Política

Diplomatas temem volta de Itamaraty ideológico com Flávio

Integrantes de carreira citam gestão Ernesto Araújo e temem que eventual nomeação de Eduardo Bolsonaro retome embates com a China e subserviência aos EUA

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Túlio Amâncio
Palácio do Itamaraty, em Brasília | Divulgação/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Palácio do Itamaraty, em Brasília | Divulgação/Marcelo Camargo/Agência Brasil

Diplomatas brasileiros veem com preocupação a possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e temem que o Itamaraty volte a adotar uma política externa marcada pelo componente ideológico, nos moldes do início do governo Jair Bolsonaro.

Integrantes da carreira ouvidos pela coluna apontam como principal motivo de apreensão uma eventual indicação de Eduardo Bolsonaro para o Ministério das Relações Exteriores. Na avaliação dessas fontes, a chegada do irmão de Flávio ao comando da pasta poderia representar uma retomada da linha adotada durante a gestão de Ernesto Araújo, chanceler entre 2019 e 2021.

Entre os principais receios citados estão uma nova escalada de embates com a China, maior alinhamento político com os Estados Unidos e o que diplomatas classificam como risco de subserviência da política externa brasileira aos interesses de Washington.

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Os diplomatas ouvidos pediram para não ser identificados por ocuparem cargos no serviço exterior.

O receio aumentou diante das declarações recentes de Eduardo sobre os rumos que a política externa poderia tomar em um eventual governo do irmão. O ex-deputado já falou em promover uma "faxina" no Itamaraty e fez críticas a integrantes da carreira que, na avaliação dele, atuaram contra o governo de Jair Bolsonaro.

As declarações foram interpretadas por integrantes da diplomacia como um sinal de que uma eventual gestão de Eduardo poderia promover mudanças que ultrapassariam a definição das prioridades da política externa e chegariam à própria estrutura da carreira.

Entre os diplomatas ouvidos pela coluna, a lembrança recorrente é a passagem de Ernesto Araújo pelo Ministério das Relações Exteriores.

Escolhido por Jair Bolsonaro para comandar o Itamaraty no início de seu governo, Araújo deixou o cargo em março de 2021, depois de pouco mais de dois anos à frente da pasta. Sua gestão foi marcada por uma forte aproximação com o então governo de Donald Trump e por atritos envolvendo China, meio ambiente e organismos multilaterais.

É justamente a possibilidade de retomada dessa linha que preocupa parte da carreira.

Os relatos ouvidos pela coluna não apontam resistência a uma mudança de orientação diplomática em si — prerrogativa de qualquer presidente eleito —, mas temor de que posições políticas e ideológicas voltem a influenciar a atuação internacional do país e decisões internas do Itamaraty.

China é um dos principais pontos de preocupação

A relação com a China aparece como um dos principais motivos de apreensão entre os diplomatas consultados.

Pequim é o principal parceiro comercial do Brasil, e a relação bilateral passou por momentos de tensão durante o governo Jair Bolsonaro, especialmente no período em que Ernesto Araújo comandou o Itamaraty.

Declarações de integrantes do governo e da família Bolsonaro provocaram reações da diplomacia chinesa e alimentaram embates públicos entre representantes dos dois países.

Na avaliação das fontes ouvidas pela coluna, uma nova escalada de confrontos políticos com Pequim poderia afetar uma relação considerada estratégica para os interesses econômicos brasileiros.

Os diplomatas também demonstram preocupação com a possibilidade de que o alinhamento com os Estados Unidos ultrapasse a aproximação natural entre os dois países e reduza a margem de autonomia do Brasil para manter relações simultaneamente com Washington, Pequim e outros centros de poder.

O temor é que o país volte a condicionar parte de suas posições internacionais às prioridades do governo americano, repetindo o alinhamento observado no início da gestão de Jair Bolsonaro.

Eduardo no Itamaraty

A possibilidade de Eduardo assumir o Ministério das Relações Exteriores já circulou no entorno de Flávio Bolsonaro durante a campanha.

O próprio Flávio chegou a admitir publicamente a hipótese de entregar o comando da diplomacia ao irmão. Posteriormente, diante de resistências à indicação, aliados passaram a mencionar outros nomes para a função.

Até agora, Flávio não anunciou quem escolheria para comandar o Itamaraty caso seja eleito.

Eduardo, por sua vez, intensificou manifestações públicas sobre como deveria funcionar a política externa em um eventual governo do irmão.

Além das críticas a diplomatas, ele defendeu medidas como a transferência da Embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e uma aproximação ainda maior com os Estados Unidos.

A possibilidade de Eduardo assumir o Itamaraty também gera preocupação pela influência que ele exerceu sobre a política externa durante o governo do pai.

Mesmo sem ocupar um cargo formal no Ministério das Relações Exteriores, Eduardo manteve interlocução direta com integrantes do governo Trump e tornou-se uma das principais vozes da família Bolsonaro em assuntos internacionais.

Gestão Ernesto Araújo é citada como precedente

A comparação feita pelos diplomatas com Ernesto Araújo está relacionada principalmente ao período inicial da política externa de Jair Bolsonaro.

Durante sua passagem pelo Itamaraty, Araújo defendeu uma aproximação política e ideológica com o governo Trump e adotou posições críticas ao globalismo e a organismos multilaterais.

A relação com a China também enfrentou episódios de tensão. Declarações de integrantes do governo e da família Bolsonaro provocaram atritos com Pequim em um momento em que o país já ocupava posição central no comércio exterior brasileiro.

Araújo acabou deixando o Ministério das Relações Exteriores em meio a pressões no Congresso e críticas sobre a condução da diplomacia brasileira durante a pandemia de Covid-19.

Depois de sua saída, o Itamaraty passou por uma mudança de estilo sob o comando de Carlos França. A política externa do governo Bolsonaro manteve suas prioridades, mas reduziu parte dos confrontos públicos que haviam caracterizado a primeira metade do mandato.

Para integrantes da carreira ouvidos pela coluna, uma eventual escolha de Eduardo seria interpretada como sinal de retorno à primeira fase da política externa de Jair Bolsonaro, e não ao período mais pragmático que veio posteriormente.

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