Brasil

Crime de racismo: em dez anos, registros de ocorrência aumentam 740% em SP

Levantamento exclusivo do SBT News aponta que apenas um em cada seis boletins resultam na abertura de uma investigação

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Derick Toda
20/11/2024, 11:59 • Atualizado em 20/11/2024, 11:59
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Denúncias de racismo saltam em dez anos | Freepik

Denúncias de racismo saltam em dez anos | Freepik

Em dez anos, o número de boletins de ocorrência registrados pelo crime de racismo aumentou 741%, no estado de São Paulo. Em 2013, houve 255 registros em delegacias do estado. Em 2023, foram 1890.

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Os dados são de um levantamento exclusivo do SBT News realizado por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). O racismo ocorre quando há discriminação ou preconceito por causa da cor da pele, como quando uma pessoa negra é proibida de acessar um local ou não consegue um trabalho. O crime de injúria racial é quando alguém é ofendido por causa de sua cor.

Para Wescrey Portes, pesquisador e sociólogo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o aumento do registro dos boletins não significa necessariamente um salto da violência, mas o crescimento da necessidade da sociedade em denunciar as discriminações raciais e não tolerar esse tipo de discriminação.

De acordo com o levantamento, entre 2013 e março de 2022, de 3595 boletins de ocorrência, apenas 613 deram início a uma investigação. Isso significa que, a cada seis denúncias registradas, apenas uma resulta em um inquérito policial. A partir de abril de 2022, a Secretaria de Segurança Pública deixou de informar os desdobramentos dos boletins.

Recusa da denúncia

Andreia Aparecida e Paula Aparecida | Reprodução/arquivo pessoal
Andreia Aparecida e Paula Aparecida | Reprodução/arquivo pessoal

Na visão do especialista, mesmo com o aumento dos registros, os crimes de racismo ainda são subnotificados, o que faz com que a luta por uma sociedade igualitária esteja longe de chegar ao fim.

É o que denuncia a vítima Andreia Aparecida. Mãe de Paula Aparecida, uma menina negra de nove anos que precisa de tratamento para uma síndrome genética. Andreia levava a filha para uma clínica conveniada na Praia Grande, litoral de São Paulo.

Após meses de tratamento, Andreia foi barrada na recepção do local e, quando aguardava o início da terapia de Paulinha, recebeu a informação de que "a filha estava sendo desligada da clínica".

Segundo a mãe, a decisão da instituição foi "por puro racismo". Ela conta que todas as crianças eram alimentandas pelos profissionais da instituição, mas a comida de Paulinha era obrigatoriamente dada pela mãe. Ela era a única criança negra no espaço e a única que a clínica não tirava fotos em eventos, entre outras discriminações.

Andreia questionou o motivo da decisão e a clínica argumentou que o caso de "Paula era delicado e a diretoria achou melhor fazer o desligamento e, que se mãe quisesse, poderia chamar a ouvidoria", segundo documento entregue à mãe.

Andreia acionou a Polícia Militar e depois foi à delegacia, mas em ambas situações a autoridade não quis dar continuidade na ocorrência.

Andreia Aparecida, em frente a delegacia de Praia Grande, após delegado recusar abertura do boletim de ocorrência | Reprodução/arquivo pessoal
Andreia Aparecida, em frente a delegacia de Praia Grande, após delegado recusar abertura do boletim de ocorrência | Reprodução/arquivo pessoal

Outro lado

O SBT News pediu um posicionamento para a Clínica Almai, mas não teve resposta. A Secretaria de Segurança Pública contestou os números da reportagem e informou que dispõe da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, especializada no combate a crimes de intolerância.

"Sobre a Decradi: unidade especializada na investigação e combate a crimes de intolerância, abrangendo diversas naturezas, incluindo racismo, xenofobia e discriminação contra a população LGBTQIAPN+. Além de suas atividades investigativas, também oferece pareceres consultivos em casos de eventuais alterações legislativas que visem melhorar o atendimento às vítimas e criar um ambiente mais acolhedor dentro da polícia. Embora tenha atuação concentrada na capital paulista, a Decradi não é a única delegacia apta a apurar delitos desta natureza. Delitos dessa natureza podem ser registrados em qualquer delegacia territorial ou por meio da Delegacia Eletrônica".

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