional de Desaparecidos e vários outros bancos de dados é um avanço. Na cidade de São Paulo, essas informações conversam com outros cadastros, esclarece Darko Hunter, coordenador da Política Municipal de Pessoas Desaparecidas.
"Familiares e delegacias, Ministério Público, encaminham informações de que aquela pessoa está desaparecida. Com esses dados, verificamos se, nos equipamentos da Prefeitura de São Paulo, na saúde, assistência social, há a informação de que aquela pessoa esteja ou esteve naquela unidade."
Foi graças a esse cruzamento de dados que uma separação de meio século chegou ao fim. Dona Helena Ferreira Damasceno queria muito reencontrar uma irmã, Lindaura Ferreira Damasceno, que não via há 50 anos. Helena está em Montes Claros, Minas Gerais. Lindaura está em São Paulo.
Foi Helena quem pediu à família que procurasse Lindaura. Em dois dias, apenas dois dias, a Secretaria de Direitos Humanos encontrou um registro de Lindaura em uma UPA paulistana.
Outro recurso que ajuda a reconhecer alguém que desapareceu há muito tempo é o envelhecimento de imagens. É o que vemos nas caixas de leite da marca Piracanjuba, que circulam pelo país, levando rostos de antes e uma projeção de como provavelmente estão agora. O artista digital Hidreley Diao realiza esse trabalho de envelhecimento as fotos desde o início do projeto
"Com a ajuda desse software, eu incluo o que eu preciso, eu crio uma linha de expressão, um cabelo grisalho, dou uma engordada no rosto ou uma emagrecida."
Em quase um ano e meio, 30 pessoas já foram encontradas a partir das fotografias atualizadas.
Câmeras apontadas para todas as direções
O tempo todo há câmeras em nossa direção. É assim em inúmeras cidades brasileiras. Essa vigilância que registra acidentes, crimes e identifica criminosos também está a serviço dos reencontros.
Em um ano e três meses, na cidade de São Paulo, 159 pessoas que estavam desaparecidas entraram no foco de uma câmera.
É o Smart Sampa, que integra 40 mil câmeras. É o maior sistema de monitoramento da América Latina. Conversamos com o Secretário Municipal de Segurança Urbana, Orlando Morando Jr.
"Todas as 40 mil câmeras espalhadas na cidade de São Paulo fazem a identificação facial. Essa face vem para dentro do Smart Sampa, onde, em uma plataforma, através da inteligência artificial, em 8 segundos, eu tenho um reconhecimento que me dá uma similaridade de confiança de mais de 92%. Em seguida, mandamos a imagem de como ele passou na câmera da Guarda Civil Metropolitana para a viatura que está mais próxima. A nossa média entre identificar uma pessoa e abordá-la é em menos de 9 minutos."
A família de Etenilson dos Santos, de 60 anos, morador de Guarulhos, na Grande São Paulo, viveu a alegria de encontrá-lo por meio de câmeras. Ele foi localizado em um terminal que reúne ônibus, trem e metrô, na capital paulista. Etenilson estava descendo uma escadaria do terminal quando sua imagem passou por uma das cameras.
Ele saiu de casa no dia 30 de dezembro e ficou 35 dias perdido. Após o reconhecimento, foi levado à Delegacia de Desaparecidos. A sobrinha Fernanda Nogueira descreve o momento:
"Um guarda municipal mandou foto dele com um copo de café na mão.Ele estava todo sujo, com dificuldade pra andar, as pernas inchadas porque andou muito. O que me deixou perplexa é que, na foto que a gente mandou, ele estava sem barba, rosto mais cheinho, e no dia que o Smart Sampa captou os traços faciais dele, ele estava bem magro, a barba bem longa."
São finais como esse que renovam a esperança, mesmo daqueles que seguem na luta por reencontrar vida, numa informação que seja, que poderá esclarecer um mistério.









