Brasil

Crise Yanomami: um genocídio causado pela ganância

Mortes e doenças dos povos indígenas têm relação direta com o garimpo e o desmatamento

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Pablo Valler
30/01/2023, 18:59 • Atualizado em 31/10/2023, 15:28
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Povos indígenas

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Muito se fala em como o desmatamento, a ocupação irregular da terra e o garimpo ilegal estão destruindo as florestas brasileiras. É a ganância dos exploradores que avançam sobre a Amazônia e a ineficiência do Estado em coibir essas ações estão entre as principais causas dos males que, agora, dizima os mais antigos habitantes da região: os indígenas.

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Há mais de 500 anos, os povos originários perdem espaços e vidas. No século XVI, eram 3,5 milhões. Atualmente, são menos de 900 mil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse longo genocídio acontece por diferentes motivos. Começou com as doenças trazidas do velho continente, passou pela escravidão e segue, até hoje, com as batalhas por terras, madeiras e minérios.

"O garimpo se confunde com a fundação do Brasil. Sempre foi um problema, mas a atual aceleração nos preocupa", alerta Cézar Diniz, coordenador técnico de mapeamento de Mineração do MapBiomas.

Artesanal, o trabalho feito por homens humildes e com poucas oportunidades oferece condições insalubres e paga mal. Só no ano passado, o garimpo retirou 121 toneladas de ouro do solo nacional. De acordo com estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 7% ilegalmente e mais 25%, com potencial ilegal.

Tais números cresceram, em média, cerca de 155% em um ano - influenciados pelo preço do metal. A alta é de 320%, em 10 anos, de acordo com o Banco Central. No período, também houve o aumento de 495% da mineração em terras indígenas, revela o MapBiomas. A mesma pesquisa mostra que 93,7% dos garimpeiros estão na Amazônia.

Quanto mais o tempo passa, pior fica para fiscalizar e impedir a ilegalidade, avalia Juliana Siqueira, gerente de projetos do Instituto Escolhas, que analisa os impactos da exploração do ouro. "Não são mais garimpeiros com barcos e peneiras. Hoje em dia, é tudo muito bem equipado, a ponto de não ter distinção com a operação industrial e legal. Ambos tem a mesma escala."

Tragédia
Em torno de 700 indígenas Yanomami estão sob cuidados médicos em casas de apoio, a maioria improvisada e montada às pressas pelo Ministério da Saúde. A ministra Nísia Trindade visitou a região, nos últimos dias, e disse ter se espantado com a realidade. "Grande parte da razão que levou à tragédia sanitária revelada entre os povos dessa etnia está no garimpo ilegal", declarou, após as vistorias.

A tragédia à qual ela se refere trata do que aconteceu antes mesmo do problema vir à tona. Em 2022, mais de 11,5 mil pessoas pegaram malária. E o pior, 570 crianças morreram por desnutrição nos últimos quatro anos.

A terra indígena Yanomami ocupa parte dos estados de Roraima e Amazonas e da Venezuela. São 192 mil km² difíceis de fiscalizar, que ficam à mercê da criminalidade e do caos ambiental e sanitário.

Plano
Para atacar a situação, o governo federal envolveu vários ministérios e criou o Comitê de Coordenação Nacional. O Ministério dos Povos Indígenas investiga, com apoio de órgãos de segurança, se existem mais casos semelhantes.

O Ministério da Saúde declarou emergência e montou a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), que tem inscrições abertas para voluntários. Já o Ministério de Meio Ambiente pretende reservar mais áreas para proteção, uma delas deve ter o tamanho do estado da Bahia, conforme prometeu a ministra Marina Silva.

A demarcação de áreas de proteção e de terras indígenas auxiliam no combate ao crime, assim como outros mecanismos, defende o pesquisador Carlos Nobre. "Há dez anos, tivemos um eficaz combate à ilegalidade na Amazônia. Foi um fator importante, somado a outros dois: a demarcação de terras indígenas e a criação de áreas protegidas", diz.

"Temos como combater o crime, porque o desmatamento e a degradação estão registradas por modernas tecnologias baseadas em satélite. Esses dados são fornecidos às agências de controle legal, assim como à polícia e ao ministério público. Então, é possível retomar", conclui Carlos Nobre.

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