Saúde

Paraguai vende cópias de canetas emagrecedoras; saiba riscos

Mercado paraguaio reúne ao menos seis fabricantes de tirzepatida com preços bem abaixo dos praticados no Brasil

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Foto: Reprodução | EMS

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Enquanto a Eli Lilly detém no Brasil a patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, ao menos seis grupos do Paraguai fabricam e comercializam versões próprias do medicamento de forma legal, com preços que podem ficar muito abaixo dos praticados no mercado brasileiro.

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A diferença entre os dois mercados está ligada ao princípio da territorialidade das patentes. Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a proteção concedida por uma patente é limitada aos países onde ela foi solicitada e concedida.

Uma empresa pode requerer patente apenas em alguns países e, ao obter a concessão, a proteção e exclusividade da farmacêutica sobre o medicamento vale apenas nestes países. Nos outros territórios, outras companhias locais podem produzir e vender sem que isso signifique infração da patente.

Mas atenção: quando esses medicamentos atravessam a fronteira para o Brasil sem o devido registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), passam a ser classificados legalmente como contrabando. A entidade sanitária brasileira alerta, ainda, para riscos de saúde em relação ao uso de remédios sem autorização.

Quem são as farmacêuticas que vendem tirzepatida no Paraguai

No Paraguai, a produção de medicamentos é fiscalizada pela Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria (Dinavisa). A fabricação de versões da tirzepatida está concentrada em pelo menos seis grupos farmacêuticos, em sua maioria empresas familiares tradicionais.

Elas atuam com marcas diferentes e também apostam em apresentações que vão de frascos-ampola a canetas aplicadoras. Até o momento, a Dinavisa não respondeu aos pedidos de comentário da EXAME.

1. Indufar CISA - T.G.

Fundado em 1973, o Indufar é um dos laboratórios tradicionais do Paraguai. Com mais de 50 anos de atuação, desenvolveu a marca T.G. Os produtos lá são vendidos em frascos-ampola para fracionamento individual ou em conjuntos com seringas descartáveis.

2. Éticos Scavone - Lipoless

Integrante do Grupo Scavone, um dos grupos tradicionais da indústria farmacêutica paraguaia, a Éticos lançou o Lipoless, voltado a terapias de controle de peso e diabetes. A empresa comercializa o produto em frascos-ampola e em dispositivos de aplicação, como as canetas MD Pen e One Click.

3. Quimfa S.A. - Tirzec

Com mais de 65 anos, a Quimfa ampliou seu portfólio, que inclui medicamentos respiratórios e sintomáticos, para especialidades como cardiologia e endocrinologia. A tirzepatida é comercializada em caixas com ampola e também na versão em caneta aplicadora automatizada Tirzec Pen.

4. Laboratorios Catedral - Tirzedral

Parte do Grupo Catedral, que atua em diferentes etapas da cadeia de saúde no Paraguai, a Laboratorios Catedral comercializa a tirzepatida sob a marca Tirzedral. A apresentação inclui caixas com quatro seringas pré-preenchidas para doses semanais.

5. Vicente Scavone & Cia. - Gluconex

Outro braço histórico da família Scavone, a Vicente Scavone & Cia. foi pioneira na produção industrial de medicamentos no Paraguai. A empresa comercializa tirzepatida sob a marca Gluconex. O produto é vendido em embalagens com quatro frascos-ampola ou seringas dosadas.

6. Landerlan - Lipoland

Conhecida na América Latina por sua linha de produtos hormonais e sintéticos, a Landerlan também passou a atuar no segmento metabólico com a marca Lipoland.

Quanto custa a tirzepatida das farmacêuticas paraguaias?

O preço é um dos principais diferenciais das versões paraguaias. Uma consulta aos catálogos de redes como Farmácia Catedral, Punto Farma e Farmacia Columbia mostra que as farmacêuticas locais oferecem diferentes doses e apresentações por valores inferiores aos do Mounjaro vendido no Brasil.

Entre os produtos encontrados estão o Gluconex, da Vicente Scavone, de 2,5 miligramas (mg) por Gs. 260.000 ou R$ 223,64. Na versão de 7,5 mg, o preço é de Gs. 319.000, cerca de R$ 338,25; e 15 mg custa Gs. 539.000 ou R$ 463,62.

No caso do Tirzedral, da Catedral, 2,5 mg saem por Gs. 260.000, aproximadamente R$ 223,64. A versão de 15 mg varia de Gs. 549.450 a Gs. 999.000, algo entre R$ 472,60 e R$ 859,28.

As versões das farmacêuticas paraguaias variam de, no geral, R$ 230 a R$ 900. Na comparação com o Brasil, o Mounjaro oficial custa entre R$ 1.300 e R$ 3.000 por mês, dependendo da dose.

De acordo com dados do Itaú BBA, o tratamento alternativo importado costuma custar 45% menos que o medicamento oficial de marca. A diferença ajuda a explicar por que as versões produzidas no Paraguai ganharam espaço entre consumidores brasileiros, mesmo não sendo autorizadas no país.

Preço vira arma comercial para as farmacêuticas paraguaias

A diferença de preços também virou uma estratégia comercial para os laboratórios paraguaios. Uma fonte do setor ouvida sob condição de anonimato disse que as empresas passaram a adotar ações voltadas diretamente ao público brasileiro, explorando justamente a diferença de preço em relação ao Mounjaro."Entre elas estão viagens com influenciadores brasileiros, facilidades de pagamento por Pix ou por contas bancárias brasileiras e vendas na fronteira", detalhou a fonte à EXAME.

Anvisa alerta para riscos de produtos sem registro

Além da questão regulatória, a circulação de versões não registradas levanta preocupações relacionadas à segurança dos pacientes. A Anvisa e especialistas alertam que medicamentos sem certificação sanitária podem representar riscos.

O órgão ressalta que o registro de um medicamento no Brasil "não é mera formalidade, mas um processo de avaliação complexo e aprofundado que visa garantir aos usuários eficácia, segurança e qualidade."

O uso sem essa avaliação 'pode acarretar desde o não efeito prometido até eventos adversos graves.

A tirzepatida é uma molécula proteica complexa, e problemas no processo de fabricação podem provocar impurezas e imunogenicidade. Um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) realizado com amostras paraguaias encontrou variações de 20% a 60% na concentração do princípio ativo.

A Eli Lilly também afirmou acompanhar com preocupação a venda clandestina de produtos sem aprovação. A companhia destacou que o Mounjaro foi aprovado pela Anvisa após um programa clínico com mais de 20 estudos e 30 mil participantes.

A farmacêutica disse ainda apoiar as autoridades brasileiras no combate ao mercado ilegal, com o objetivo de proteger pacientes de potenciais danos.

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