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Mais de 90 artistas cobram posição do Festival de Cinema de Berlim sobre guerra em Gaza

Carta aberta critica “silêncio” da Berlinale sobre o conflito; presidente do júri, Wim Wenders, defende que cineastas devem ficar fora da política

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O diretor Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Berlim | Axel Schmidt/Reuters
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Mais de 90 artistas ligados ao Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, assinaram uma carta aberta cobrando que o evento se posicione de forma clara sobre a guerra entre Israel e Hamas em Gaza. O texto foi publicado pela revista especializada Variety. Entre os signatários estão nomes como Mark Ruffalo, Javier Bardem, Tilda Swinton e o diretor brasileiro Fernando Meirelles.

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No texto, divulgado em 17 de fevereiro e que já soma 93 assinaturas, os artistas afirmam estar “consternados” com o que classificam como “silêncio institucional” do festival diante da guerra. A carta pede que a Berlinale “cumpra seu dever moral” e declare oposição ao que os signatários chamam de “genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra contra os palestinos”.

"A Berlinale até agora sequer atendeu às demandas de sua própria comunidade para emitir uma declaração que afirme o direito dos palestinos à vida, à dignidade e à liberdade; condene o genocídio em curso contra os palestinos; e se comprometa a defender o direito de artistas se manifestarem sem restrições em apoio aos direitos humanos dos palestinos. Esse é o mínimo que pode, e deve, fazer", diz a carta.

Festival mais político sob pressão

Considerado historicamente o mais político entre os grandes festivais, ao lado de Cannes e Veneza, o evento é acusado por ativistas pró-Palestina de não adotar uma posição semelhante à que tomou em relação à guerra na Ucrânia e aos protestos no Irã.

A polêmica ganhou novo fôlego após declarações do presidente do júri deste ano, o cineasta alemão Wim Wenders. Em entrevista, ele afirmou que o cinema deveria se manter afastado da política: “Somos o contrapeso da política. Somos o oposto da política”.

A carta rebate diretamente essa visão: “Não se pode separar uma coisa da outra”. Os signatários também mencionam que, segundo o Instituto de Cinema da Palestina, o festival teria atuado na “censura” de artistas que se manifestaram publicamente em defesa dos direitos dos palestinos.

Em resposta às críticas, a diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, afirmou que artistas não devem ser obrigados a comentar todos os debates políticos relacionados ao festival e defendeu a liberdade de expressão dentro do evento.

No tapete vermelho, a atriz francesa Juliette Binoche adotou um tom diferente ao comentar a carta. Embora tenha assinado, no ano passado, um manifesto crítico ao silêncio da indústria em relação a Gaza, ela não está entre os signatários do novo documento. “É mais fácil assinar um papel do que ir a Gaza ajudar as pessoas de verdade”, disse à Reuters.

“Estamos aqui para dar poesia, outra forma de perceber a vida. Como artistas, precisamos contar histórias para que as pessoas abram seus corações e mentes, tenham mais compaixão. É para isso que estamos aqui”, afirmou. Em outro momento, acrescentou: “Estamos do lado das pessoas que sofrem. Isso faz parte de quem somos”.

Retirada e boicotes

A controvérsia levou a escritora indiana Arundhati Roy a anunciar que não participaria mais do festival, classificando como “inadmissíveis” as falas de Wenders. O ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, saiu em defesa do cineasta, afirmando que seus comentários foram “equilibrados”.

A carta também menciona um movimento mais amplo dentro da indústria audiovisual. No ano passado, mais de 5 mil trabalhadores do cinema assinaram um compromisso de não colaborar com instituições cinematográficas israelenses consideradas “cúmplices” de abusos contra palestinos. Parte desse movimento foi criticada por estúdios como a Paramount.

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