Dupla que dopava vítimas para roubá-las é presa no interior de SP
Crimes envolvem uso de prática conhecida como "Boa Noite, Cinderela"; Polícia não descarta novas denúncias
Rodrigo Garavini
A Polícia Civil e a Guarda Civil Municipal (GCM) de São Roque, no interior de São Paulo, deflagraram nas primeiras horas desta sexta-feira (04) a Operação Letargia, que levou à prisão de dois homens acusados de aplicar o golpe conhecido como "Boa Noite, Cinderela". As vítimas eram dopadas com medicamentos, principalmente clonazepam, e tinham casas e comércios saqueados enquanto estavam inconscientes.
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Prisões na zona rural e em borracharia
O primeiro a ser preso foi Jonathan Francisco de Paula, de 24 anos, localizado em uma casa simples da zona rural da cidade. Ele saiu do imóvel com o rosto coberto e foi conduzido à delegacia.
Na sequência, o comboio seguiu até uma borracharia à beira de uma estrada vicinal. Lá, os policiais prenderam Valdeci Dias Carvalho, de 28 anos, que já tinha antecedentes criminais por furto.
Vítimas foram dopadas
De acordo com o delegado Enzo Santoro, responsável pela investigação, os criminosos utilizavam medicamentos para sedar as vítimas, muitas vezes misturando a substância a bebidas alcoólicas ou refrigerantes.
“Eles ofereciam bebida com o remédio e, quando a vítima apagava, praticavam o furto com calma, como se estivessem em casa”, explicou o delegado.
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Relatos de vítimas mostram o modo de agir
Um comerciante de 63 anos, que pediu para não ser identificado, relatou que foi a primeira vítima da quadrilha. Segundo ele, bastou um copo de cerveja servido por um dos bandidos para que ele perdesse a consciência.
“Apaguei do nada. Quando acordei, já tinham levado carnes, dinheiro e outros objetos. Ainda caí no chão e machuquei a coluna”, contou.
Golpes seguidos e aumento das suspeitas
Dias depois, outro morador de São Roque foi vítima do mesmo esquema. Ele conhecia Jonathan e permitiu que ele entrasse em sua casa junto de um amigo. Os três começaram a beber e, pouco depois, a vítima apagou. Ao acordar, percebeu que tinha sido roubado.
Em fevereiro, a quadrilha voltou a agir. Um cabeleireiro contratou um serviço de pedreiro pela internet e recebeu em casa dois homens — que se passaram por trabalhadores. Após oferecer refrigerante, ele deixou os suspeitos sozinhos por alguns minutos. Ao retornar, tomou um copo da bebida e desmaiou. Acordou apenas no dia seguinte com a ajuda de um sobrinho.
Imagens revelam ação da quadrilha
Câmeras de segurança da rua onde ocorreu o último crime flagraram a chegada dos suspeitos pouco depois da meia-noite. Após circularem pela calçada e retornarem ao veículo para buscar algo, dois deles entraram na residência. O motorista, identificado como José Rivaldo da Silva, fugiu antes dos comparsas saírem carregando pertences, como uma sacola cheia e um televisor. José Rivaldo ainda não foi encontrado pela polícia.
Novas vítimas podem surgir
A investigação continua e, segundo o delegado, não está descartada a hipótese de mais vítimas aparecerem nos próximos dias.
“A forma de atuação da quadrilha é meticulosa e pode ter atingido mais pessoas que ainda não denunciaram por medo ou vergonha”, afirmou Santoro.
Uma das vítimas, ainda abalada, desabafou: “Depois disso, perdi até o gosto por trabalhar. É como se tivessem levado não só minhas coisas, mas minha paz também.”