COP30 será um teste para Brasil, diz diplomata do Azerbaijão
Após visita a Lula, Elchin Amirbayov fala sobre negociações de paz com a Armênia, Cúpula do Clima e novas oportunidades de negócios

Murilo Fagundes
Em meio às movimentações diplomáticas que antecedem a COP30, prevista para novembro de 2025, em Belém (PA), o Azerbaijão — último anfitrião da cúpula — destaca que um dos principais desafios do Brasil na presidência será garantir que as promessas feitas no papel se traduzam em ações concretas.
Em entrevista ao SBT News, Elchin Amirbayov, enviado especial do Azerbaijão para questões climáticas, afirmou que o maior teste do país será transformar compromissos em medidas efetivas, superando o histórico de negociações que terminam em documentos sem resultados práticos. “Agora os países precisam passar dos compromissos para a ação real”, afirmou.
Para ele, o sucesso da conferência em Belém dependerá da capacidade do governo brasileiro de liderar com pragmatismo, construir consenso e assegurar que os recursos financeiros prometidos para a transição climática, como os US$ 1,3 trilhão anuais até 2035, comecem de fato a ser mobilizados.
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Após visita ao Brasil, o embaixador especial falou sobre os avanços no processo de paz com a Armênia, os aprendizados da COP29 — sediada em Baku — e as possibilidades de cooperação bilateral nas áreas de energia, educação, turismo e comércio.
Acordo de Paz
Sobre a questão geopolítica da região, Amirbayov destacou que o Azerbaijão está comprometido com a assinatura de um acordo de paz definitivo com a Armênia. “O texto do acordo de paz já está finalizado por Baku e Yerevan. O próximo passo é criar o ambiente político necessário para a assinatura, começando pela retirada do artigo da Constituição armênia que faz reivindicação territorial ao Azerbaijão”, afirmou.
Segundo ele, é necessário abandonar antigas estruturas de mediação, como o Grupo de Minsk da OSCE, que “não têm mais função”. “Hoje, a negociação acontece de forma bilateral, sem terceiros. E esse é o formato mais eficaz. Já provou ser frutífero”, disse.
Para o diplomata, o sucesso do processo pode transformar toda a região do Cáucaso. “Nossa região merece paz, estabilidade e prosperidade. Um acordo definitivo abriria caminhos para o comércio, a reabertura de fronteiras e a cooperação econômica.”
Legado da COP29
Durante a entrevista, Amirbayov também falou sobre o legado da presidência do Azerbaijão na última Conferência das Partes (COP29), realizada em 2024. “O maior ensinamento que podemos compartilhar com o Brasil é a importância de uma presidência inclusiva, transparente e orientada para a ação”, declarou.
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Segundo ele, a COP29 reuniu 77 mil participantes e 80 chefes de Estado. “Foi a segunda maior COP da história. Conseguimos aprovar o primeiro acordo operacional sobre mercados de carbono e estabelecer a meta de US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035”, contou.
Amirbayov reforçou o apoio ao Brasil na condução da próxima conferência climática. “Estamos em contato direto com a presidência brasileira da COP. Nosso papel agora é ajudar a garantir que os compromissos feitos em Baku se transformem em ações concretas em Belém.”
Novos caminhos com o Brasil
A visita do diplomata ao Brasil também teve caráter estratégico: aproximar os dois países em áreas como energia, educação, ciência e turismo. Segundo ele, a criação de um grupo de trabalho bilateral sobre comércio e investimentos está em andamento.
“Existe uma grande abertura do governo Lula. Encontrei-me com o chanceler interino, com o assessor diplomático do presidente e com parlamentares. Há vontade política. Agora precisamos transformar palavras em ação”, analisou.
O Azerbaijão aposta, por exemplo, na cooperação energética entre a estatal Socar e a Petrobras. “Podemos avançar em gás natural liquefeito, produtos derivados do petróleo e, futuramente, em presença comercial no Brasil”, afirmou Amirbayov. Na área agrícola, há interesse em parcerias em agroindústria e uso de novas tecnologias no campo.
A educação também foi destaque nas conversas. “Queremos aproveitar as bolsas disponíveis e criar parcerias entre universidades federais do Brasil e instituições do Azerbaijão. Isso pode levar a pesquisas conjuntas e aumentar o contato entre nossos povos”, explicou.
Outro ponto foi o turismo. O embaixador defende a criação de voos diretos entre os dois países. “A distância não pode ser um obstáculo. O contato entre as pessoas é a base da diplomacia. Queremos ver mais brasileiros explorando Baku e mais azeris conhecendo o Brasil.”
Segundo ele, o Azerbaijão tem “muito a oferecer” no setor: “Temos ecoturismo, turismo cultural, gastronômico, rotas de vinhos. O país é diverso e pronto para receber”.