Deolane é transferida para penitenciária de Santana após operação contra lavagem de dinheiro do PCC
Polícia e MP dizem que influenciadora atuou como “caixa” financeiro do crime organizado; Justiça bloqueou mais de R$ 327 milhões de investigados


Larissa Alves
A influenciadora Deolane Bezerra foi levada para a penitenciária feminina de Santana, na zona norte de São Paulo, após ser presa na manhã desta quinta-feira (21), durante a Operação Vérnix, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo.
Após passar por audiência de custódia, ela poderá ser transferida para a penitenciária feminina de Tupi Paulista, na região de Presidente Prudente. A informação foi confirmada durante entrevista à imprensa realizada no Palácio da Polícia Civil, na região central da capital paulista. Deolane foi presa em um condomínio de luxo em Barueri, na Grande São Paulo.
Ao longo da entrevista, delegados e promotores colocaram a influenciadora no centro da investigação que apura um suposto esquema milionário de lavagem de dinheiro ligado à cúpula da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Na avaliação da força-tarefa, Deolane mantinha vínculos pessoais, financeiros e negociais com integrantes da facção criminosa.
A polícia afirma que ela já foi casada com um integrante do PCC e que mantinha proximidade com familiares de Marcola, apontado como principal liderança da facção. Segundo os investigadores, Deolane tinha relação próxima com a esposa de Alejandro Herbas Camacho, irmão de Marcola, além de prestar serviços a integrantes do grupo criminoso.
Para os investigadores, a influenciadora funcionava como uma espécie de “caixa” da organização criminosa. A suspeita é de que contas bancárias, empresas e patrimônios ligados a ela fossem usados para movimentar recursos ilícitos e dar aparência legal ao dinheiro do crime organizado.
A investigação também identificou transferências bancárias, depósitos e movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada pela influenciadora. O valor total que teria passado pelas contas ligadas a ela ainda é apurado.
Outro ponto destacado na coletiva foi a abertura de 35 empresas registradas em um mesmo endereço ligado a Deolane. Para a polícia, o modelo levanta suspeitas de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada.
Os investigadores também revelaram que Deolane passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a entrar na lista da Difusão Vermelha da Interpol. Segundo a polícia, caso ela não tivesse retornado ao Brasil na quarta-feira (20), poderia ser presa pelas autoridades italianas. A prisão no exterior, no entanto, não teria sido realizada antes por causa do sigilo da operação.
Ao todo, a Justiça decretou seis mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão. Além de Deolane, foi preso Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização criminosa.
Outros dois homens foram presos em flagrante por suspeita de estelionato durante a operação, embora não fossem alvos dos mandados expedidos pela Justiça.
Já Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola e filha de Alejandro Herbas Camacho, foi localizada na Espanha em uma ação de cooperação internacional, mas ainda não foi presa. Segundo os investigadores, ela transmitia informações do sistema prisional durante visitas ao pai e auxiliava na divisão de recursos da facção. Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, irmão de Paloma e sobrinho de Marcola, segue foragido.
Também foram cumpridos novos mandados contra Marcola e Alejandro, que já estão presos no sistema penitenciário federal. Marcola está preso desde 1999 e acumula condenações que ultrapassam 300 anos de prisão, que somam tráfico de drogas, organização criminosa e homicídio.

Operação e investigações
A Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 327 milhões em contas e bens dos investigados. Também foram sequestrados 17 veículos, incluindo carros de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis ligados ao grupo.
Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, as investigações começaram em 2019, depois que agentes recuperaram bilhetes descartados no esgoto de uma cela da Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior paulista.
O material continha referências a ataques contra agentes públicos, cobranças internas da facção e menções a uma “mulher da transportadora”, que ajudaria na movimentação de recursos financeiros do grupo criminoso.
A partir dessas informações, os investigadores chegaram a uma empresa de transportes localizada ao lado da penitenciária e administrada por um casal. A análise de celulares apreendidos revelou conversas, movimentações financeiras e conexões entre integrantes da facção, operadores do esquema e Deolane Bezerra.
Segundo a Polícia Civil, Marcola e o irmão, Alejandro, continuavam administrando a empresa de dentro do sistema prisional.
Durante a entrevista coletiva, as autoridades classificaram a Operação Vérnix como uma das maiores ofensivas recentes contra a estrutura financeira do PCC. Para os investigadores, a apuração mostra que a facção tem buscado cada vez mais espaço na economia formal, utilizando empresas para ocultar patrimônio e movimentar dinheiro ilícito.
A defesa de Marcola e dos sobrinhos Paloma e Leonardo, representada pelo advogado Bruno Ferulo, afirmou que ainda não teve acesso integral às investigações e disse tentar entender por que Marcola foi incluído na operação, já que segue preso no sistema penitenciário federal.
Deolane Bezerra já havia sido presa anteriormente, em 2024, durante uma investigação relacionada a jogos de azar.









