Resenha: ‘Pragmata’ entrega uma das experiências mais sensíveis da Capcom
Nova aposta mistura ideias ousadas com narrativa sensível e prova que inovação ainda tem espaço na indústria


Vinícius Gobira
Existe um discurso recorrente quando se fala da indústria de games: falta coragem. Sequências previsíveis, remakes constantes e fórmulas recicladas dominam o mercado. Quando algo realmente novo aparece, a reação costuma vir acompanhada de desconfiança. Pragmata nasce exatamente nesse espaço: o da dúvida.
E talvez esse seja seu maior trunfo.
Depois de anos de silêncio e adiamentos, o novo projeto da Capcom chega como uma experiência difícil de rotular. Não é exatamente um blockbuster tradicional, mas também não é um experimento inacessível. É um jogo que tenta equilibrar inovação com apelo comercial, e, na maior parte do tempo, consegue.
Um gameplay que divide atenção e opiniões
No papel, Pragmata é um shooter em terceira pessoa. Na prática, é bem mais do que isso.
O combate gira em torno de uma ideia central: atirar só funciona depois de hackear. Enquanto Hugh segura as armas, Diana invade os sistemas dos inimigos por meio de uma espécie de quebra-cabeça em tempo real. O jogador precisa guiar um cursor por uma matriz, coletando bônus e evitando penalidades, tudo isso enquanto continua sendo atacado.
É um sistema criativo, diferente e, acima de tudo, funcional. Em poucos minutos, o que parecia confuso se torna natural.
O problema é que essa mesma mecânica, que impressiona no início, pouco evolui ao longo da campanha. Novos elementos surgem, como bônus de paralisia ou melhorias de dano, mas a estrutura base permanece praticamente intacta do começo ao fim. E como todo inimigo depende disso para ser derrotado, a repetição se torna inevitável.
Se você comprar a ideia, o jogo flui muito bem. Se não, dificilmente vai mudar de opinião no meio do caminho.
Entre a ação e o silêncio
Para não transformar o loop de combate em algo exaustivo, Pragmata aposta em pausas constantes. O Abrigo funciona como um hub seguro, onde é possível evoluir habilidades, revisar colecionáveis e interagir com Diana.
A estrutura lembra um “metroidvania contido”: áreas interligadas, possibilidade de backtracking, mas progressão linear. Você avança, derrota um chefe, retorna ao Abrigo e repete o ciclo.
Funciona bem, especialmente porque o jogo sabe dosar sua duração. Com cerca de 10 horas de campanha, dificilmente ele se estende além do necessário.
Visualmente, o uso da RE Engine reforça a sensação de isolamento e grandiosidade. Os cenários lunares são amplos, frios e frequentemente usados em enquadramentos que parecem calculados para impressionar.

Uma história menor e melhor do que parece
A premissa é simples: Hugh chega a uma estação lunar para investigar um novo material capaz de revolucionar a tecnologia. Tudo dá errado. No meio do caos, ele encontra Diana, uma androide com aparência infantil.
Juntos, eles tentam entender o que aconteceu e voltar para a Terra. A história, em si, não reinventa a ficção científica. Há elementos previsíveis, algumas reviravoltas esperadas e um pano de fundo corporativo já conhecido.
Diana é o coração do jogo. Mesmo sendo uma inteligência artificial avançada, sua visão sobre o mundo é ingênua, curiosa e, em muitos momentos, genuinamente humana. Hugh funciona como contraponto, sendo mais fechado, mais pragmático, mas gradualmente transformado por essa convivência.
Sem exageros ou apelos fáceis, Pragmata constrói uma relação que cresce de forma orgânica. E é justamente essa simplicidade que faz a narrativa funcionar.
Familiar, mas com identidade própria
Comparações são inevitáveis. Jogos como The Last of Us e God of War ajudaram a popularizar histórias centradas em relações parentais dentro de mundos hostis.
Pragmata claramente dialoga com esse conceito, mas evita seguir o mesmo caminho dramático. Aqui, não há excesso de tragédia ou peso constante. O jogo prefere momentos pequenos, conversas, silêncios, gestos.

Conteúdo, extras e o pós-créditos
Além da campanha, há uma boa quantidade de desafios opcionais, focados em testar o domínio do sistema de hack. Curiosamente, esses modos entregam mais dificuldade do que a própria história principal.
Também existem incentivos para revisitar áreas, coletar itens e desbloquear melhorias. Ainda assim, o fator replay depende muito do quanto o jogador se envolveu com o gameplay, já que ele pouco muda estruturalmente. A platina do jogo gira em torno de 30 a 40 horas, dependendo do seu ritmo de gameplay.
Conclusão: um jogo necessário
Pragmata é um jogo que tem uma das ideias mais criativas dos últimos anos. Ele pode não ser perfeito e em alguns momentos ter uma gameplay repetitiva. Mesmo assim, ele deixa marca.
Num momento em que a indústria prefere não arriscar, a Capcom aposta em algo novo. E só isso já faz diferença. Pragmata tem personalidade, tem identidade e, principalmente, tem algo a dizer.
E o que fica no final não tem muito a ver com mecânica ou sistema. Fica a Diana. Fica a relação construída aos poucos, sem forçar emoção. Ficam os pequenos momentos que o jogo sabe trabalhar muito bem.
Quando o jogo chega ao final, bate um sentimento diferente, simples e puro. Você termina a campanha com uma vontade inesperada, quase boba, mas muito sincera: a de ser pai de menina.









