Flávio sofre 2º abalo com Michelle, e erros ficam expostos
Campanha do Senador foi pega de surpresa com caso Vorcaro e não conseguiu contornar crise com madrasta; aliados falam em risco de ele se inviabilizar


O senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) | Andressa Anholete/Agência Senado
O vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs o racha na família do ex-presidente da República representa o segundo grande abalo na pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e, mais do que isso, reforçou as dúvidas sobre a capacidade do senador de articular a própria campanha.
Nos bastidores, alguns dizem que o ato de Michelle, pessoa hoje mais próxima a Jair Bolsonaro, representa um desastre e um risco real de inviabilização da candidatura de Flávio.
Se os próprios aliados foram pegos de surpresa em 13 de maio quando veio a público um áudio revelando sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, agora o vídeo expõe o fato de que Flávio não conseguiu em sete meses contornar a crise com a madrasta.
Tendo se anunciado candidato à Presidência em 5 de dezembro com base em uma escolha que Jair Bolsonaro teria lhe transmitido na prisão, Flávio teve que, inicialmente, superar a impressão de que sua candidatura não passava de um “balão de ensaio”.
Na época o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) era o nome favorito do establishment político de direita para ser o nome do bolsonarismo à Presidência –e com Michelle de vice, como o próprio Jair Bolsonaro chegou a dizer a aliados em determinado período.
Após a vitória inicial de conseguir se consolidar, empatar nas pesquisas eleitorais com Lula (PT) e afastar a ameaça de perder a vaga para Tarcísio, Flávio sofreu o primeiro grande abalo com o caso Master.
Além de não ter preparado resposta nem ter alertado aliados para eventual revelação de suas relações com Vorcaro, Flávio negava qualquer contato com o banqueiro pivô da maior crise política do país e, mais do que isso, vinha usando redes sociais e eventos públicos para criticar e explorar eleitoralmente o caso, associando Vorcaro e o Master a Lula.
O áudio que expôs a mentira representou um abalo em sua candidatura –Lula voltou a abrir uma vantagem nas pesquisas eleitorais– e na credibilidade de suas palavras públicas e de suas conversas de bastidor.
Os vídeos em que Michelle o acusa de lhe destratar, humilhar e aplicar uma “punhalada” atingiram 5 milhões de visualizações na manhã desta quinta-feira (25) e representam um segundo grande abalo por diversos fatores.
Primeiro, a conhecida dificuldade do bolsonarismo no eleitorado feminino. De acordo com a última pesquisa do Datafolha, Lula lidera a simulação de segundo turno contra Flávio por 47% a 43% das intenções de voto. No público feminino, a vantagem do petista é de 52% a 37%.
Michelle também é um nome de prestígio no mundo evangélico, campo em que Flávio não tem penetração orgânica e em que perdeu terreno após as revelações com Vorcaro: a Genial/Quaest mostrou que o senador despencou de 61% para 52% das intenções de voto no segmento depois do episódio.
Mais dos que esses dois fatores, as complicações de Flávio crescem ainda pelo fato de Michelle ter acesso irrestrito a Jair Bolsonaro –o patriarca do clã e do bolsonarismo cumpre prisão domiciliar.
No vídeo ela fez questão de repetir diversas vezes que o ex-presidente compactua com suas ações e opiniões. Aliados dizem que ela não tomaria uma iniciativa desse porte sem respaldo de Jair Bolsonaro, o que, nesse caso, tornaria a situação de Flávio próxima de ficar insustentável.
Michelle Bolsonaro diz ter sido humilhada, maltratada e apunhalada pelo enteado. Flávio emerge na narrativa da madrasta como uma figura machista, ríspida e inconfiável.
A ex-primeira-dama afirmou ainda que o enteado visita a sua casa semanalmente e, se quisesse ter o seu apoio, já teria conversado com ela –o que não teria ocorrido nesses sete meses.
A divergência que teria servido de estopim para o rompimento entre os dois se deu no final de novembro, dias antes do lançamento da pré-candidatura de Flávio.
Michelle participou de um evento público no Ceará em que rejeitou a aliança do PL com Ciro Gomes e defendeu o apoio da direita a Eduardo Girão ao governo estadual.
Agora, ela indica que sua escolha da vereadora de Fortaleza Priscila Costa para uma vaga ao Senado está sendo rifada pelo partido para acomodar os interesses da composição com Ciro.
Na véspera do vídeo, Eduardo Bolsonaro voltou a defender a aliança e a dizer, nas redes sociais, que política se faz com inteligência e não “com o fígado”.
No vídeo, Michelle também critica, além de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, o deputado federal André Fernandes (PL-CE) e um núcleo bolsonarista dos Estados Unidos, onde, entre outros, se encontram Eduardo, o jornalista Paulo Figueiredo e o influenciador Allan dos Santos.
Após uma manifestação inicial de que nada o abalaria em dia de jogo da seleção, Flávio publicou texto ainda na noite desta quarta pedindo desculpas a Michelle, mas contradizendo os dois pontos principais de seu vídeo: negou qualquer comportamento agressivo ou desrespeitoso e afirmou ter ligado para ela pela manhã para convidá-la pessoalmente a uma reunião com lideranças femininas do PL, sem resposta.
Ele também ressaltou que todas as suas atitudes foram determinadas pelo pai.
Ou seja, no vídeo da ex-primeira-dama e na posterior resposta do pai, há uma disputa de narrativa sobre quem conta com mais respaldo de Jair Bolsonaro.























