Greve na CPTM: o que ferroviários pedem e o que diz governo
Greve afeta as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade nesta terça (4); entenda as reivindicações dos ferroviários, a resposta do governo e o contexto da concessão

Entenda a greve na CPTM. | Divulgação/Governo de São Paulo -- Marcelo S. Camargo/Governo de SP
Os passageiros das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) enfrentam uma greve dos ferroviários nesta terça-feira (4). A paralisação foi aprovada em assembleia pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil e ocorre em meio ao processo de concessão das linhas à iniciativa privada.
O principal motivo apontado pela categoria é a ausência de uma garantia formal de manutenção dos empregos dos trabalhadores da CPTM após a transferência da operação das linhas.
Já a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirma que apresentou compromissos concretos durante as negociações e considera que a greve prejudica milhares de passageiros.
O que os ferroviários pedem
Os ferroviários dizem que a principal preocupação da categoria é o futuro dos cerca de 4.700 empregados da CPTM, já que apenas uma parcela dos trabalhadores das linhas concedidas foi contratada pela Trivia Trens. Enquanto isso, a estatal conduz um programa de desligamento voluntário e de reestruturação do quadro de funcionários.
A concessionária, por sua vez, afirma ter cerca de 2.400 colaboradores, sendo aproximadamente 2.100 dedicados à operação e manutenção. Desse grupo, cerca de 11% são ex-funcionários da CPTM, enquanto os demais foram contratados pela empresa.
A greve foi mantida porque, mesmo após reunião realizada com representantes do governo estadual, os ferroviários dizem que "não houve garantia formal de manutenção dos empregos dos trabalhadores da CPTM diante do processo de concessão das linhas ferroviárias".
A entidade afirma que buscou negociar antes da paralisação, mas decidiu iniciar a greve por tempo indeterminado, ainda sem previsão para acabar, após considerar insuficientes as propostas apresentadas.
Entre as principais reivindicações estão:
- garantia formal da manutenção dos postos de trabalho dos ferroviários da CPTM;
- cancelamento da concessão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade à concessionária Trivia Trens;
- retorno definitivo da operação das linhas à CPTM;
- apoio ao Projeto de Lei 730/2025, em tramitação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), relacionado aos trabalhadores da companhia.
Em nota, o sindicato afirmou que a paralisação é "a última medida" adotada pela categoria para defender os empregos, a valorização profissional e a continuidade de um serviço ferroviário de qualidade.
"Sem esse compromisso formal, a categoria decidiu manter a greve como forma de defender os postos de trabalho e o futuro de milhares de famílias. Desde o início das discussões, o Sindicato buscou todas as alternativas de negociação, apresentando propostas e demonstrando disposição para o diálogo. No entanto, até o momento, não houve compromisso formal que assegure o futuro dos milhares de ferroviários e de suas famílias", disseram os trabalhores.
A entidade também declarou permanecer aberta ao diálogo e disse esperar que o governo apresente uma proposta concreta para encerrar o movimento.
O que diz o Governo de São Paulo
O Governo de São Paulo e a CPTM lamentaram a manutenção da greve e afirmaram que, durante a reunião realizada na segunda-feira (3), apresentaram "compromissos concretos" e demonstraram disposição para avançar nas negociações.
Segundo o Estado, foi reafirmado o compromisso com a preservação dos postos de trabalho e com a análise de demandas apresentadas pela categoria, entre elas:
- absorção de empregados por outros órgãos públicos estaduais;
- discussão sobre a incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM;
- inclusão dos trabalhadores no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), sistema de assistência à saúde destinado aos servidores públicos.
Na avaliação do governo, a paralisação não contribui para a negociação e acaba prejudicando trabalhadores, estudantes e demais passageiros que dependem diariamente do sistema ferroviário.
Diante da greve, a CPTM acionou o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que determinou a manutenção de 80% do efetivo nos horários de pico e de 60% nos demais períodos. Em caso de descumprimento da decisão, foi fixada multa diária de R$ 400 mil ao sindicato.
Como está a operação das linhas
Na manhã desta terça-feira:
- a Linha 11-Coral opera parcialmente entre Palmeiras-Barra Funda e Guaianases;
- a Linha 12-Safira funciona entre Brás e Engenheiro Goulart;
- a Linha 13-Jade e o Serviço Expresso Aeroporto permanecem sem operação;
- Linhas 7-Rubi, 8-Diamante, 9-Esmeralda, que são concedidas, e a 10-Turquesa operam normalmente;
- Metrô antecipou a abertura das linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata para as 4h, reforçou a circulação de trens na Linha 3-Vermelha e disponibilizou funcionários extras em estações estratégicas.
- Também foi acionado o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese), com 128 ônibus para atender passageiros das linhas afetadas.
- A Prefeitura de São Paulo suspendeu o Rodízio Municipal de Veículos durante toda esta terça-feira para minimizar os impactos na mobilidade.

Entenda a privatização das linhas
As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram concedidas pelo Governo de São Paulo à iniciativa privada após leilão realizado em março de 2025.
O grupo Comporte Participações, controlador da Trivia Trens e da TIC Trens, venceu a disputa ao assumir o compromisso de investir R$ 14,3 bilhões na modernização do sistema, incluindo novas estações, reformas, melhorias na infraestrutura e redução do intervalo entre os trens.
A operação assistida começou em maio. Nesse período, a transferência da operação ocorreu de forma gradual: inicialmente, funcionários da CPTM conduziam os trens enquanto equipes da concessionária acompanhavam os procedimentos; posteriormente, a Trivia Trens passou a operar as linhas sob supervisão da estatal.
A concessionária assumiu integralmente a operação em 21 de julho. No entanto, nos dias seguintes, a Trivia Trens enfrentou uma sequência de falhas operacionais.
Em 23 de julho, um curto-circuito provocou um incêndio em um trem da Linha 12-Safira, interrompendo a circulação das linhas 11, 12 e 13.
Após os problemas, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) determinou que a CPTM reassumisse temporariamente a operação das três linhas e do Serviço Expresso Aeroporto por até 90 dias, enquanto a concessionária realiza ajustes operacionais e passa por acompanhamento dos órgãos responsáveis.
Tarcísio de Freitas afirmou, na ocasião, que a Trivia Trens poderá perder a concessão caso não cumpra as obrigações previstas em contrato e que o Estado poderá aplicar a caducidade da concessão se as falhas persistirem.
A crise também passou a ser analisada por órgãos de controle. O Ministério Público de São Paulo recebeu representações pedindo investigação sobre a concessão, enquanto o Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) determinou que o governo estadual e a concessionária apresentem esclarecimentos sobre as falhas registradas desde o início da operação exclusiva das linhas.















