Políticos brasileiros reproduzem polarização ideológica e só vozes isoladas saem do figurino
Bolsonarismo comemora 'dia da liberdade' e lulistas criticam violação da soberania na AL, tema que deve perdurar até eleição de outubro


Ranier Bragon
A reação do mundo político brasileiro à ação dos Estados Unidos na Venezuela vem reproduzindo a polarização ideológica entre direita e esquerda, com poucas vozes destoantes.
Entre o bolsonarismo, houve ampla comemoração, comandada pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seguida pelos principais políticos da corrente.
Em comum, o discurso de que Donald Trump libertou o povo venezuelano da ditadura de Nicolás Maduro, além da insinuação de que o presidente deposto irá delatar supostas conexões entre o dinheiro do narcotráfico na América Latina e a esquerda brasileira.
"Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas…", escreveu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo pai como candidato à Presidência da República em 2026.
Uma das poucas vozes alinhadas ao campo ideológico do bolsonarismo a se colocar contra a invasão dos EUA e à captura de Maduro partiu de fora do Brasil.
A líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen. Apesar de criticar o regime de Maduro, disse que a tomada do poder pela força militar estrangeira é inaceitável e não pode ser relativizada.
No grupo de centro-direita e de direita brasileira não diretamente alinhada ao bolsonarismo, os elogios à deposição de Maduro também foram majoritários, como os vindos do ex-ministro Ciro Nogueira (PP-PI) e dos governadores Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Ratinho Jr. (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG), esses últimos pré-candidatos à Presidência.
"Que este 3 de janeiro entre para a história como o dia da libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista. Que a democracia, a liberdade e a prosperidade se instalem no país", escreveu Caiado em suas redes sociais.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), presidenciável preferido da direita não alinhada diretamente ao bolsonarismo, publicou vídeo nas redes mencionado diretamente a disputa de 2026. Ele apoiou a ação de Trump, disse que a Venezuela está “vencendo a esquerda” e que, "no final do ano, o Brasil também vence”.
O deputado Aécio Neves, presidente do PSDB, foi um dos poucos desse grupo mais de centro-direita que se posicionou de forma crítica a Trump, embora tenha ressaltado que isso não significa um apoio ao regime chavista.
"O PSDB repudia a invasão norte-americana à Venezuela. A violação da soberania de um país e o uso da força como instrumento político são inaceitáveis e não podem ser legitimados sob nenhuma circunstância. O respeito à autodeterminação dos povos é um valor essencial para todas as nações que defendem a democracia, a paz e o direito internacional", escreveu, em nota.
Já a esquerda seguiu o posicionamento adotado pelo presidente Lula, de condenação à ação norte-americana, classificada de inaceitável, com conclamação a uma ação de repúdio e de mediação dos órgãos internacionais multilaterais.
De forma geral, a defesa da soberania dos países da América Latina e a condenação à invasão não foram acompanhadas de um ataque direto a Trump.
O ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), foram alguns que subiram o tom.
"O ataque dos EUA à Venezuela é a ação imperialista mais grave que já vivenciamos. Alguém acha que Trump está preocupado com democracia? Ele quer petróleo", escreveu Boulos em suas redes, classificando o governo do norte-americano como "criminoso".
"A tentativa de Trump é – sem arrodeio – imperialista, como denunciamos inclusive na tribuna do Congresso, durante todo o ano passado. (...) No caso do ataque à Venezuela, o que se pretende é explorar as riquezas naturais e o petróleo venezuelano", escreveu Lindbergh.
A depender das reações a quente neste sábado, a tomada do poder na Venezuela pelos Estados Unidos será usada pela direita como forma de buscar desgastar Lula e as suas relações com o regime chavista, com a massificação também da existência de suposto abastecimento de governos de esquerda da região, entre eles o Brasil, com dinheiro do narcotráfico.
Já o governo Lula, pelo peso do Brasil na América Latina, entrará de forma direta em um segundo round de atrito com o governo Trump, com consequências ainda incertas.
No primeiro, relacionado ao tarifaço a produtos e às sanções contra autoridades brasileiras, Lula saiu internamente com uma vitória política ao ter conseguido empunhar novamente a bandeira da soberania nacional contra uma ameaça externa.
Nessa segunda etapa, há a importante diferença de que o que está em jogo não são diretamente os interesses de brasileiros, mas sim os da ditadura de Maduro.
Embora tenha havido um certo distanciamento e a condenação a ação norte-americana tente evitar uma defesa explícita do regime de Maduro, há antigos laços do chavismo e do presidente deposto com a esquerda brasileira.









