Ex-diretor da Abin de Lula temia que ação hacker no Paraguai vazasse para PF, mostra depoimento
Segundo relato, o então diretor-geral em exercício da agência recuou da data de início da operação por receio de prisão. Abin e Moretti não se manifestaram

Caio Crisóstomo
O então diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alessandro Moretti, um dos chefes suspeitos de autorizar a ação hacker contra autoridades paraguaias, temia que a operação sigilosa vazasse para a Polícia Federal (PF). As informações são do depoimento de um agente prestado à PF e obtido com exclusividade pelo SBTNews.
A operação Vortex, que incluía a invasão a computadores de autoridades do Paraguai, tinha como objetivo obter informações sobre a negociação envolvendo a venda de energia pela usina de Itaipu. + Paraguai convoca embaixador brasileiro e cobra explicações sobre suposto caso de espionagem
À época, o Brasil e o Paraguai negociavam uma revisão após 50 anos do Anexo C do Tratado de Itaipu, que determina a fórmula para o cálculo do preço da energia produzida.
O profissional da Abin -cuja identidade será preservada- relata que horas antes dos agentes de inteligência embarcarem para o Chile e para o Panamá, onde iniciariam a operação de invasão a computadores paraguaios, Moretti a suspendeu por receio de que a ação hacker fosse vazada aos policiais federais e os agentes acabassem presos na imigração.
Segundo o depoimento do servidor, Moretti suspeitava que o agente da Abin, envolvido na operação Vortex, pudesse vazar para um delegado da corporação. + "Abin paralela": PF deve indiciar 2 da atual cúpula a partir de documento de ex-corregedora
Moretti assumiu como diretor-geral em exercício da Abin no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no período até que Luiz Fernando Corrêa, atual diretor do órgão, fosse aprovado em sabatina no Senado. Moretti foi demitido em janeiro de 2024, após a PF revelar suposto conluio dele com investigados.
No depoimento, o agente afirma que só em momento posterior -não especificado-, o então ex-diretor da Abin voltou a autorizar a operação, que também teria sido aprovada por Luiz Fernando Corrêa, atual chefe da agência. + “Abin paralela”: Investigação aponta que equipe de Ramagem tentou esconder relatório de espionagem sobre caso de Renan Bolsonaro À época da operação Vortex, o nome de Corrêa ainda estava em trâmite para ser sabatinado no Senado Federal. Porém, segundo o relato do servidor à PF, ele já ocupava presencialmente a sala de diretor-adjunto e “exercia de fato a função de diretor-geral”.
Em nota divulgada na segunda-feira (31), após o portal UOL revelar a operação, o governo Lula negou que a ação hacker tenha ocorrido na gestão petista e que a suspendeu assim que ficou sabendo dela, em maio de 2023.
O depoimento até agora inédito contrasta com as afirmações dadas pelo governo Lula de que Corrêa teria suspendido a operação em maio de 2023, quando assumiu oficialmente o posto de diretor-geral.
Procurado, o ex-diretor Moretti não quis se manifestar. O SBT News também enviou questionamentos a Luiz Fernando Corrêa, ao Palácio do Planalto, ao Ministério das Relações Exteriores e à Abin, que não se pronunciaram até a publicação deste texto.