Japão e Venezuela: por que os danos foram tão diferentes?
Infraestrutura, profundidade do tremor, normas de construção e preparação para desastres influenciam diretamente a extensão dos danos

Consequências dos terremotos em La Guaira. | REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
O terremoto de magnitude 7,1 que atingiu a província de Kumamoto, no sul do Japão, nesta terça-feira (28), reacendeu o debate sobre como diferentes países enfrentam grandes abalos sísmicos.
Pouco mais de um mês antes, em 24 de junho, a Venezuela foi atingida por dois terremotos consecutivos de magnitudes 7,2 e 7,5 que deixaram milhares de mortos, dezenas de milhares de feridos e um rastro de destruição.
Embora ambos os episódios tenham ocorrido em regiões de intensa atividade sísmica, a magnitude não é o único fator que determina o impacto de um terremoto. Características do próprio abalo, como profundidade e sequência de tremores, além da infraestrutura, das normas de construção e da preparação para desastres, influenciam diretamente a extensão dos danos.
No Japão, o terremoto teve epicentro na província de Kumamoto, a cerca de 10 quilômetros de profundidade. O tremor levou à emissão de alerta de tsunami para o Mar de Ariake e o Mar de Yatsushiro, além de alertas para possíveis deslizamentos de terra e réplicas. Um hospital da região registrou mais de 80 feridos, enquanto equipes de emergência permaneceram mobilizadas para monitorar a situação.
Por estar localizado no chamado Anel de Fogo do Pacífico, o Japão convive com terremotos frequentes e mantém uma política permanente de preparação para desastres. O governo orienta a população a estocar água e alimentos, participar de simulados, definir planos familiares de emergência e reforçar as residências contra tremores. Em caso de terremoto, as recomendações incluem buscar abrigo imediatamente, desligar fontes de gás e energia, evitar construções danificadas e seguir as orientações das autoridades.
Além da preparação da população, o país investe há décadas em engenharia antissísmica. Muitos edifícios são projetados para resistir aos movimentos sísmicos por meio de tecnologias como isolamento de base e sistemas de amortecimento, reduzindo o risco de colapso durante grandes tremores.
Na Venezuela, o cenário foi diferente. Os dois terremotos ocorreram em um intervalo inferior a um minuto e são classificados por sismólogos como um terremoto duplo, quando dois eventos principais, com magnitudes semelhantes e epicentros próximos, acontecem em sequência. Segundo análises do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), os dois tremores tiveram origem em falhas geológicas distintas.
Como o primeiro terremoto já havia comprometido parte das estruturas, o segundo encontrou edifícios fragilizados, ampliando o número de desabamentos. A profundidade rasa dos dois eventos também fez com que a energia sísmica atingisse a superfície com maior intensidade.
De acordo com o governo venezuelano, mais de 5 mil pessoas morreram e cerca de 17 mil ficaram feridas. O desastre também deixou quase 20 mil pessoas sem moradia e levou mais de 21 mil moradores para abrigos temporários. Desde os terremotos, foram registradas mais de 1.300 réplicas.
Além das características geológicas, a vulnerabilidade de parte das construções e o contexto de crise enfrentado pela Venezuela são apontados por relatórios internacionais como fatores que agravaram os impactos do desastre. Hospitais, escolas, edifícios residenciais, estabelecimentos comerciais e outras estruturas foram danificados ou destruídos.
Uma avaliação preliminar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou prejuízos de aproximadamente R$ 34,6 bilhões, sem considerar os custos da reconstrução.
Os casos do Japão e da Venezuela mostram que a magnitude de um terremoto é apenas um dos fatores que determinam seus impactos. Características geológicas, qualidade das construções, planejamento urbano, sistemas de alerta e capacidade de resposta das autoridades influenciam diretamente o número de vítimas e a extensão dos danos.














